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Lavouras mais sensíveis se ressentem

Valor Econômico, Especial, p. F2
18 de Fev de 2016

Lavouras mais sensíveis se ressentem

Janice Kiss

Um futuro incerto ronda as lavouras de soja, milho, arroz e feijão do país. Nada há de errado com esses plantios. Eles só tendem a sofrer mais que outras plantações por conta do aquecimento do clima, quando as altas temperaturas podem não poupar as fases de floração e enchimento dos grãos, primordiais para uma colheita abundante.
A avaliação dos reveses do clima no campo faz parte do documento "Brasil 2040 - Alternativas de Adaptação às Mudanças Climáticas" feito em parceria por diversos grupos de pesquisa e encomendado pela Secretaria de Estudos Estratégicos da Presidência da República (SAE). A meta do trabalho é entender como o clima pode afetar o Brasil no futuro e servir como ferramenta para embasar políticas públicas de adaptação nas áreas da saúde, recursos hídricos, energia, agricultura e infraestrutura.
Publicado no final de 2015, o estudo revela que esses importantes cultivos - enquanto commodities (soja e milho) e alimentação do brasileiro (arroz e feijão) - podem ter suas áreas reduzidas: a primeira dupla, com 39% e 28%, e a segunda com 26% e 24%. "Os impactos recairão sobre produtores e consumidores", comenta Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa e um dos principais especialistas em mudanças climáticas do Brasil.
Mas não é apenas isso. As terras no Mapitoba (confluência de áreas entre Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia) correm o risco de desvalorização em decorrência das mudanças na produção. Outros cultivos vão migrar, como a cana-de-açúcar, que se dá bem em temperaturas altas, mas pode se estabelecer em regiões que hoje são mais frias.
A conta da andança das lavouras e das perdas na produção atual de grãos alimentícios foram calculadas em US$ 4 bilhões. O setor de soja arcará com cerca de 50% delas. O Mato Grosso, principal produtor do grão, perdeu 1 milhão de toneladas na safra 2015/16 por conta da estiagem.
Eduardo Assad está envolvido em estudos desse porte desde 2008, quando a Embrapa publicou o primeiro relatório sobre os efeitos do clima na agricultura. Mas ele não se aflige em demasia. "O levantamento se baseia no cenário atual e se nada for feito para detê-lo", diz.
O pesquisador é entusiasta do Programa ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), lançado pelo governo federal há seis anos e que dá acesso ao financiamento de tecnologias agrícolas que interferem de forma benéfica no clima, como a recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária- floresta, tratamento de dejetos animais etc. Mesmo com percalços, como os juros mais altos e as dificuldades na extensão rural, o programa atingiu R$ 3,65 bilhões (8 mil contratos) no ciclo 2014/15; 35,67% maior em relação à safra 2013/14.
Carlos Rittl, secretário- executivo do Observatório do Clima, acrescenta que além dessas tecnologias, o uso correto do território implica a restauração de florestas, especialmente em áreas de mananciais, para manter a água para a agricultura. "E um cuidado particular com os pequenos produtores, que possuem pouca margem de manobra", analisa.
O clima extremo é uma ameaça crescente para a segurança alimentar, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). "Não há erradicação da fome sem um acordo climático global", afirmou Ertharin Cousin, diretora do Programa Mundial de Alimentos, à época da convenção do clima, CoP-21, em Paris, ano passado. Segundo a agência, hoje cerca de 1 bilhão de pessoas estão desnutridas entre Ásia e África Subsaariana.
Mesmo que um alimento continue a ser cultivado não significa facilidade de acesso sobre ele. Conforme o Programa de Pesquisas em Mudanças Climáticas, Agricultura e Segurança Alimentar do CGIAR (parceira mundial para pesquisa em agricultura), o trigo, a soja, o milho e o arroz, que atualmente respondem por 75% das calorias consumidas pela humanidade, estão na mira do clima. Nas atuais condições climáticas, cerca de 4% das regiões produtoras do mundo enfrentam secas todos os anos. Até o fim do século acredita-se que essa parcela chegará a 18%.
Segundo a entidade, nos últimos 50 anos o mundo assistiu a uma padronização das dietas. Além da criação de sementes resistentes à seca e ao calor (Embrapa e Unicamp trabalham nessa linha de pesquisa) a CGIAR endossa o argumento de muitos profissionais da área da alimentação: diversificar a dieta para ter uma variedade mais rica de nutrientes e não depender de um sistema vulnerável.

Valor Econômico, 18/02/2016, Especial, p. F2

http://www.valor.com.br/empresas/4441532/lavouras-mais-sensiveis-se-res…

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