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Lavoura abriga fauna silvestre

OESP, Agrícola, p. 6-7
28 de Jan de 2009

Lavoura abriga fauna silvestre
Estudo da Embrapa identificou nada menos que 209 espécies
convivendo com a agricultura

Tânia Rabello

Há vida, muita vida nas lavouras e pastagens, além das próprias plantas e das pragas e doenças que costumam atacá-las. De vermes de solo, passando por minhocas, insetos, anfíbios, répteis, aves e até mamíferos que estão no topo da cadeia alimentar, inúmeras espécies de animais selvagens podem ser vistas se não morando, pelo menos frequentando assiduamente o ambiente agrícola. Os animais vão em busca de alimento, abrigo e até de uma via mais segura do que estradas de rodagem para se deslocar de um remanescente de mata a outro.

Pesquisa financiada pela Fapesp e realizada pela Embrapa Monitoramento por Satélite, de Campinas (SP), na Bacia do Rio Pardo, nordeste do Estado de São Paulo, cujos municípios abarcam 41.175 quilômetros quadrados, ou 16,5% da área total do Estado, identificou nada menos do que 209 espécies de animais, entre anfíbios, répteis, aves e mamíferos em lavouras como cana, laranja e outras frutíferas, café, florestas plantadas e pastagens. Incluem-se nesta lista animais raros, como o papagaio-do-mangue (Amazona amazonica); o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi); o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla); a onça-parda (Puma concolor) e o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus).

Todos foram identificados e relatados no trabalho Levantamento faunístico e avaliação da biodiversidade em agroecossistemas da Bacia do Rio Pardo, realizado pelo doutor em ecologia e pesquisador da Embrapa José Roberto Miranda, além dos biólogos Vagner Roberto Ariedi Jr. e Dennis Driesmans Beyer e do doutor em ecologia e pesquisador da Embrapa Fabio Enrique Torresan.

ADAPTAÇÃO

Miranda, que é especializado em vertebrados, comenta que, assim como os seres humanos se adaptam, os bichos também podem se adaptar a novos ambientes. "Um rato selvagem conhecido como catita, por exemplo, que vive cerca de um ano, pode adaptar-se geneticamente muito mais rapidamente a novos ambientes como lavouras, geração após geração", diz. "A cana crua é um farto alimento para várias espécies selvagens", continua Miranda, acrescentando que o sistema produtivo só tem a ganhar com esse aumento de biodiversidade, sobretudo no controle natural de pragas e doenças.

"O segredo é manter a temperatura e a umidade do solo em níveis que possibilitem a vida microbiológica, que é o início da cadeia alimentar, além de evitar queimadas." A técnica do plantio direto, por exemplo, que mantém uma espessa camada de palha cobrindo o solo entre um plantio e outro, é excelente para esta finalidade. E a técnica de colheita de cana crua, que evita queimadas, também permite maior biodiversidade. "Além disso, quanto menos pesticidas forem aplicados, mais viável se tornará a vida e a presença das mais diferentes espécies de invertebrados e vertebrados nas lavouras", finaliza.

Animais estão se adaptando
Para pesquisador, é inegável que tem havido uma evolução biológica
em curso nas matas próximas a lavouras

Tânia Rabello

Segundo Miranda, o principal objetivo do estudo foi "avaliar a contribuição da agricultura e pecuária na conservação dos povoamentos animais terrestres". A região escolhida não poderia ser mais apropriada, já que na Bacia do Rio Pardo concentra-se, segundo Miranda, um grande bolsão de agroecossistemas intensivos, que contribuem significativamente para o agronegócio brasileiro. As principais culturas perenes da região são citricultura e cafeicultura, seguidas pela silvicultura com eucalipto, pinus e seringueira. Há também pastagens, cana e lavouras anuais de grãos, com soja, milho, feijão e arroz, principalmente.

E bichos, muitos bichos. A presença dos animais foi detectada por meio de 303 levantamentos entre os anos de 2006 e 2007. Os pesquisadores fizeram a identificação das espécies por meio visual ou auditivo ou analisando pegadas, fezes, penas, ninhos, tocas , pelos e pelotas de regurgitação, em todas as estações do ano.

Ao todo, 209 espécies foram identificadas. "É um número bastante rico", diz Miranda. "É inegável que há uma evolução biológica em curso nas vegetações naturais próximas às áreas de cultivo." Proporcionalmente, segundo Miranda, o sistema de cultivo de cana orgânica foi o que mais espécies apresentou, 89 especificamente neste estudo, já que levantamentos em cana orgânica vêm sendo feitos desde 2002. Quantitativamente, até pela área maior ocupada, as pastagens abrigaram o número mais abundante de espécies: 106.

INSTALAÇÃO PERMANENTE

"Anualmente, novas espécies devem estar sendo agregadas por processos naturais à comunidade animal e muitas delas poderão encontrar possibilidade de instalação permanente no novo ambiente."

O importante, porém, segundo Miranda, é a estabilidade dos cultivos. Por exemplo, em canaviais, a manutenção da palhada após a colheita da cana crua, ano após ano - "São cerca de 20 toneladas de palhada e restos de lavoura por hectare/ano", destaca o pesquisador -, é fundamental para a atração e fixação de várias espécies de animais silvestres. "A previsibilidade é outro conceito que contribui para a atração dos animais, ou seja, a certeza de que todos os anos haverá alimento naquela área." Além disso, obviamente a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis são fundamentais para estimular a biodiversidade.

Segundo Miranda, mesmo que seja exclusivamente para deslocamentos, as lavouras estão cumprindo o papel de corredores de fauna. "Elas são mais confiáveis para a segurança das espécies do que a travessia por estradas de rodagem", diz ele.

O trabalho da equipe de Miranda não para por aí. Segundo o pesquisador, duas novas áreas, uma em Serra Negra, numa fazenda produtora de leite e derivados orgânicos, e outra em Indaiatuba, também com produção orgânica, já estão tendo a biodiversidade mapeada. "Essas propriedades estão sendo monitoradas pela Embrapa Meio Ambiente", diz Miranda, animando-se com o fato de que, no futuro, os cultivos agrícolas possam ser importante meio para conservar a vida não só do homem, mas também de outras espécies de animais.
Informações: Embrapa Monitoramento por Satélite, tel. (0--19) 3211-6200

Preciosidades: 5 dos 14 animais ameaçados de extinção identificados no estudo

Lobo-guará

Nome científico: Chrysocyon brachyurus
Hábitat: É originário da América do Sul. É encontrado
em florestas, campos e, principalmente, cerrados

Sucuri

Nome científico: Eunectes murinus
Hábitat: Vive em rios, lagos e matas próximas a rios; é
originária da região central da América do Sul

Bugio

Nome científico: Alouatta caraya
Hábitat: É originário do Brasil e parte da Argentina. Habita florestas

Gato-mourisco

Nome científico: Herpailurus yagouaroundi
Hábitat: É encontrado desde os Estados Unidos ao Norte da Argentina, inclusive no Brasil; vive em bordas de banhados, beira de rios e lagos e também em lugares secos, com vegetação aberta

Tamanduá-bandeira
Nome científico: Myrmecophaga tridactyla
Hábitat: Encontrado em áreas de campos e cerrados e distribuído geograficamente na América Central e na América do Sul

OESP, 28/01/2009, Agrícola, p. 6-7

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