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Autor: Lucas Vasconcellos
18 de Jan de 2026
Aos 21 anos, o manauara Juliano Dantas Portela construiu uma trajetória que une experiência acadêmica internacional e compromisso com a Amazônia. Atualmente no sexto semestre da graduação nos Estados Unidos, o estudante cursa Ciência da Computação e Linguística após ser aprovado em quatro das universidades mais prestigiadas do país (Yale University, University of Pennsylvania, Northwestern University e Dartmouth College) e transformar essa conquista em base para um projeto pioneiro de preservação de línguas indígenas amazônicas.
Ex-aluno do Colégio Militar de Manaus, Juliano conta que o caminho até as universidades estrangeiras começou ao perceber que estudar fora era uma possibilidade real.
"Eu via amigos participando de olimpíadas do conhecimento, simulações, projetos ligados à Fundação Estudar, e eles iam me mostrando como funcionava o processo. Fui entendendo que, mesmo vindo de Manaus, isso era possível", relata o universitário em entrevista à reportagem de A CRÍTICA.
Aprovado ainda aos 18 anos, Juliano optou por Yale, onde hoje desenvolve pesquisas que conectam tecnologia e diversidade linguística. A escolha acadêmica dialoga diretamente com sua identidade.
"Sou amazônida com orgulho. Não tem como separar quem eu sou da Amazônia. Tudo que faço daqui pra frente tem relação com isso", afirma Portela.
Ferramenta de preservação cultural
O interesse pelas línguas indígenas não surgiu apenas na universidade. Ainda no ensino médio, Juliano criou o "Linklado", primeiro teclado digital desenvolvido para permitir a escrita em mais de 50 línguas indígenas amazônicas. O projeto viralizou, foi finalista duas vezes do Prêmio Jabuti, na categoria Inovação, e revelou uma lacuna: a ausência de registros sistematizados dessas línguas.
"Percebi que, além da tecnologia, era urgente coletar material linguístico. Muitas línguas têm menos de 20 falantes, quase sempre pessoas idosas. Se não houver registro, a língua morre com elas", explica Juliano.
Foi dessa constatação que nasceu o Instituto de Sustentabilidade Linguística da Amazônia (ISLA), iniciativa dedicada à documentação de línguas indígenas, ao desenvolvimento de tecnologias inclusivas e à criação de conteúdos educacionais que ampliem a presença dessas línguas no ambiente digital. O trabalho envolve famílias linguísticas como Tikuna, Tukano e Sateré-Mawé.
Entre os objetivos do instituto estão desde a coleta de registros orais e escritos até o desenvolvimento de ferramentas como sistemas de autocompletar, tradução de aplicativos e adaptação de interfaces digitais para línguas indígenas.
"Imagina poder usar o WhatsApp totalmente em Tikuna ou Sateré-Mawé. Isso incentiva o uso da língua no dia a dia e ajuda a mantê-la viva para as novas gerações", pontua o estudante.
Orgulho indígena e identidade amazônica
O contato direto com comunidades indígenas marcou profundamente o jovem pesquisador. Para ele, o orgulho cultural é um dos aspectos mais fortes dessas vivências.
"O que mais me marcou foi ver o quanto as pessoas têm orgulho de serem indígenas, de falarem suas línguas, de manterem a cultura viva. Isso é algo muito poderoso", diz o amazonense.
Juliano destaca que esse cenário representa uma mudança histórica.
"No passado, a sociedade tentava fazer essas pessoas se sentirem envergonhadas. Hoje, é o contrário. Existe orgulho, produção de material, ensino nas línguas indígenas. Isso precisa ser fortalecido", afirma.
Inspirar outros jovens amazônidas
Mesmo vivendo fora do país, Juliano Dantas Portela mantém vínculos constantes com Manaus e com a juventude amazônica. Ele participa de ações junto à Fundação Estudar, ao Colégio Militar de Manaus e a outros projetos educacionais, incentivando jovens a seguirem caminhos acadêmicos e científicos.
"O que eu tento fazer é mostrar que é possível. A gente precisa de uma juventude amazônica mais envolvida, orgulhosa da sua identidade, da sua cultura, da sua fala, da sua comida. Tudo isso é patrimônio", destaca o estudante manauara.
Para ele, o fortalecimento dessa identidade cultural, visível também em expressões como o boi-bumbá de Parintins, é parte essencial do futuro da Amazônia. "Quando a gente entende o valor do que é nosso, a gente entende por que precisa proteger", conclui.
Para Juliano Dantas Portela, a preservação linguística está diretamente conectada à preservação ambiental.
"A cultura e o meio ambiente estão totalmente ligados. Quando você entende a cultura amazônica, você entende por que a floresta vale mais em pé do que no chão", reflete.
Além do ISLA, o estudante também busca incentivar debates sobre bioeconomia e sustentabilidade, mostrando que conhecimento tradicional, identidade cultural e tecnologia podem caminhar juntos. Em 2025, esse trabalho ganhou projeção internacional quando ele levou a pauta da sustentabilidade linguística à COP30, em Belém, inserindo o tema no debate climático global.
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