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Autor: Renato Becker
03 de Jun de 2026
A influência federal sobre Mato Grosso do Sul voltou ao centro do debate político com a aproximação das Eleições Gerais de 2026. A relação entre deputados federais e senadores do Estado com os ministérios do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a ser observada não apenas sob o viés ideológico, mas principalmente pela capacidade de articulação para destravar recursos, obras estruturantes e programas federais estratégicos.
Nesse cenário, alguns ministérios concentram mais poder político e se tornam peças-chave para o futuro econômico, social e ambiental do Estado. A influência federal em Mato Grosso do Sul ganha relevância em um contexto marcado pela expansão acelerada da agroindústria, pela consolidação do chamado Vale da Celulose, e pelo acúmulo de passivos históricos, como os conflitos fundiários envolvendo povos indígenas e a concentração da saúde de alta complexidade em Campo Grande.
Quais ministérios são estratégicos para Mato Grosso do Sul
A centralidade de Mato Grosso do Sul na agenda federal passa, sobretudo, pelos ministérios do Planejamento e Orçamento, Agricultura e Pecuária, Povos Indígenas, Transportes, Saúde e Desenvolvimento Agrário. Essas pastas concentram decisões que impactam diretamente a infraestrutura logística, o crédito rural, a regularização fundiária, a política indígena e o financiamento da saúde pública.
O peso desses ministérios é ampliado pela dependência estrutural do Estado em relação a recursos federais. Embora Mato Grosso do Sul tenha apresentado crescimento econômico acima da média nacional em alguns setores, como a indústria de celulose, a capacidade de investimento próprio ainda é limitada, o que torna a atuação da bancada federal decisiva.
Nos últimos dois governos federais, Mato Grosso do Sul ocupou posições estratégicas no alto escalão. Durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), o estado teve dois ministros: a atual senadora Tereza Cristina (PP), que comandou o Ministério da Agricultura entre 2019 e 2022, e Luiz Henrique Mandetta (União Brasil), à frente do Ministério da Saúde entre 2019 e 2020.
Mandetta deixou o cargo em meio à pandemia de covid-19, após divergências com o então presidente Bolsonaro sobre isolamento social e o uso da hidroxicloroquina. Já Tereza Cristina consolidou-se como uma das principais lideranças nacionais do agronegócio, posição que mantém até hoje no Senado Federal.
No terceiro mandato de Lula, o Mato Grosso do Sul voltou a ocupar espaço central com a então senadora Simone Tebet, que assumiu o Ministério do Planejamento e Orçamento. Lula chegou a afirmar publicamente que confiava a ela "as chaves do cofre".
Durante sua gestão, Tebet articulou a inclusão de obras estratégicas para Mato Grosso do Sul no Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Somente na área de aviação regional, foram garantidos cerca de R$ 939 milhões para aeroportos de Campo Grande, Ponta Porã, Corumbá e Bonito. Também houve impacto direto na Capital com a adesão de Campo Grande ao PEF (Plano de Promoção do Equilíbrio Fiscal), abrindo caminho para novas operações de crédito destinadas a obras estruturais.
Embora não nascida em Mato Grosso do Sul, Cida Gonçalves é outro nome associado à influência federal com conexões históricas no estado. Militante de longa data na área de direitos humanos e direitos das mulheres, Cida chegou ao Ministério das Mulheres durante o governo Lula. No ministério, coordenou a implementação de políticas públicas que ampliaram a rede de atendimento e proteção, especialmente em áreas urbanas e rurais.
Embora sua influência não esteja diretamente ligada a grandes repasses financeiros da mesma magnitude que as pastas de infraestrutura ou planejamento, a presença de Cida no governo federal consolidou um canal de interlocução de Mato Grosso do Sul com pautas sociais de relevância nacional, além de ampliar a participação do estado em fóruns de direitos humanos e políticas de igualdade de gênero.
A presença mais recente e politicamente sensível é a de Luiz Henrique Eloy Amado, conhecido como Eloy Terena. Ele assumiu o Ministério dos Povos Indígenas após a saída de Sônia Guajajara e se tornou o primeiro indígena sul-mato-grossense a comandar a pasta.
A atuação de Eloy tem impacto direto em Mato Grosso do Sul, estado que concentra alguns dos conflitos fundiários mais violentos do país envolvendo povos indígenas, especialmente Guarani Kaiowá e Terena. Um dos casos mais emblemáticos é a Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, em Antônio João (MS), cuja homologação definitiva ocorreu no atual governo federal após décadas de judicialização. A medida teve forte impacto simbólico e político, sendo interpretada como uma mudança de postura após o período de paralisação das demarcações.
