O Globo, Ciência, p. 25
24 de Set de 2013
Infância ameaçada pelas mudanças climáticas, diz pesquisa
Unicef coloca crianças em debate na semana da reunião do IPCC
Cláudio Motta
As crianças serão as maiores vítimas do aquecimento global, afirma estudo publicado ontem pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Elas sofrerão mais com a desnutrição, enfrentarão problemas de saúde e até migrações, problemas agravados pelas mudanças climáticas. Os preços dos alimentos tenderão a subir, desfazendo progressos no combate à fome no mundo. O trabalho coincide com o início das atividades do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em Estocolmo, na Suécia. Até sexta-feira, 259 cientistas e representantes dos governos de 195 países terão a missão de sintetizar as informações mais atualizadas que dão as bases científicas das mudanças climáticas e suas causas.
Os especialistas vão analisar linha por linha um sumário técnico de 14 capítulos e vários anexos. Esta será a primeira vez que o IPCC publicará o Atlas de Projeções Globais e Regionais do Clima. O trabalho na Suécia é a conclusão de quatro anos de pesquisas de centenas de pesquisadores de todo o mundo. Depois do sumário, que será divulgado na sexta-feira endereçado aos governos e a formuladores de políticas públicas, está previsto o lançamento do relatório completo, na segunda-feira. Ele ficará disponível na internet em janeiro de 2014 e depois será transformado num livro.
O documento final deverá apontar para o aumento da certeza de que o aquecimento global é resultado das emissões do homem. Um rascunho do IPCC visto pela "Reuters" diz que as atividades humanas, principalmente a queima de combustíveis fósseis, têm 95% de chances de ser a principal causa do aquecimento desde a década de 1950. A probabilidade foi de 90% no último relatório, em 2007, e de 66%, em 2001.
- A certeza de que o homem provoca o aquecimento global aumenta quanto mais a gente estuda - diz o pesquisador da Coppe/UFRJ Emilio La Rovere. - As novas evidências indicam que o IPCC andou subestimando a elevação dos oceanos.
Eventos climáticos extremos
O relatório deverá afirmar que os eventos climáticos extremos já estão acontecendo. E que deverão aumentar num ritmo alarmante. O nível do mar está subindo e os oceanos ficando cada vez mais ácidos, afetando os recifes de coral, que poderão desaparecer antes do fim do século. Desta maneira, o IPCC deverá influenciar a Convenção do Clima (COP-19), que será realizada em Varsóvia, na Polônia, entre os dias 11 e 22 de novembro.
- É fundamental que os negociadores da COP-19 ouçam o chamado da ciência à ação - disse Carlos Rittl, coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF.
Os cientistas também explicarão a desaceleração recente das mudanças climáticas. Por exemplo, a Espanha acaba de anunciar que o último trimestre foi o menos quente desde 2008. De acordo com o rascunho do IPCC, é comum haver registros históricos de cerca de 15 anos sem mudanças drásticas do clima. Isso é provocado por uma série de fatores, como a diminuição da exposição do sol relacionada a erupções vulcânicas. Mas a retomada do aquecimento é prevista.
- A evidência científica para a mudança climática causada pelo homem se fortalece a cada ano, deixando menos incertezas sobre as graves consequências da falta de resposta a este processo, ainda que existam lacunas de conhecimento e incertezas em algumas áreas da ciência climática - avalia Qin Dahe, copresidente do grupo de trabalho do IPCC.
Em Estocolmo, a reunião do IPCC será protagonizada pelos cientistas que fazem parte do chamado Grupo de Trabalho I. Há outros dois GTs: o segundo é voltado para a avaliação dos impactos das mudanças climáticas, as formas de adaptação e a vulnerabilidade ao clima; e o terceiro se concentra nas ações de mitigação dos impactos. Eles serão finalizados, respectivamente, em março e abril de 2014. Está previsto, ainda, um Relatório Síntese, para outubro de 2014.
Paralelamente à reunião de cientistas do IPCC, novos estudos reforçam o conhecimento acerca das mudanças climáticas. Trabalho recém-publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), mostra que o regime de chuvas no planeta muda de acordo com o aquecimento do planeta. Analisando dados da última era do gelo, há 15 mil anos, os pesquisadores perceberam que o cinturão de umidade se desloca para o Norte. Caso o processo se repita, desta vez acelerado pela ação do homem, o Meio-Oeste dos Estados Unidos teria mais chuvas e a Amazônia enfrentaria severas secas.
O Globo, 24/09/2013, Ciência, p. 25
http://oglobo.globo.com/ciencia/infancia-ameacada-pelas-mudancas-climat…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.