O Globo, Economia, p. 28
21 de Mar de 2011
Justiça exige que Camargo Corrêa dê transporte e alimentação em Jirau
Se descumprir liminar, empresa terá que pagar multa de R$ 500 mil
Cássia Almeida, enviada especial
A Justiça do Trabalho de Rondônia concedeu liminar à ação movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) no fim da noite de sexta-feira, obrigando a construtora Camargo Corrêa, responsável pelas obras da Usina Hidrelétrica de Jirau, a pagar transporte, alimentação, verbas rescisórias e ajuda de custo aos operários que tiveram que deixar o canteiro de obras. Um dos maiores projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), as obras de Jirau estão paradas depois que uma rebelião que começou na terça-feira provocou a destruição de alojamentos, áreas de lazer e escritórios no local, que abrigava 22 mil trabalhadores. Caso não cumpra as exigências, a Camargo Corrêa receberá multa de R$ 5 mil por cada trabalhador afetado e por cada obrigação descumprida, além de uma multa geral de R$ 500 mil. Segundo a Camargo Corrêa, a empresa ainda não foi intimada oficialmente. A construtora alega ainda que já vinha cumprindo as determinações do MPT.
Operário caminhou por sete horas para fugir da rebelião
Na manhã deste domingo, cerca de 1.500 funcionários da companhia ainda esperavam do lado de fora do Ginásio do Sesi para embarcar nos ônibus que levavam os empregados para seus estados de origem. Ivanaldo da Silva Passos, de 39 anos, aguardava desde quinta-feira o ônibus para o Piauí, para ir até sua cidade, Piripiri. Dormiu pouco e esperava resignado a hora de rever a mulher e os dois filhos, de 11 e 12 anos.
- São só promessas. Dizem que sai hoje, amanhã, e nada.
Na vida de Passos, que há 20 anos percorre o país atrás de obras, o convívio com a família é escasso. Ele Já passou por São Paulo, Mato Grosso, Pará, mas é a primeira barragem da qual participa como ajudante de pedreiro. Analfabeto, não havia oportunidade em Teresina, capital de Piauí, cidade mais perto de casa. Ele chegou a Jirau há um mês, depois que um vizinho o inscreveu para embarcar num ônibus para Rondônia. A passagem foi paga pela Camargo Corrêa, mas dos R$ 180 gastos com alimentação durante os quatro dias de viagem, Passos só obteve o reembolso de R$ 60. O trabalho na usina é árduo. Ele acorda às 5h e só perto das 19h chega ao quarto que divide com sete colegas. Saía de 15 em 15 dias, para ligar para família. Os orelhões do canteiro estão quebrados. Agora ele conseguiu comprar um celular, com o salário de R$ 1.100.
O trabalho é contínuo na usina. Mensalmente, os operários alternam entre o turno diurno e noturno. A preferência é pela noite, quando fica mais fresco - eles chamam a frente de trabalho de buraco quente. As roupas são fechadas e pesadas para prevenir da malária.
O ajudante de carpinteiro José Alves da Costa, de Luizilândia, no Piauí, vendeu a moto para pagar a passagem de avião e tentar uma vaga em Jirau. Chegou em 12 de janeiro, mas só conseguiu 14 dias depois. As economias com a venda da moto foram embora. Como ajudante, ganha R$ 723. Ele só conseguiu sair com a roupa do corpo do alojamento e sofreu com o gás de pimenta lançado pelos policiais na hora do tumulto. Saiu a pé às 8h de quarta-feira de Jirau e só parou às 15h em Nova Mutum, a cidade mais próxima. Como veio trabalhar na usina por conta própria, não tem direito a receber a passagem para visitar a família. São seis filhos à espera.
A Camargo Corrêa informou neste domingo à noite que só restam 500 trabalhadores no Ginásio do Sesi, os demais já voltaram para casa. A ajuda de custo dada é de cem reais.
O Globo, 21/03/2011, Economia, p. 28
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