Enquanto infraestrutura e agronegócio avançam, interiorização da Saúde segue em ritmo lento
Enquanto os conflitos fundiários avançam no debate político, o setor agroindustrial segue como principal motor econômico do Estado. O maior símbolo dessa expansão é a nova fábrica da Suzano, em Ribas do Rio Pardo (MS), que recebeu investimento privado de R$ 22,2 bilhões, sendo R$ 15,9 bilhões na planta industrial e R$ 6,3 bilhões em logística e base florestal. A unidade tem capacidade para produzir 2,55 milhões de toneladas de celulose por ano e consolidou Mato Grosso do Sul como um dos principais polos do setor no Brasil.
Esses investimentos foram acompanhados por obras federais incluídas no Novo PAC, como a usina termoelétrica da Suzano, com aporte de R$ 2 bilhões, além de projetos ligados à Rota da Celulose e à Rota Bioceânica, fundamentais para reduzir custos logísticos e ampliar exportações ao mercado asiático.
A articulação política mais ampla para transformar Ribas em polo da celulose tem sido atribuída nos bastidores ao grupo político de Reinaldo Azambuja (PL) e Eduardo Riedel (PP), com apoio forte da bancada federal ligada ao agronegócio - especialmente da senadora Tereza Cristina, que tinha trânsito no governo Bolsonaro quando era ministra da Agricultura.
Entretanto, enquanto infraestrutura e agro avançam, a saúde pública enfrenta entraves históricos. Campo Grande concentra praticamente toda a média e alta complexidade hospitalar do Estado, o que sobrecarrega unidades como a Santa Casa, o Hospital Regional e o HUMAP/UFMS (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).
A falta de leitos em Campo Grande faz com que UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e CRSs (Centros Regionais de Saúde) funcionem como áreas de internação improvisadas.
Recentemente, articulações políticas em Brasília, mediadas por Vander Loubet (PT), buscaram ampliar os repasses federais para a saúde da Capital, incluindo a negociação de R$ 7 milhões em recursos adicionais para hospitais filantrópicos.
Quem opera o poder político de Mato Grosso do Sul em Brasília
Além de figuras isoladas, a bancada federal de Mato Grosso do Sul tem mostrado seu papel estratégico na liberação de recursos federais por meio de emendas parlamentares e interlocução direta com pastas como Saúde, Transportes, Agricultura e Planejamento. Com isso, os deputados e senadores atuam simultaneamente como defensores de interesses regionais e como operadores políticos em Brasília, mobilizando ministérios para atender demandas locais.
No campo político de esquerda e centro-esquerda, Vander Loubet (PT) se consolidou como principal operador do governo Lula em Mato Grosso do Sul, com forte atuação na pauta agrária e na retomada da reforma agrária, assunto que havia sido paralisado nos anos anteriores.
Em 2023, ele foi peça-chave na articulação da visita do então ministro do Desenvolvimento Agrário ao assentamento Itamarati, em Ponta Porã (MS), um dos maiores assentamentos da América Latina e símbolo histórico da reforma agrária. A presença ministerial foi tratada como marco da retomada oficial da política agrária após anos de interrupção.
Loubet também articulou negociações com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e a SPU (Superintendência do Patrimônio da União), que resultaram na transferência de mais de 4 mil hectares da Gleba Foz do Apa-Ingazeira para fins de reforma agrária, beneficiando cerca de 70 famílias.
No espectro da centro-direita e do agronegócio, a influência federal de Mato Grosso do Sul tem dois nomes de destaque no Senado Federal: Tereza Cristina e Nelsinho Trad (PSD).
Por ser ex-ministra da Agricultura e referência nacional do agronegócio, Tereza mantém grande capacidade de articulação com ministérios mesmo na oposição ao governo Lula. Sua atuação em temas como sanidade animal, crédito rural, exportações e logística ajuda a destravar pautas prioritárias para o setor produtivo de Mato Grosso do Sul, independentemente de alinhamentos partidários.
Já Nelsinho Trad (PSD), aliado frequente em pautas econômicas e logísticas, ganhou projeção internacional em 2025 ao participar de uma delegação oficial do Senado que se deslocou aos Estados Unidos para negociar impactos de tarifas anunciadas pelo governo norte-americano sobre produtos brasileiros.
A missão, liderada por Trad e com Tereza Cristina na relatoria, procurou reduzir prejuízos bilionários ao agro, especialmente nas cadeias de carne bovina e celulose.
Antes da viagem, realizada entre 28 e 30 de julho de 2025, os senadores se reuniram com o governador Riedel e representantes do setor produtivo para receber um relatório técnico indicando que cerca de 80% da preocupação econômica de MS estava concentrada em carne processada, celulose e ferro gusa.
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