Folha de Boa Vista
Autor: Jessé Souza
07 de Mai de 2008
As pessoas insistem em querem transformar os roraimenses em kosovares, ex-russos ou qualquer tipo de moradores de país esfacelado da extinta União Soviética. E o pior é que ainda existem intelectuais, Brasil afora, que reproduzem tal absurdo.
Quem for fazer uma releitura da História de Roraima, desde os primeiros viajantes a mando da Coroa Portuguesa, vai encontrar relatos surpreendentes da captura de índios, massacres e extermínios dos mais variados. Muitos índios foram lavados como escravos para Belém e São Luiz do Maranhão.
Até nos escritos de Lobo DAlmada, que trouxe para cá as primeiras patas de boi, há trechos que explicitam essa colonização por via da força, política inclusive autorizada pelo poder central e considerada "normal" à época. A história do Forte São Joaquim também é repleta de sangue e lágrimas dos indígenas.
Ao longo dos anos, os índios sempre foram vítimas e, para sobreviver, tiveram que baixar a cabeça (e muitas vezes a calça), aceitar a escravidão ou trabalhos análogos a escravo. Em qualquer parte do mundo foi assim: índios bons foram aqueles que aceitaram a "integração" e concordaram viver "pacificamente" (entenda-se: aceitar a ficar com as sobras).
Nos mais longínquos lavrados de Roraima a ocupação ocorreu desta forma, com índios tendo que se render ou escolher em ser enxotado para mais longe ou virar peão e agregado das fazendas.
Mesmo empurrados para as fronteiras ainda assim não ficaram livres, pois se tornaram objeto de disputa de europeus. Lá foram atacados por militares e alvo de catequizadores e de aldeamentos. Mas resistiram até o fim da disputa territorial entre Brasil e Inglaterra, em 1904, ajudando a manter o atual limite fronteiriço do Brasil.
São os mesmos indígenas que tentam manter direitos garantidos na Constituição Federal de 1988. A Polícia Federal hoje sabe como é o tratamento na região por parte dos invasores: bombas molotov, tiros de espingarda, pontes queimadas, táticas de guerrilha.
Em uma região remota como as áreas indígenas a nordeste de Roraima, a 200 Km da Capital, imagine o que não sofrem os índios que não se entregam ao neocoronéis agrícolas. Se os jagunços afrontam a PF, por que vão respeitar índios com arco e flecha?
São estes brasileiros de etnia indígena, que lutam para viver em paz em suas terras, que os mal-intencionados intelectuais de grãos querem chamar de kosovares, de lesa-pátrias, entreguistas ou coisa parecida.
Hoje a História mudou. Surgiram leis, declarações humanitárias internacionais e a própria Constituição que impedem a colonização do açoite e da espingarda.
Agora são os indígenas querendo ser protagonistas da História, e não mais pões de fazenda, agregados ou compráveis por qualquer garrafa de cachaça e churrasco em tempo de eleição. Índio perigoso é o que conhece e luta por seus direitos. Índio pacífico é o que quer continuar peão ou agregado.
* Jornalista - jesse@folhabv.com.br
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