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Inpe faz estudo de clima no Rio

O Globo, Razão Social, p. 8-9
07 de Dez de 2010

Inpe faz estudo de clima no Rio
Pesquisa será lançada em 2011 e vai levar em conta também o aspecto social das mudanças climáticas para gestão da Prefeitura

CamilaNobrega
camila.nobrega@oglobo.com.br

De frente para a vista exuberante da Restinga de Marambaia, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o pescador José Luiz Pereira se pergunta por que tanta fartura natural não lhe dá mais peixe. Seus parceiros andam dizendo que o problema é causado pela mudança do clima. E eles podem estar certos. De longe é possível ver a quantidade inusitada de areia da praia que avança para a área de manguezal (berçário dos peixes), o que pode causar mudança no bioma da região. Para além disso, o medo maior é que o mar se eleve e quebre a divisão entre os dois ecossistemas.
Para estudar casos desse tipo e preparar o Rio de Janeiro para as mudanças climáticas, uma força tarefa de pesquisadores encabeçada pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), com apoio da prefeitura e universidades brasileiras, está preparando uma pesquisa com previsões inéditas sobre possíveis cenários na cidade para os próximos cem anos. O Razão Social obteve detalhes do projeto com exclusividade, mas a conclusão do estudo está marcada para março de 2011. Ele será base de consulta obrigatória da prefeitura para criação de políticas públicas e em obras de infraestrutura na cidade. E ficará disponível para o planejamento do setor privado, já que é preciso garantir que novos projetos ficarão de pé frente a novas condições climáticas.
Até agora, os indícios de alterações no clima têm sido tratados como distantes por cidadãos e autoridades. A exceção é quando chove forte na cidade, há enchentes e desmoronamentos que afetam a vida das pessoas, como aconteceu no início deste ano em Ilha Grande e Angra dos Reis.
Mas previsões indicam que esses acontecimentos acontecimentos devem se tornar mais constantes nos próximos anos e o município e o estado precisam estar preparados. Isso significa não apenas reagir, mas principalmente prevenir. Segundo o presidente da Câmara de Desenvolvimento Sustentável da prefeitura do Rio, Sérgio Besserman, o estudo conduzido pelo Inpe será fonte de consulta obrigatória na hora de fazer novos planejamentos:
- O momento é de ampliar o conhecimento. E é urgente, pois há áreas do Rio sobre as quais sequer temos muitas informações, como a Baía de Sepetiba. Os registros são precários e precisamos ter uma série histórica, para acompanhar as mudanças, que podem ser graves. Já sabemos que o maior impacto na cidade será a elevação do nível do mar e vamos usar projeções aceitas internacionalmente para desenhar a evolução do cenário aqui em cem anos. Além disso, estão sendo feitas previsões de mudanças nas chuvas e ventos.
A pesquisa é uma atualização de um estudo que foi iniciado em 2007 e já gerou o livro "Rio, próximos cem anos". Mas esta segunda edição irá trazer projeções mais detalhadas e atualizadas, já que as previsões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), principal fonte da pesquisa, também foram modificadas. O novo estudo está sendo visto como uma vanguarda em termos de conhecimento sobre mudanças climáticas na América Latina, por levar em conta dados que não dizem respeito apenas a impactos ambientais. Segundo Besserman, serão utilizados também dados do Censo 2010, lançado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de outras previsões internacionais, como a do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT):
- Teremos um mapa da vulnerabilidade de áreas da cidade, que levará em conta também estatísticas sociais e econômicas. Há fenômenos, como o caso da Restinga de Marambaia, que ainda não podem ser classificados como resultado das mudanças climáticas. Mas podemos, no mínimo, afirmar que alterações como essa serão agravadas pelas novas condições do clima.
E a cidade precisa estar preparada. Toda a infraestrutura urbana foi pensada com dados técnicos de décadas atrás. Precisamos ter galerias pluviais adequadas ao aumento das chuvas, prédios e pontes que aguentem ventos de maior velocidade e muito cuidado com áreas de encostas. O jeito é prevenir para proteger a população. E é o que o prefeito Eduardo Paes quer ao apoiar essa pesquisa.
