OESP, Vida, p.A19
08 de Jan de 2006
Lenita, a guardiã de animais abandonados da Amazônia
Reserva da engenheira é a única no Amazonas com autorização do Ibama
Liège Albuquerque
Onças, antas, porcos-do-mato, veados, preguiças, macacos e aves são tratados como animais domésticos numa reserva conservacionista privada em plena área urbana em Manaus. Atrás de um longo muro alto e de grandes portões verdes, vizinho de condomínios de luxo no centro da cidade, fica o discreto endereço há 24 anos da reserva Cariuá (homem branco bom, em tupi), da engenheira ambiental paulista Lenita Alves de Toledo, de 56 anos, há 25 em Manaus.
Lenita é a única pessoa física no Amazonas com licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para manter um criadouro de animais selvagens em casa. Em todo o País, existem 380 criadouros conservacionistas. Para funcionar, precisam contratar um biólogo ou veterinário e um tratador, além de ter capacidade financeira e local adequado para manter os bichos. Também precisam enviar anualmente ao Ibama um relatório sobre as condições dos animais, que não podem ser comercializados.
A paulista perdeu as contas de quantos bichos hospeda. "Fixos, meus filhos são pelo menos 40, fora os de passagem, que vão daqui para algum zoológico ou para a mata." Todos têm nome de gente, como Priscila, Dandara, Fábio e Júnior.
Desde que a reserva foi criada, em 1995, e antes, quando começou a ter os primeiros macacos, em 1982, Lenita mantém o local com recursos próprios. "É caro, mas nem tanto, porque compro em feiras, de caixas e sacas", destaca. "Mais caro é quando algum deles adoece." Os vizinhos da reserva, segundo a engenheira, convivem bem com a idéia do zôo urbano privado. "Uma vez alguém jogou veneno, mataram uma anta. Mas, no geral, a convivência é pacífica."
Cacá, um de seus macacos, um dia invadiu a lavanderia da casa de um vizinho e espalhou todo o sabão em pó pelo chão. Ligaram para Lenita e ela foi pegar o arteiro, que ainda tinha roubado duas bananas.
Cacá é um macaco-de-cheiro residente. Os de passagem são animais capturados pelo Ibama em caso de tráfico de animais e maus-tratos. Ficam na reserva até serem devolvidos ao hábitat ou transferidos para zoológicos. Muitos dos animais que acabam ficando com Lenita são deficientes, não bem-vindos em zoológicos e presas fáceis se soltos na floresta.
Cegos, sem pernas, com as asas mutiladas e estressados por maus tratos, acabam ficando por lá. Na Cariuá há animais com histórias tristes: uma onça parda sem um dos olhos, outra com as presas arrancadas, uma arara azul que era criada em apartamento amarrada.
Lenita cuida há 15 anos de um macaco-japonês, o Roma, que quase foi abandonado na Floresta Amazônica porque estava muito velho e agressivo, segundo seus antigos donos, russos de um circo famoso que passou por Manaus. "Quem não entende de animais acha que é fácil simplesmente devolver ao hábitat. Animal de cativeiro precisa de adaptação", revolta-se a engenheira.
A preocupação mais recente é um pássaro coroa azul, uma espécie de uirapuru. Os veterinários que a auxiliam sugeriram sacrificá-lo. "Não tenho coragem. Como ele é muito lindo e colorido, os traficantes de animais vendem o bicho para o exterior, e quebram suas asas.
No caso dele, a maldade foi maior porque também quebraram as pernas." O pássaro fica em uma gaiola e Lenita diariamente o solta para um passeio em um pátio, longe dos olhos dos gatos. Muitos, assim como cachorros. Lenita também tem animais domésticos. Em São Paulo, era dona de um canil.
Seu amor pelos animais selvagens e a vontade de ajudá-los surgiu poucos meses depois de se mudar para Manaus, com os quatro filhos e o marido, transferido por uma multinacional.
A engenheira estreou seu criadouro, a casa cercada por uma área de cerca de um hectare, com um macaco-aranha fêmea, a Priscila. Foi encontrada por Lenita recém-nascida, ainda com o cordão umbilical, em uma feira de Manaus. "O dono gritava que eu podia levar porque tinham matado a mãe dela e iriam jogá-la no lixo", conta.
De Priscila para os próximos bichos foi um pulo. "As pessoas espalhavam que eu gostava de animais e iam me dando". A macaca de 24 anos é hoje uma "mãe de aluguel" profissional: acolhe todos os bebês macacos que chegam à reserva.
O local não é aberto, mas Lenita de vez em quando abre exceção. O telefone para quem quiser tentar uma visita à reserva ou fazer doações de alimentos ou remédios para os animais - dinheiro não é aceito - é (92) 9985-5081.
OESP, 08/01/2006, p. A19
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.