CB, Cidades, p.32
07 de Nov de 2004
Invasão dos bichos
Renato Alves
Da equipe do Correio
Animais silvestres têm assustado moradores das cidades do Distrito Federal. Nas duas últimas semanas, lobos-guará apareceram em casas de Samambaia, Riacho Fundo e até dentro de um hotel em Brasília. Os homens da Companhia da Polícia Militar Ambiental resgataram 84 animais silvestres em áreas urbanas, de janeiro a outubro deste ano. Em todo o ano passado, foram 140.
Os animais capturados pelos PMs tiveram sorte. Depois de medicados, foram soltos em locais seguros. A maioria dos bichos que se arrisca a deixar as reservas ambientais encontra a morte ao atravessar a cerca. Somente de maio a setembro, os fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recolheram carcaças de 16 animais de grande porte nas vias aos redor dos 30 mil hectares do Parque Nacional de Brasília - a maior reserva ambiental do DE Todos vítimas de atropelamento.
Os técnicos do Ibama garantem que o número de bichos mortos nas redondezas do parque é ainda maior. "Contabilizamos só os que conseguimos recolher. Muitos são levados pelos atropeladores como caça. É o caso do tatu", conta a bióloga Christiane Horowitz, analista ambiental do Ibama.
Christiane decidiu contabilizar o número de mortes ao redor do Parque Nacional, após notar um grande número de carcaças nas margens das estradas. "Isso me assustou", afirma a bióloga. Dez dos 16 animais morreram na estrada que separa o Parque Nacional do Lago Oeste e liga Sobradinho a Brazlândia. "Os bichos saem do parque porque precisam de espaço para se alimentar e procriar", explica Horowitz.
Corredores desfeitos
A bióloga concluiu no começo do ano tese de doutorado sobre a sustentabilidade do Parque Nacional de Brasília. "A área é pequena para comportar populações mínimas viáveis da fauna", comenta. Alguns especialistas defendem que os animais precisam de pelo menos 100 mil hectares para viver e procriar.
No entanto, nenhuma das quatro grandes unidades de conservação do DF tem área com o tamanho ideal. Para garantir a vida da fauna, elas precisariam ser ligadas pelos chamados corredores ecológicos. "Mas muitos desses corredores estão destruídos ou ameaçados", lamenta Horowitz. 0 Lago Oeste, até o surgimento das chácaras, servia de corredor entre o Parque Nacional e a Estação Ecológica de Águas Emendadas, outra importante reserva, com 10 mil hectares.
Além de abrigar as nascentes das mais importantes bacias hidrográficas do DF, Águas Emendadas é o berço de famílias do lobo-guará, animal-símbolo do cerrado. Como a maioria das espécies de grandes mamíferos, o lobo-guará precisa de largas extensões de terra. Cada lobo caminha, em média, 5,5 mil hectares por ano, o equivalente a 5,5 mil campos de futebol. Eles não reconhecem a cerca da reserva ecológica como limite e a atravessam.
Apenas nas estradas que passam ao lado de Águas Emendadas, quatro animais são mortos por ano, em média. Hoje, restam apenas cinco casais de lobo-guará nos 10 mil hectares da área de preservação ambiental, que fica a 50 km do centro de Brasília, no caminho para Planaltina. Entre 1997 e 2000, os lobos que habitam Águas Emendadas foram monitorados por rádio. Todos atravessavam as seis estradas limítrofes com a reserva em busca de alimento. Treze morreram nesse período, vítimas de atropelamentos.
Os raros lobos-guará que sobrevivem aos atropelamentos são levados para o Zoológico de Brasília - em média, três animais feridos por ano. Apesar de todo o cuidado dos veterinários, apenas dois em cada três animais conseguem sobreviver. "E aqueles que vivem não podem ser reintroduzidos na natureza por causa das seqüelas", comenta o diretor do Zoológico, Raul Gonzales.
Rodovias monitoradas
Para tentar diminuir o impacto das rodovias sobre a fauna silvestre do cerrado, a Universidade de Brasília (UnB) e o Departamento de Estradas e Rodagem (DER), que cuida das rodovias distritais, assinaram acordo de monitoramento das vias de Águas Emendadas. Técnicos da universidade e do DER vão instalar equipamentos para medir a velocidade média nas pistas e precisar o tráfego diário. Com os números, vão estudar o melhor mecanismo para frear os motoristas.
O trabalho começa no ano que vem. "Durante doze meses, vamos percorrer as estradas diariamente para ver os pontos onde ocorrem mais atropelamentos e descobrir as causas", diz o biólogo Jader Marinho, professor do Departamento de Zoologia da UnB e responsável pelo projeto. Além dele, mais três ou quatro técnicos participarão do monitoramento. "Não são só os lobos que sofrem com a transformação do ambiente e a expansão da malha rodoviária. Todos os animais precisam de espaço para sobreviver", alerta.
Fauna ameaçada
16 animais de grande porte foram encontrados mortos ao redor do Parque Nacional, de maio a setembro
339 pássaros da fauna brasileira foram apreendidos pela PM em Brasília de janeiro a outubro
84 animais silvestres foram resgatados por PMs em áreas urbanas do DF de janeiro a outubro deste ano
140 acabaram salvos pelos policiais militares em todo o ano passado
Cerrado Roubado
Os atropelamentos nas estradas não são a única ameaça aos bichos que deixam as reservas ambientais. 0 desmatamento também é problema. 0 Distrito Federal conserva apenas 20% do cerrado original. Com a terra ocupada por loteamentos irregulares, lixões e constantes queimadas, os bichos saem em busca de comida e do espaço roubado pelo homem. É o que, segundo os especialistas, explica a grande quantidade de animais encontrados em garagens e quintais das casas.
E não são apenas os lobos-guará que buscam refúgio nas cidades. Na semana passada, os integrantes da Companhia da Polícia Militar Ambiental resgataram uma cotia e um tamanduá-mirim em Samambaia. 0 tamanduá-mirim é uma espécie ameaçada de extinção. "O que a gente resgatou é um filhote e estava bastante assustado. Provavelmente perdeu os pais em uma queimada", suspeita o comandante da companhia, major Reinaldo José Siqueira.
O tamanduá está bem. Será entregue ao Ibama e deverá ser solto em uma reserva ecológica. Mas nem todos os animais resgatados pelos PMs voltam para a natureza. "Principalmente aqueles criados como animais domésticos. Eles desaprendem a caçar e perdem o medo dos homens", explica o major Siqueira. É o caso de uma seriema que vive solta na sede da Polícia Militar, na Candangolândia.
Júlia, como o animal foi batizado pelos PMs, foi encontrada há duas semanas com outra seriema em uma casa do Recanto das Emas. Os policiais chegaram até elas por meio de denúncia anônima. 0 criador foi preso e responde a processo por crime ambiental. "Ele revelou que ambas iam ser comidas, mas gostou da Júlia e resolveu criá-las", conta o soldado Dennis Martins. As duas seriemas foram soltas na reserva, aos fundos da companhia. Mas Júlia preferiu ficar com os PMs. Os policiais dão comida na boca da ave.
Denuncie
Ao se deparar com um animal silvestre em área urbana, ligue para a Polícia Ambiental: 301-8140,301-1904
CB, 03/11/2004, p. 32
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.