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Injetaram proteína transgênica no meu filho!

OESP, Vida, p. A15
Autor: REINACH, Fernando
26 de Abr de 2006

Injetaram proteína transgênica no meu filho!

Fernando Reinach

Ocorreu em um dos melhores hospitais de São Paulo. Fazia menos de 24 horas que ele havia nascido quando me apresentaram um papel para assinar autorizando o procedimento. Consultei o médico que me assegurou que era o recomendado. Fazer o quê? Autorizei. A injeção foi indolor e logo depois me entregaram a carteira de vacinação. Fiquei feliz, meu filho havia sido vacinado contra o vírus da hepatite B.
Se você acha que isso é uma grande novidade, ainda em fase experimental, está enganado. Neste ano, o Ministério da Saúde adquiriu milhões de doses dessa vacina e agora ela faz parte do programa de imunização do governo brasileiro. Nos próximos anos, praticamente todas as crianças recém-nascidas serão imunizadas com esta vacina "recombinante", um nome mais "delicado" e que sofre menos discriminação que "transgênica", apesar de significar exatamente a mesma coisa.
O termo significa que o produto injetado foi produzido por um organismo geneticamente modificado (OGM), assim como o óleo de soja que consumimos, o algodão de muitas das roupas que vestimos ou a insulina que a maioria dos diabéticos recebe todos os dias.
Ao contrário da hepatite A, que geralmente não deixa seqüelas, uma infecção pelo vírus da hepatite B é muito mais séria. Ela pode deixar seqüelas crônicas no fígado e uma parte dos pacientes pode desenvolver câncer. Como é difícil produzir grandes quantidades desse vírus, o desenvolvimento de uma vacina eficaz e segura só foi possível devido aos avanços da biotecnologia.
A partir do seqüenciamento do genoma do vírus, foi identificado o gene que codifica a proteína capaz de tornar as pessoas imunes ao próprio vírus.
Esse gene foi retirado do vírus e transferido para um fungo (semelhante àquele que utilizamos para fazer cerveja). O fungo modificado, por ter em seu genoma um gene originário do vírus, é denominado transgênico. Ele se torna capaz de produzir grandes quantidades da proteína viral. O fungo é cultivado, a proteína purificada e utilizada na produção da vacina.
Se neste ano estamos comemorando nossa auto-suficiência em petróleo, nos últimos anos deveríamos ter comemorado nossa auto-suficiência na produção dessa vacina.
A vacina recombinante contra o vírus da hepatite B foi desenvolvida no Instituto Butantã com a ajuda de um cientista que emigrou da ex-União Soviética, na década de 90. A adoção em larga escala dessa vacina nos programa de vacinação do governo vai permitir diminuir a incidência da doença e, de quebra, diminuir o número de casos de câncer de fígado. Espero que ela também ajude a diminuir a desinformação que ronda os transgênicos e os OGMs, afinal é um produto comercial, desenvolvido, aprovado e distribuído pelo governo brasileiro.
Quando recebi meu filho na saída da maternidade tive a curiosidade de verificar se tinham pendurado nele um "rótulo" com a advertência "pode conter transgênicos", como exigido pelo governo brasileiro para qualquer produto contendo derivados da soja transgênica. Não encontrei. Tampouco vejo a frase "contém transgênico" tatuada nos diabéticos que devem sua sobrevivência exatamente ao fato de receber, todos os dias, uma dose de insulina transgênica.

Mais informações em www.drauziovarella.com.br/ponto/raw5.asp.

fernando@reinach.com
Biólogo

OESP, 26/04/2006, Vida, p. A15

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