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Jazidas de gás à venda na Amazônia

OESP, Economia, p. B10
26 de Jun de 2005

Jazidas de gás à venda na Amazônia
Área de 63,3 mil km quadrados servirá de testes para as teorias de que existem grandes reservas de petróleo e gás na região

Nicola Pamplona

RIO - A Agência Nacional do Petróleo (ANP) vai licitar este ano 63,3 mil quilômetros quadrados para exploração de petróleo e gás na Floresta Amazônica. A área, maior que o Estado da Paraíba, pode servir de teste para teorias sobre a existência de jazidas gigantes de gás na região.
A atividade petrolífera na maior floresta tropical do mundo, porém, encontra obstáculos ambientais e econômicos, já que o escoamento das reservas vai demandar a construção de milhares de quilômetros de gasodutos rasgando a selva.
A área licitada está dividida em 28 blocos, que circundam a província de Urucu, a única das três jazidas de gás comprovadas na Bacia do Solimões em operação. A primeira descoberta na região ocorreu em 1978, em um campo batizado de Juruá, até hoje inativo por falta de capacidade de transporte do gás. Juruá fica a Oeste de Urucu, em uma área de floresta mais virgem. Este último, por sua vez, foi descoberto em 1986 e só recentemente a Petrobrás conseguiu licença ambiental para ligar as reservas a Manaus, principal mercado do Norte.
Ao incluir os blocos no leilão de outubro, a ANP pretende desenvolver o reconhecido potencial da Bacia do Solimões para o gás natural, combustível considerado prioritário para o governo. Há quem acredite que o Solimões faça parte de uma grande província que vai até a região do campo de Camisea, na Amazônia Peruana, onde se estima haver 2,8 trilhões de metros cúbicos de gás natural, mais de cinco vezes as reservas brasileiras.
"Me parece lógico que as jazidas de lá estão relacionadas com o contexto sub-andino, o mesmo de Camisea", diz o professor Giuseppe Baccocoli, da UFRJ, que teve experiência pela Petrobrás na região. Ele ressalva que não há dados suficientes para provar que Camisea e Urucu fazem parte de uma mesma província. "É uma bacia com vocação para gás, mas não há informações para saber o seu tamanho real", concorda Sérgio Possato, presidente da empresa de pesquisa Stratageo, que tem no currículo uma passagem pela ANP.
A falta de dados sobre a região do Solimões é uma dos motivos para incluir os blocos no leilão. Até hoje, só a Petrobrás teve atuação por lá - além dos campos descobertos, busca reservas em dois outros blocos - e a concessão de mais áreas poderia incentivar a aquisição de novos dados.
Mas, se depender de executivos ouvidos pelo Estado, a exclusividade da estatal brasileira será mantida. "Se dissermos que vamos procurar petróleo na Amazônia, o Greenpeace acampa em nossa porta e não sai mais", brinca o diretor de uma petroleira européia com operações no Brasil.
Brincadeiras a parte, o risco de arranhão à imagem de uma companhia multinacional é grande, concordam os entrevistados. No entanto, o obstáculo maior é o alto risco do negócio, avalia Baccocoli, lembrando que a anglo-holandesa Shell, que descobriu Camisea, abandonou o projeto por falta de perspectivas. "O aproveitamento de gás na selva é um problema seriíssimo", afirma. A exploração de petróleo em mata fechada é cara e complicada. Não há estradas e as operações têm que ser feitas de helicóptero, abrindo clareiras na floresta para pouso e decolagem.
Acrescente-se o fato de a região do Alto Amazonas, onde fica a bacia, ter reservas de índios não aculturados. O professor da UFRJ lembra de um confronto entre índios da região do Rio Jandiatuba e técnicos da Petrobrás, na década de 70, caso abafado na época. Na ocasião, a estatal procurava reservas a oeste da bacia. "Teve gente que tomou flechada e respondeu jogando as dinamites que são usadas para fazer pesquisa".
Apesar das dificuldades, a Petrobrás conseguiu desenvolver reservas na região. Urucu, por exemplo, tem quase 50 bilhões de metros cúbicos de gás natural, pouco mais de 10% das reservas nacionais, e outros 100 milhões de barris de óleo de boa qualidade e condensado - frações líquidas do gás, também chamado de gasolina natural.
No entanto, 80% da produção de gás é reinjetada nos reservatórios. O problema do escoamento da produção será ainda maior para novas reservas que venham a ser descobertas, ressalta o professor Edmilson Santana, da USP, já que a estatal vai abastecer Manaus e Porto Velho.
"No meio da floresta, não há mercado para o gás natural", concorda Santana. Ele lembra, porém, que, dependendo do volume de condensado que houver nos reservatórios, o projeto se torna viável. Como no caso de Urucu: pode-se ficar apenas com a parte líquida. Além disso, há novas tecnologias de liquefação do gás, que pode ser transportado por navio.
Possato acredita que as barreiras à construção de dutos tendem a diminuir com o tempo. "Se temos um gasoduto enorme como o Bolívia-Brasil, porque não construir lá?", questiona. Ambientalistas reclamam que esse tipo de obra demanda abertura de estradas e de uma faixa de 20 metros de largura para a colocação dos tubos.

Petroleiras fogem das ondas da pororoca
Paraíso dos surfistas, que vêm de todo o mundo para aproveitar as longas ondas da pororoca, a Foz do Rio Amazonas tornou-se algoz das empresas de petróleo que se arriscam na região. A última vítima foi a britânica BP, que deve devolver à Agência Nacional do Petróleo (ANP) as duas concessões que tem na região. Na década de 70, nove companhias, entre elas as gigantes Shell e Exxon, se arriscaram por lá e também fracassaram. Era a época dos contratos de risco com a Petrobrás e a Foz do Amazonas figurou entre as bacias mais disputadas.
O período exploratório dos blocos vence no segundo semestre e a empresa terá de definir se continua investindo ou devolve as concessões. Considerando que cada poço perfurado lá pode custar até US$ 40 milhões, a devolução é tida como certa. Oficialmente, a empresa informa apenas que o risco da região aumentou consideravelmente. Parceira da BP nos dois blocos, a Petrobrás informou que está analisando alternativas para continuar os trabalhos. A estatal, aliás, é a única a manter a aposta na região. No último leilão da ANP, arrematou nove áreas, aumentando para 21 o número de blocos em seu portfólio, sem contar os dois operados pela BP.

OESP, 26/06/2005, Economia, p. B10

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