Os relatos de pescadores da Restinga de Marambaia já chegaram aos cientistas envolvidos no estudo. E embora não se possa afirmar que o cenário seja fruto das mudanças climáticas, há uma preocupação maior em torno de casos como esse, já que, com as alterações no clima previstas para as próximas décadas, a tendência seria de agravar os fenômenos já existentes.
Na Restinga, o manguezal já passou por mudanças significativas devido ao assoreamento do local pela areia da praia. Somado a outros problemas, como aumento visível da poluição no local, a alteração reduziu muito a quantidade e diversidade de peixes, o que causou impactos diretos na economia regional, antes dependente da pesca artesanal. É o que conta o ex-pescador José Luiz Pereira, que hoje trabalha na construção civil:
- A areia está assoreando tudo. Nasci aqui, há 57 anos, e vejo que nos últimos 20 anos piorou muito. Parei de pescar, porque a quantidade de peixe caiu muito. Não foi só por conta da areia, tem a pesca predatória e a poluição, mas percebemos que as ressacas estão cada vez mais fortes.
As ressacas estão sempre presentes no relato dos moradores. O medo ali é que o problema não seja apenas a areia que se sobrepôs ao mangue. Pois, com uma possível elevação do nível do mar na costa brasileira, a situação ficaria complicada, afetando moradores de uma área onde a restinga afunila e torna o pedaço de terra menor. O receio de Paulo Henrique Siqueira, dono de uma peixaria na Praia Grande, a poucos metros da Marambaia, é que a água do mar atravesse a restinga, forçando a migração das pessoas que moram ali:
- Meu negócio já sofreu diretamente, porque o pescado diminuiu muito por causa do assoreamento. Imagina se a água passar do mar para a restinga! Acaba com a Marambaia, e vai afetar Pedra de Guaratiba, Sepetiba. É muita gente que mora e trabalha nesses locais, como vamos ficar?
À frente das chamadas "modelagens", que trarão para o contexto do Rio de Janeiro as previsões mundiais, está um time de pesquisadores de alto escalão, entre eles os pesquisadores do Inpe e membros do IPCC, Carlos Nobre e José Augusto Marengo, além de estudiosos do Instituto Pereira Passos, da Uerj, da Unicamp, da Fiocruz e da UFRJ. Entre eles está o geógrafo Paulo Gusmão (UFRJ), que explica como a análise será inovadora do ponto de vista de gestão de riscos pela prefeitura:
- Estamos fazendo modelagens de vento, índice de chuvas, períodos de seca e elevação do nível do mar. E pensamos não apenas nas médias previstas, de aproximadamente 1 metro no caso do mar por exemplo, mas precisamos ficar atentos às possibilidades de picos. O único ponto onde o Inpe ainda não indica confiabilidade elevada é o vento. De resto, vamos prever como será a frequência de chuvas, e nos preparar para períodos de seca mais longos, já que tudo indica que eles ocorrerão.
As temperaturas também vão variar de região para região e estarão no estudo.
Para Gusmão, o estudo poderá ser utilizado em decisões bastante práticas do município. E elas se estendem à iniciativa privada:
- Temos uma cidade altamente dependente da telefonia celular, e as torres, por exemplo, precisarão ser projetadas para não sofrerem danos com ventos. Além disso, podemos estar incorrendo no erro de projetar uma rede de esgotamento sanitário com dados antigos. O poder público precisa garantir que esse esgoto não vai refluir para as casas das pessoas. O mesmo acontece com o lixo. Mesmo com o lixão de Gramacho desativado, quais podem ser as conseqüências para a Baía de Guanabara se houver elevação do nível do mar?
Nosso objetivo é responder a muitas dessas perguntas nessa pesquisa.
O projeto está sendo financiado pelo governo britânico e tem como objetivo maior subsidiar a prefeitura e o governo do estado na tomada de decisões, levando em conta, a partir do ano que vem, os impactos das mudanças climáticas no Rio de Janeiro. Isso colocaria a cidade num nível de prevenção muito maior do que o atua.

O Globo, 07/12/2010, Razão Social, p. 8-9

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