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Juízo, Brasil!

JB, Outras Opiniões, p. A13
Autor: MORAES, Antônio Ermírio de
14 de Nov de 2004

Juízo, Brasil!
No Brasil, 95% da eletricidade tem origem hídrica. Isso significa que dependemos de São Pedro

Antonio Ermírio de Moraes
Empresário

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão responsável pelo monitoramento dos reservatórios e da produção de energia elétrica, registrou um consumo recorde de eletricidade nos últimos meses. Em setembro o Brasil consumiu 45.117 megawatts médios. Foi um recorde absoluto. Em outubro, foram 44.462 megawatts médios. No acumulado, o consumo de outubro atingiu a cifra de 33.080 GWh, o mais elevado da história do Brasil.
Para que o leitor não se perca nesse cipoal de números, basta dizer que a leve recuperação da economia do país já fez ascender a luz amarela nos painéis que acompanham a disponibilidade de energia elétrica.
No Brasil, 95% da eletricidade tem origem hídrica e não poluidora. Isso significa que dependemos totalmente de São Pedro que, aliás, tem sido muito bom com os brasileiros nos últimos tempos. Em 2003-04, as chuvas encheram os reservatórios. Há cerca de 160.851 megawatts armazenados nas hidrelétricas, o que significa dois terços de sua capacidade total. Trata-se de uma situação bem mais confortável da experimentada em 2002 e 2001, quando a crise energética nos pegou em cheio.
Mas de nada adianta essa preciosa colaboração de São Pedro se o país não constrói mais usinas hidrelétricas. O horário de verão ajuda a fazer uma importante economia de eletricidade, especialmente nos horários de pico. Mas a carência energética é preocupante em um cenário de crescimento mais acelerado.
Dados da Confederação Nacional da Indústria estimam um crescimento industrial da ordem de 7% para 2004. Para continuar nesse ritmo, e garantir um crescimento do PIB da ordem de 4,5% ou 5%, o Brasil precisa investir, no mínimo, US$ 6,5 bilhões por ano na construção de usinas elétricas.
Isso não vem acontecendo. Os investimentos no setor estão muito atrasados. Os avanços na geração de energia hídrica têm sido impedidos em grande parte pelos excessos de burocracia que cercam as exigências ambientais.
É claro que a construção de uma usina elétrica em determinado rio afeta o meio ambiente. Mas isso é um problema totalmente reparável. Não há razão para ver fantasmas. Aliás, os próprios projetos de construção garantem essa reparação como, aliás, tem acontecido em todas as usinas até então construídas no Brasil.
Não podemos ser superficiais no tratamento de problemas profundos. O Brasil tem um enorme potencial hídrico e explora apenas 27% de sua capacidade. Esse potencial é uma graça de Deus, pois se trata de energia não poluente. Poucos países têm esse privilégio.
Por isso, temos de reverter o atual quadro de inanição que domina os investimentos hidrelétricos. Oxalá o megaleilão de energia anunciado para o início de dezembro possa sinalizar a abertura de uma nova era na qual o país passe a estimular e apoiar os que desejam e tem vocação para produzir energia porque uma coisa é certa: de nada adianta fixar belas metas de crescimento e de emprego se não produzirmos a energia que o Brasil precisa.
Antônio Ermírio de Moraes

JB, 14/11/2004, Outras Opiniões, p. A13

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