O Globo, Economia, p. 51
07 de Dez de 2003
A invasão americana no cerrado brasileiro
Empresas e famílias chegam para cultivar soja, milho e algodão. Governo dos EUA recomenda compra de terras
Atraídos pelo baixo custo da terra, da mão-de-obra barata e do grande potencial do mercado interno e externo, agricultores e empresas americanas elegeram o cerrado brasileiro como sua nova fronteira agrícola. Muitos já estão cultivando no país soja, milho, algodão, café e frutas. Eles estão chegando em grupos cada vez maiores - no próximo mês estão sendo esperados 60 agricultores - para conhecer a região, comprar terras e fincar raízes. Enquanto o preço da terra nos Estados Unidos pode custar até US$ 3 mil o hectare, por aqui pode-se comprar a terra bruta até por US$ 600 o hectare.
Os agricultores americanos que estão invadindo o cerrado não chegam no escuro. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgou um documento no primeiro semestre destacando o potencial da agricultura no Brasil e recomendando a compra de terras no país. Segundo o relatório, existem vários motivos para se investir na agricultura brasileira. São citados o avanço da tecnologia agrícola e a pesquisa dentro dos padrões mundiais, o baixo custo de mão-de-obra e de produção, as terras abundantes a preços baixos e o pessoal profissionalmente capaz em todo o país.
Em Luiz Eduardo Magalhães, 40 famílias de americanos
Em contrapartida, diz o documento, pode-se vislumbrar problemas com a economia brasileira, queda nos preços mundiais das commodities, possibilidade de novos impostos sobre exportações e paralisação dos investimentos em infraestrutura. Mesmo assim, o texto destaca que o risco é baixo e as vantagens, grandes.
A propaganda tem surtido efeito. Só a Prefeitura do município de Luiz Eduardo Magalhães (BA), que foi desmembrado de Barreiras em 2001, já contabiliza mais de 40 famílias e oito empresas do ramo do agronegócio, todos oriundos dos EUA, em seu território. Os americanos estão também distribuídos ao longo de toda a divisa de Tocantins e Goiás.
- Além de agregar tecnologia à agricultura brasileira eles trazem investimentos e vão ajudar a abrir as portas do mercado americano aos produtos brasileiros - diz o prefeito, Oziel Oliveira.
ENTREVISTAS SERVIRAM PARA FAZER DOCUMENTO
Só 5% da área são usados na agricultura e 21% em pastagens
BRASÍLIA. O documento do Departamento de Agricultura dos EUA é recheado de detalhes. O texto mostra que, apesar de o Brasil ter uma área de 845 milhões de hectares propícia à agricultura, só 5% (42 milhões de hectares) são cultivados em lavouras e 21% (177 milhões de hectares) são usados para pastagens. Em contrapartida, os EUA, diz o documento, têm 915 milhões de hectares, usam 19% para agricultura e 22% para pastagens.
O documento foi feito depois da vinda ao Brasil, no fim do ano passado, de especialistas americanos que entrevistaram assessores do governo, empresários e consultores brasileiros.
O texto faz uma rápida alusão à liberação do plantio dos alimentos transgênicos, apenas para ilustrar que a medida, junto ao uso de tecnologia e expansão da área plantada, pode reduzir ainda mais os custos de produção das colheitas a aumentar o retorno do capital aplicado na cultura de soja.
Ministro lembra que é preciso criar limites
O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, vê com naturalidade tanto interesse. De acordo com ele, os agricultores americanos que procuram outros nichos de investimento são os que não se beneficiam diretamente dos subsídios dados à agricultura nos Estados Unidos, que são distribuídos de forma desigual. E aí, o Brasil aparece como alternativa.
- Os dados econômicos são animadores, temos problema de logística mas haverá investimentos nesta área. O Brasil é um país atraente para agricultura - diz Rodrigues.
Mas, para o ministro, a vinda de estrangeiros para ocupar terras no país deve ter limites.
- Por enquanto, não está prejudicando. Nós temos 57 milhões de hectares agricultáveis. Acho que tem que ter limites, estabelecer limites legais nisso. Na União Européia aconteceu o mesmo. Em Hungria, Eslováquia e Romênia, os agricultores europeus estão comprando terras. Mas foram estabelecidos limites - disse Rodrigues.
O Globo, 07/12/2003, Economia, p. 51
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