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Invasão de território

O Globo, Ciência, p. 28
28 de Jun de 2011

Invasão de território
Grupo formado por mico-leão-de-cara-dourada ameaça refúgio do mico-leão-dourado no estado do Rio

RIO - Ironia das ironias, a tirar o sono de biólogos e especialistas em conservação. Atualmente, uma grande ameaça à sobrevivência do mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é o mico-leão-de-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas). Enquanto a área de ocorrência do primeiro é o Norte Fluminense, o segundo vive no Sul da Bahia e, em escala bem menor, no Nordeste de Minas. Ou seja, eles nunca deveriam se encontrar. Mas não se sabe bem como nem quando um grupo de micos-leões-de-cara-dourada chegou a Niterói e, por lá, se multiplicou. Já são 107 indivíduos, segundo a última contagem oficial, e eles estão a menos de 100 km da área do mico-leão-dourado, o mais ameaçado dos micos.
- É uma história muito estranha, que não poderia nunca estar acontecendo - afirma o diretor do Programa Mata Atlântica da ONG Conservação Internacional, Luiz Paulo Pinto. - Mas se trata de um grupo grande. Ele preocupa tanto o Instituto Chico Mendes quanto várias organizações porque está muito próximo da área do mico-leão-dourado, que é uma outra espécie.
Os dois micos são catalogados oficialmente como ameaçados de extinção. Mas enquanto existem pelo menos 6 mil indivíduos do mico-leão-de-cara-dourada na natureza, o número de micos-leões-dourados não passa de 1,2 mil. Especialistas em conservação dizem que o mínimo ideal seria de 2 mil.
- A situação do mico-leão-dourado é muito crítica - afirma Pinto. - Com esse número restrito de indivíduos, se acontecer uma doença, por exemplo, boa parte da população seria dizimada. A única coisa que ameniza um pouco a sua situação é que grande parte deles está em área de conservação, o que garante maior proteção. Mas, mesmo assim, é muito preocupante.
Vegetação é muito fragmentada
Caso os micos-leões-de-cara-dourada atravessem os cerca de 100 km que os separam dos parentes, localizados basicamente em Silva Jardim e Casemiro de Abreu, o número pode cair ainda mais. É que os animais estariam competindo pelo mesmo tipo de alimento.
- Isso seria desastroso - sustenta Pinto. - Se ele invadir a área e se adaptar, vai começar a usar os recursos locais, prejudicando a espécie nativa. A única coisa a fazer é retirar esses animais de lá e levá-los de volta a seu local de origem.
A Mata Atlântica no Norte Fluminense é bastante fragmentada, o que atrapalharia o fluxo dos micos de Niterói para o interior do estado, mas não necessariamente o impediria, sustenta Pinto.
- A floresta é bem fragmentada, mas esses animais atravessam cercas, andam pelo chão, e alguns grupos poderiam conseguir avançar - afirma. - Claro que pode haver uma barreira natural que não consigam transpor, como um rio, por exemplo. Enfim, é difícil prever, pois há vários fatores. Inclusive, alguém pode simplesmente pegar um grupo e levar para lá.
Não se sabe ao certo como o mico-leão-de-cara-dourada saiu da Bahia e chegou a Niterói, mas o transporte pelo homem é a hipótese mais provável. Segundo Pinto, tais fenômenos não são necessariamente incomuns.
- É comum, por exemplo, as pessoas comprarem o bicho como animal de estimação e, posteriormente, soltarem na natureza ou ele fugir - explica o especialista. - Provavelmente eram um macho e uma fêmea e eles foram se multiplicando. Na última contagem de campo que fizemos, eram 107 indivíduos, vivendo em 15 grupos.
Desde 2009, ambientalistas de diferentes organizações e especialistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade debatem a situação dos micos no estado do Rio. Um plano de manejo do grupo de micos-leões-de-cara-dourada já foi traçado e depende, agora, da aprovação de verbas.
- A ideia é retirar esses indivíduos de Niterói e levá-los para o Sul da Bahia ou o Nordeste de Minas - conta Pinto. - O plano foi discutido por vários especialistas e agora depende basicamente de recursos financeiros para execução do processo. Estamos pressionando porque, quanto mais o tempo passa, mais o grupo cresce e mais difícil se torna a sua transferência. Parte dos micos deve ser reintroduzida na natureza e, outra, pode ser levada para zoológicos. É importante ter uma população sadia na natureza e também em cativeiro, que garante a base genética para futuras reintroduções.

O Globo, 28/06/2011, Ciência, p. 28

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