O Globo, Ciência, p. 27
16 de Jan de 2013
Inimigo sujo
Fuligem tem papel mais importante na elevação da temperatura do que o estimado
RENATO GRANDELLE
renato.grandelle@oglobo.com.br
Entre os compostos produzidos pela atividade humana associados às mudanças climáticas, o mais importante é indiscutivelmente o CO2. O segundo lugar, no entanto, acaba de ser contestado.
Um estudo publicado ontem no periódico "Journal of Geophysical Research-Atmospheres"tira a posição do metano e coloca em seu lugar a fuligem. Ela teria peso duas vezes maior para o aumento da temperatura do planeta do que se acreditava. Emitida principalmente por nações asiáticas, seu acúmulo na atmosfera é mais significativo no Sul daquele continente, afetando as monções e regiões de Canadá, Estados Unidos, Europa e Ártico.
Mesmo o último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em 2007, não conferia uma importância tão grande à fuligem. Por isso, se espera que o novo relatório do IPCC, previsto para o ano que vem, proponha outras políticas de controle ao aquecimento global. Segundo projeções do estudo, se fosse adotado um amplo combate à fuligem, a temperatura do planeta deixaria de aumentar 0,5 grau Celsius nas próximas décadas.
Iniciativas locais já combatem a fuligem, embora de forma indireta - visam apenas ao controle da poluição atmosférica, e não ao calor gerado por sua emissão. Europa e EUA desenvolveram tecnologias voltadas à melhoria da qualidade do ar, colhendo bons resultados.
- Nenhum país tem uma regulação especificamente voltada à fuligem, mas muitos desenvolveram regulações relacionadas à poluição causada por ela - explica a coautora do estudo Tami Bond, professora do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Illinois, nos EUA. - Se acertarem os alvos, estas políticas reduzirão esta névoa suja na atmosfera. As emissões são maiores em nações mais populosas ou com registros de grandes incêndios em savanas e florestas.
A China, notória pela poluição que afeta suas maiores cidades, é alvo crescente de contestações de sua população por seguir políticas de crescimento econômico insustentáveis.
- A importância das emissões de fuligem foi subestimada em várias regiões, particularmente em China e Índia - acrescenta o climatologista Piers Forster, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, que também assina o novo trabalho. - Combater a fuligem traz benefícios tanto ao clima quanto à saúde humana.
FULIGEM LEVA A OUTRAS FORMAS DE POLUIÇÃO
- Nos países em desenvolvimento, comprometer-se com a redução da fuligem envolve mexer com outros componentes, como a queima de biomassa nas florestas - acrescenta o coautor do estudo, David Fahey, pesquisador da Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (Noaa), dos EUA. - Lutar contra um problema tão abrangente, portanto, pode ter um lado positivo, por ter repercussão em diversos fronts, como a preservação dos ecossistemas.
A redução da fuligem requer uma série de adaptações. O forno a lenha em casa, a queima de áreas agrícolas, a combustão de gasolina em automóvel e as emissões industriais, de navios e aviões jogam fuligem na atmosfera. Seu acúmulo ali gera aumento da temperatura em todo o planeta - o que contribui para o derretimento de geleiras - e mais volume de chuva em regiões próximas ao equador.
Embora esforços locais sejam importantes, eles são apenas um primeiro passo, de acordo com Sarah Doherty, pesquisadora-chefe do Instituto para Estudo da Atmosfera e do Oceano da Universidade de Washington, em Seattle.
- A fuligem parece afetar o clima mais fortemente no Hemisfério Norte, além alterar os sistemas monçônicos do Sul da Ásia, fundamentais para regular o clima daquela região - reconhece.
- Mas o impacto climático da fuligem não é necessariamente sentido mais fortemente onde as emissões são maiores, nem onde há maior concentração da substância. Por isso, a necessidade de uma ação global sem demora contra ela.
POLUIÇÃO CAUSA 2 MILHÕES DE MORTES PREMATURAS POR ANO
A fuligem é um agente climático formado pela combustão incompleta de combustíveis fósseis, biocombustíveis e biomassa. Diferentemente do CO2, que fica na atmosfera por mais de um século, a fuligem permanece ali apenas por semanas - o suficiente, no entanto, para absorver radiação solar e esquentar o planeta. Os benefícios à saúde que seriam causados pela redução da fuligem são conhecidos há décadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Segundo a entidade, a poluição do ar causa cerca de 2 milhões de mortes prematuras por ano - quase metade é de crianças com menos de 5 anos. Reduzindo-se a fuligem, componente principal dessa poluição, o número de vítimas também diminuiria.
Os níveis de partículas menores que 10 micrômetros - as PM10, que causam graves problemas respiratórios -, deve ser menor que 20 microgramas por metro cúbico.
No mundo, porém, esta média é de 70 micrômetros por m³. No Rio, seria um pouco menor - 64 micrômetros por m³. Se o nível fosse reduzido ao que a OMS considera tolerável, o número de mortes no mundo cairia em 15%.
Pesquisadora-chefe do Instituto para Estudo da Atmosfera e do Oceano (Noaa) na Universidade de Washington, Sarah Doherty acredita que o combate à fuligem reuniria áreas que "pouco parecem ter em comum - o aquecimento global e a saúde pública".
- Provavelmente haveria mais vontade política para controlar a emissão de fuligem do que a de CO2, porque a fuligem tem mais impacto na saúde humana - explica. - Sendo grande causa de doenças respiratórias e de mortes prematuras no mundo, sua mitigação pode trazer benefícios tanto para o clima quanto para a saúde pública.
O Globo, 16/01/2013, Ciência, p. 27
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