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IPCC indica perigoso aumento do nível do mar

OESP, Metrópole, p. A 34
28 de Set de 2013

IPCC indica perigoso aumento do nível do mar
Oceanos estão mais ácidos e menos capazes de captar CO2, acelerando o efeito estufa

Andrei Netto , enviado esoecial / Estocolmo - O Estado de S.Paulo

Oceanos foram um dos domínios em que o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre mudanças climáticas mais avançou nos últimos seis anos, segundo os cientistas. Graças à multiplicação de modelos mais complexos e confiáveis, a qualidade das constatações científicas permite hoje saber mais sobre o comportamento dos mares sob o efeito da elevação da temperatura da Terra.
De acordo com o relatório do IPCC, "desde o meio do século 19 o nível do mar cresceu mais do que durante os dois milênios anteriores", uma constatação que os experts consideram de "alta confiança". "No período 1901-2010, o nível médio do mar cresceu 0,19 metro. Em parte, o resultado é fruto da aceleração do derretimento de geleiras e da expansão térmica, fatores que, juntos, respondem por 75% do crescimento observado, outra conclusão da qual os cientistas estão convencidos.
Até o século 20, os oceanos vinham conseguindo absorver a maior parte do aquecimento da temperatura da Terra, reduzindo o impacto do aquecimento. Mas o limite está chegando e, com ele, o início de um círculo vicioso. A maior concentração de CO2 na atmosfera vem causando acidificação dos mares, que tende por sua vez a reduzir sua capacidade de captar CO2, acelerando o aquecimento global. Especialista no tema, o pesquisador Edmo Campos, do Instituto Oceanográfico da USP, diz que os mares demoraram a responder ao aquecimento. "Mas agora estão sendo atingidos pelos efeitos colaterais da ação do homem", ressalta.
Avanço. Para o pesquisador, em relação aos oceanos, houve avanço considerável na quantidade de informações no relatório do IPCC de 2013 na comparação com o de 2007. "Não foi encontrada uma novidade bombástica. Mas há mais informações que atestam que o oceano está passando por alterações em resposta a mudanças no sistema climático que são antropogênicas (promovidas pelo Homem)", diz Campos. Segundo ele, o levantamento permite concluir que o oceano está sofrendo alterações em várias de suas propriedades de clima pelo menos nos últimos 40 anos.
O oceano tem um papel importante para o equilíbrio do sistema climático. "O sistema climático é formado por vários componentes, como atmosfera, florestas, vulcões, sistema terrestre, hidrológico. O oceano é importante porque é formado por água, com elevada capacidade térmica, que exige uma grande quantidade de energia para alterar sua temperatura. Isso faz com que o oceano controle as variações do clima", diz.
Campos lembra que o ecossistema terrestre vem sofrendo alterações há muito tempo, mas que o sistema não está alterado de modo substantivo porque o oceano tem feito com que as alterações sejam mais brandas. "Mas, ao afetar o oceano, vamos diminuir a capacidade de regular alterações", alerta.

Em 33 anos, Ártico perdeu 'uma Espanha'

Grande parte dos dados que permitem aos cientistas afirmar como era o clima há 800 mil anos vem das camadas de gelo do Ártico e da Antártida. Mas, a julgar pelas próprias perspectivas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), esse estoque de informações está cada vez mais ameaçado. Estatísticas publicadas ontem indicam que o derretimento nas regiões polares nunca foi tão acentuado.
"A média global de decrescimento da extensão do gelo no Oceano Ártico no período 1979-2012 foi muito provavelmente entre 3,5% e 4,1% por década, ou entre 450 mil e 510 mil quilômetros quadrados", diz o IPCC, referindo-se a uma área equivalente ao tamanho da Espanha, pouco inferior ao tamanho de Minas Gerais.
Nos verões, a perda chega a entre 9,4% e 13,6% por década, ou entre 730 mil e 1,07 milhão de quilômetros quadrados - maior que o Egito, ou um pouco menor que o Pará. Nas geleiras da Antártida, a taxa ficou entre 1,2 e 1,8% por década, ou entre 130 mil e 200 mil quilômetros quadrados no mesmo período.
Nas geleiras do planeta, um total de 275 bilhões de toneladas de gelo "muito provavelmente" derreteram por ano entre 1993 e 2009. "Nas últimas duas décadas, a Groenlândia e as banquisas de gelo da Antártida vêm perdendo massa, geleiras continuam a derreter em todo o mundo, o gelo do oceano Ártico e a cobertura de neve na primavera do Hemisfério Norte continuaram a decrescer em extensão", adverte o IPCC.
Tamanho impacto é causado, claro, pelo aumento da temperatura da Terra, que se verifica com clareza nas regiões polares. "Há grande confiança de que as temperaturas do permafrost (solo que permanece sempre congelado) aumentaram na maioria das regiões, desde o início de 1980", reitera o IPCC. "O aquecimento observado foi de até 3"C em partes do norte do Alasca (do início de 1980 a meados da década de 2000) e de até 2"C em partes do norte da Rússia Europeia (1971-2010)."
A medição do impacto para as populações da região é um dos pontos nos quais o IPCC precisa avançar, segundo explicou ao Estado Thomas Stocker, um dos dois coordenadores do relatório. "Sempre foi um objetivo ser relevante para pequenas comunidades locais, mas este ainda é um desafio", reconhece. / A.N.

Relatório desqualifica 'desaceleração do aquecimento'

CENÁRIO: Andrei Netto

Não foi por acaso que os experts do IPCC acentuaram o caráter histórico das mudanças climáticas no relatório publicado ontem. Ao enfatizar os dados "paleoclimáticos", ressaltando recordes que datam de décadas, séculos e milênios, cientistas e delegados nacionais tornaram clara a tendência ao aquecimento global e desmontaram as críticas sobre os últimos 15 anos de estatísticas, que apontaram um momento de desaceleração do aumento da temperatura média da Terra.
No seu relatório, o IPCC decidiu manter o ponto mais polêmico, que fazia a menção à suposta "desaceleração" do aquecimento entre os anos de 1998 e 2012. Depois das negociações, o artigo que fazia referência ao assunto foi modificado, incluindo ponderações sobre a irrelevância científica de projeções de curto prazo e elencando respostas possíveis para a "desaceleração", como a ocorrência de El Niño, o fenômeno que resulta no aquecimento das águas do Oceano Pacífico.
Ao final, o trecho foi mexido. "Além do robusto aquecimento de várias décadas, a média global de temperatura na superfície exibe uma variação substancial interanual e a cada cinco décadas. Em razão da variação natural, tendências baseadas em apenas seis registros são muito sensíveis às datas de início e fim e em geral não refletem tendências de longo termo", diz o texto final, que ressalta ainda que, se a sequência de 15 anos for medida a partir de 1995, 1996 ou 1997, o aumento da temperatura média da Terra no período seria de 0,13oC, 0,14oC e 0,07oC por década, respectivamente, o que também desconstrói os argumentos dos "negacionistas".
A estratégia do IPCC foi confirmada ao Estado pelo número 2 do organismo, Jean-Pascal van Ypersele. "Havia mais artigos, mais informação científica que remontava ainda mais longe na história. Foi útil colocar em perspectiva os dados dos últimos 150 anos e o que vai se passar no futuro", disse van Ypersele. "Quinze anos é a metade do período clássico que usamos para definir o clima. Não faz sentido fazer análises nesse período tão curto, até porque ninguém nunca afirmou que não há flutuações na temperatura em períodos curtos."

OESP, 28/09/2013, Metrópole, p. A 34

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