CB, Cidades, p.30
20 de Nov de 2004
Lições para gostar do Cerrado
Biólogo de Brasília lança livro didático que valoriza a beleza e a importância do segundo maior ecossistema brasileiro. Estudantes de escolas públicas de Goiás terão acesso a informações sem preconceito
Aline Fonseca
Da equipe do Correio
Nem tudo que é torto é errado Vide as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado
Nikolas Behr
Nem feio, nem árido, nem pobre. 0 Cerrado - que ocupa dois milhões de quilômetros quadrados e distribui-se por dez estados - é belo. E rico: tem mais de dez mil espécies de plantas e 67 mil de animais já catalogadas. E não há do quê se envergonhar diante de tanta abundância, como mostra o livro Vivendo no Cerrado e Aprendendo com Ele, obra didática do biólogo brasiliense e professor universitário Marcelo Bizerril, 33 anos.
0 livro, lançado no início do mês por uma grande editora brasileira e em parceria técnica com a organização não-governamental Conservação Internacional, é um dos poucos direcionados aos ensinos fundamental e médio sobre o segundo maior bioma brasileiro. A obra será adotada em algumas escolas públicas de Goiás. No Distrito Federal, as negociações estão abertas.
A idéia é mostrar o Cerrado como ele é: bonito, diversificado e abundante. E mudar a visão das futuras gerações e sensibilizá-las a conservá-lo. Restam apenas 20% da vegetação original. A cada minuto no. Brasil, o ecossistema perde uma área que equivale a 2,6 campos futebol. "Há muito preconceito nos livros didáticos ainda hoje. Mostram que é uma vegetação retorcida, de solo pobre, ou que é uma boa área para agricultura e pasto, ou seja, sem muita utilidade além disso", afirma o biólogo.
Pesquisa
Bizerril pesquisou o Cerrado durante o ano de 2003. Reuniu fotos e informações para a montagem da obra. 0 livro teve origem na tese de doutorado, apresentada em 2002, sobre o ensino do Cerrado na educação fundamental do DE Foram avaliadas 250 escolas, sendo 130 públicas e 120 particulares. Em 91% das escolas, o clima, o relevo e as queimadas são os assuntos mais comentados. E 45% dos professores entrevistados desenvolvem o tema em no máximo cinco aulas. "É o tipo de coisa que se não é discutida, passa a não ter importância", diz Bizerril.
O Cerrado e a caatinga foram considerados há décadas os "patinhos feios" do meio ambiente. Até foram excluídos do hall dos biomas considerados patrimônio natural pela Constituição brasileira, enquanto. a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Pantanal e a Zona Costeira estão incluídos. Nos livros didáticos, 70% dos assuntos tratados são sobre o clima do Cerrado. Menos de 10% referem-se a animais, flora ou conservação do bioma. Em 31 livros de ciências analisados, só foram identificadas sete fotografias de paisagens de cerrado.
Diante de tudo isso, Bizerril resolveu escrever uma obra didática sobre o Cerrado para os habitantes do cerrado. "Os livros devem despertar atitudes éticas e afetivas, fazendo com que os estudantes sintam-se como habitantes do Cerrado, interessando-se em conhecê-lo", conta o biólogo. "Há também a dificuldade de que as obras são escritas por autores do eixo Rio-São Paulo que não tratam muito de outras regiões. Isso deveria mudar" acredita.
O Cerrado é tema difícil de ser tratado em sala de aula, segundo Carlos Humberto Silva, professor de Educação Ambiental no Centro, de Ensino Fundamental 2, no Cruzeiro. "Os professores sabem pouco do assunto. Existem muitos livros técnicos, mas poucos são didáticos. Então ficamos restritos à vivência e ao interesse de cada professor", comenta.
Sala de aula
Na escola do Cruzeiro, meio ambiente foi um tema discutido desde o início do ano. Os professores plantaram uma horta e ensinaram crianças da Estrutural sobre a importância da preservação. Ao aprenderem que o cerrado é tudo o que vivem e respiram, os alunos ganharam consciência ambiental. "A gente tem que trazer o Cerrado pra dentro da sala e os alunos para dentro do Cerrado", explica Carlos. "Só assim eles passam a vivenciá-las", explica.
O Cerrado provocou mudanças nas observações dos alunos."Eu não fazia idéia do que era, não ligava muito para falar a verdade", afirma Kathyussia Ferreira, 12 anos, da 8asérie. "Hoje, consigo reconhecer várias plantas e acho bem lindo"; afirma. "0 Cerrado pode trazer mais benefício do que a gente; imagina. Engraçado como aquele matinho interfere na nossa vida", diz Bruno Ramos, 14 anos, aluno da 8a série.
Nas aulas, a turma descobriu que no Cerrado tem o barbatimão, uma árvore cuja seiva pode curar inflamações. Viram a cagai ta, que tem um fruto meio amarelo, ácido, mas gostoso. Acha-. ram a copaíba, com um óleo medicinal já comprovado. "Apesar de vivermos no Cerrado, sabemos pouco sobre ele, ainda temos muito o que aprender", acredita o professor Carlos.
Por isso, Marcelo Bizerril abriu o livro com um poema de Nikolas Behr, um escritor do Cerrado: "Olhe bem os cerrados da próxima vez, rasteje por entre os capins e cupins e sinta o cheiro do anoitecer. 0 Cerrado é milagre, minha gente."
Idéias equivocadas
"O aspecto pobre e triste das plantas do Cerrado é conseqüência da falta de fertilidade dos solos da região".
"Assim, a pobreza dos solos explica a pobreza da vegetação que não se parece nem um pouco com as grandes florestas da região norte".
"Com o uso do calcário para corrigir a acidez do solo e outras providencias técnicas, o cerrado foi transformado, de vegetação rala e troncos retorcidos, em imensas áreas de pastagens ou de cultivo, principalmente de soja".
"Um território tão vasto como o brasileiro deve abrigar milhares de ecossistemas distintos mas, dentre esses, quatro merecem destaque pela sua extensão e riqueza: a floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Pantanal e os manguezais".
Frases de livros didáticos, selecionadas pelo autor, que depreciam ou omitem o Cerrado
CB, 20/11/2004, p. 30
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