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Informação, a chave do sucesso

O Globo, Razão Social, p. 6
21 de Jun de 2011

Informação, a chave do sucesso

Amelia Gonzalez
amelia@oglobo.com.br

A reportagem de capa da edição de março de 2009 do Razão Social trouxe à tona uma situação que estava sendo vivenciada, sem muito alarde, por uma comunidade no interior do Pará, às voltas com uma degradação ambiental causada pela mineração de alumínio em Barcarena. À época, a empresa encarregada de minerar era a Alunorte, com 57% de ações da Vale e o restante da norueguesa Norsk Hydro.
Uma organização da sociedade civil da Noruega chamada Ajuda das Igrejas da Noruega recebera denúncias que falavam de poluição do rio com a lama vermelha do processo da mineração de bauxita, vazamento de 300 metros cúbicos de um rejeito chamado caulim, além de problemas sociais graves, como prostituição infantojuvenil na localidade de Vila do Conde já que, em cerca de sete anos, e por conta dos empreendimentos, a população passara de 13 mil para 70 mil habitantes.
Nossa reportagem ouviu todos os interessados e o diagnóstico ficou claro: faltou diálogo participativo da sociedade com a empresa. Segundo Walmir Machado, professor e morador do local, que falou como líder da comunidade, havia audiências públicas, como manda a legislação, mas de maneira desigual:
- A gente chegava lá sem conhecer nem minimamente o projeto. As empresas vinham com 50 assessores e com domínio absoluto do que estavam falando. Aí não é diálogo, porque para haver diálogo tem que ter, minimamente, igualdade.
Dois anos se passaram, e a situação mudou. Voltamos a conversar com os envolvidos, dessa vez para contar sobre um processo de amadurecimento da comunidade, que agora vai com outras armas para as audiências públicas:
- Conseguimos ter uma participação mais ativa e construímos, junto com as empresas, o poder público local e o Ministério Público, um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) para o caso do vazamento do caulim, por exemplo. Para isso, precisamos nos qualificar, o que fizemos com a ajuda do Instituto de Educação do Brasil (IEB). Foi criado em Barcarena o projeto de capacitação dos movimentos sociais, e nós contratamos o IEB para nos acompanhar nesse processo. Estamos apostando nesse TAC porque tem a nossa participação, foi construído através de varias audiências públicas. Agora nós estamos intervindo até no orçamento de 2011, não deixamos mais isso para a Câmara Municipal e a Prefeitura somente. Mas para fazer isso é complicado, tem que ter o domínio das técnicas, dos termos do orçamento público. Cavamos esse espaço de participação, é uma experiência muito rica, a gente consegue resgatar nossa autoestima - disse o mesmo professor Walmir em entrevista por telefone.
A Vale não é mais participante da empresa. O que quer dizer que a norueguesa Norsk Hydro é, atualmente, a maior empresa no pólo industrial de Barcarena, que inclui Alunorte, Albras, Paragominas e uma nova fábrica que está para ser construída. Isso fez aumentar a participação da ONG Ajuda das Igrejas da Noruega. Segundo Arne Dale, representante da ONG, o governo norueguês está interessado em implementar nova estratégia de parceria entre Noruega e Brasil. Parte dessa estratégia é mobilizar as empresas norueguesas no sentido de trabalharem aqui no país da mesma forma como na Noruega:
- Nosso papel vai ser juntar os dois setores, empresa e comunidade. Não vai ser fácil no início. O Brasil é muito grande e tem lugares onde o poder tem mais dificuldade de chegar. Mas se conseguirmos que a empresa seja transparente vai ser um bom caminho - disse ele.
O sociólogo Ciro Torres, ex-Ibase e atualmente do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias em Políticas Públicas acompanha o processo desde o início e concorda com Arne, de que a transparência é realmente o melhor caminho que as empresas podem trilhar para facilitar a convivência com a sociedade.
- Não é investindo muito dinheiro em comunicação que as empresas conseguem ficar socialmente responsáveis. É preciso construir um diálogo, antes de tudo com práticas internas e externas. Processos isolados de investimento não fortalecem o tecido social. E nenhuma empresa consegue se desenvolver quando o tecido social está desgastado - disse ele.
Por email, a presidente da Norsk Hydro, Anne-Lene Midseim, disse que considera importante fortalecer esse diálogo e promete avaliar como a empresa pode contribuir para o desenvolvimento local. Para isso, entre outras coisas vai precisar participar do Fórum de Sustentabilidade de Barcarena, proposta da comunidade.
- Vamos trabalhar agora em rede, envolvendo empresas, governo e sociedade civil. Porque aprendemos que essa forma de ações sociais pontuais não resolve o nosso problema. Afinal, temos o minério mas não temos condições de explorá-lo. Só que não achamos justo que aqueles que conseguem explorá-lo nos vejam como categoria de enésima classe. Vamos nos qualificar e mostrar que não somos - disse Walmir Machado, agora presidente do Comitê pela Moradia e Cidadania de Barcarena.

O Globo, 21/06/2011, Razão Social, p. 6

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