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Italianos: biotecnologia sim, interesse nao

OESP, Geral, p.A11
29 de jun de 2004

Italianos: biotecnologia sim, interesses não
Pesquisa mostra que na Itália maioria teme uso político do conhecimento científico
Dizer que os consumidores europeus são contra os transgênicos é fácil.
Entender o porquê dessa rejeição, entretanto, é mais complicado. No que diz respeito aos italianos, segundo pesquisa publicada na revista Nature, a preocupação não é tanto com a biotecnologia, mas com a transparência das relações institucionais e governamentais em torno dela.
A enquete, com 994 pessoas, faz parte de uma série de estudos sobre opinião pública e biotecnologia na Itália. Os resultados evidenciam clara hostilidade aos organismos geneticamente modificados (OGMs), apesar de grande dose de desconhecimento sobre a tecnologia - assim como conceitos básicos de biologia.
Segundo uma das perguntas, que já se tornou clássica no setor, por exemplo, 38% das pessoas acreditam que apenas tomates geneticamente modificados possuem genes, enquanto o tomate tradicional não. E 29% não souberam responder.
A pesquisa revela que 84% das pessoas são favoráveis às pesquisas com biotecnologia aplicada à saúde (medicamentos), mas apenas 57% as apóiam na área agrícola. E apesar de 39% considerarem cientistas as fontes mais confiáveis para falar sobre biotecnologia, 69% acreditam que a ciência está "carregada de interesses". Um entre cada cinco entrevistados acha que as decisões sobre biotecnologia devem ser responsabilidade de "todos os cidadãos".
"Nosso estudo sugere que o que estamos observando representa receio quanto aos procedimentos interligando conhecimento científico, processo decisório e representação política", escrevem os autores do estudo, Massimiano Bucchi, da Universidade de Trento, e Federico Neresini, da Universidade de Pádua.
"Acreditamos que nem o enfoque elitista ('deixe com os especialistas') nem o enfoque utópico (que assume que todos os cidadãos devem ser transformados em especialistas científicos) é viável."
Estado - Por que vocês acham que as pessoas são favoráveis à biotecnologia na medicina, mas não na agricultura?
Federico Neresini - Pelo menos no caso italiano, as pessoas são mais abertas a aplicações médicas porque os benefícios parecem ser mais claros para elas, apesar da percepção de que há riscos envolvidos. Em outras palavras, as pessoas parecem mais aptas a aceitar alguns riscos na esperança de conseguir algo ainda não disponível (uma cura, uma droga), e menos para melhorar algo com o qual já estão satisfeitas (alimentos).
Estado - Se as pessoas consideram os cientistas mais qualificados para falar sobre biotecnologia, por que não confiam neles para tomar as decisões nesse caso?
Neresini - O que os cientistas dizem é apenas um elemento de um processo muito complexo que influencia atitudes e comportamentos. Além disso, os cientistas podem ser percebidos como fontes não completamente isentas de interesses e, como conseqüência, seu conhecimento às vezes pode não ser considerado completamente confiável pelo público em geral.
Estado - É possível reverter essa hostilidade generalizada aos transgênicos?
Neresini - Acho que a médio e longo prazos as atitudes referentes à biotecnologia serão amenizadas, mas vai depender muito do que fizerem os cientistas. É importante que os pesquisadores aceitem dialogar abertamente com outros pontos de vista, aceitando que temas como a biotecnologia não têm a ver apenas com ciência, mas envolvem questões políticas, econômicas e sociais que precisam ser balanceadas com as posições de diferentes atores.
Estado - É natural que as pessoas tenham medo da biotecnologia?
Neresini - O novo é sempre algo problemático. As pessoas em geral costumam ser muito conservadoras, e a inovação tecnológica não é algo tão fácil de se aceitar. É realmente um processo social. (H.E.)

OESP, 29/06/2004, p. A11

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