Folha de Boa Vista
Autor: Carvílio Pires
31 de Mai de 2007
Descontraído e entre sorrisos ao ser questionado sobre o que falaria ao mundo de sua experiência em Roraima, Robert Cooter disse que o sinal de seu prestígio fora visto quando David Yanomami Kapenawa batizou o cachorro que tem com o nome de Bob (diminutivo de Robert), em sua homenagem.
Voltando ao tom da entrevista concedida com exclusividade à Folha, o professor da University of California disse ser muito difícil elaborar uma teoria econômica com todas as variáveis de uma comunidade indígena. Por isso, várias pessoas erram ao analisar a realidade de fato.
Por exemplo, disse que em Boa Vista, alguém lhe disse não haver direito de propriedade entre os índios, eles seriam comunistas. Mas a comunidade yanomami é diferente do comunismo - que conhece amplamente -, por isso não entendia como as pessoas podiam cometer tal erro.
Outro equívoco é que membros da comunidade yanomami compartilhariam o que têm, sem nenhum tipo de delimitação ou de tensão. O professor contesta dizendo que a evolução biológica e da humanidade tem a ver com tensão e conflito.
"É uma visão romântica acreditar que isso não existe quando falamos de comunidades indígenas. Nas comunidades indígenas existe o consenso, e elas são mais coletivas que nossa sociedade. A vida dos yanomami nos mostra como fomos em 99% da humanidade. A base do meu artigo será como conciliar o direito dos indígenas sobreviverem com as pretensões individuais das pessoas. Vou começar a dizer isso amanhã [hoje] durante a palestra que farei em Porto Alegre [RS]. Eu sou muito agradecido ao Estado de Roraima por me proporcionar essa inspiração".
COMPETITIVOS - Para facilitar a compreensão Robert Cooter lembrou que seu pai viveu numa pequena cidade de Oklahoma, onde todos se conheciam e lá havia conflitos e tensões. Cada família queria que seus filhos fossem os primeiros na escola, existia disputa sobre poder e recursos escassos.
"Será que não podemos pensar que as famílias indígenas também querem que seus filhos sejam os primeiros e consigam se sobressair? Será que eles não competem ao abater a melhor caça ou em obter recursos escassos?", questionou.
PRIMITIVO - Falando dos yanomami, o professor disse ter conhecido algo muito próximo daquilo que poderá se perder, caso essa cultura não seja preservada. Prático na aplicação do conhecimento (direito e economia) ele não acredita que a comunidade yanomami ficará congelada no tempo.
"Essa comunidade deve ser preservada do jeito que ela quiser. Deve ser feito contato com vantagens mútuas. O povo yanomami deve entrar em contato com a sociedade envolvente nos termos que quiser, num ritmo próprio, conforme o interesse desse povo", recomendou.
Após conversar com yanomami e indígenas aculturados, afirmou que conforme o estágio em que se encontram cada comunidade quer coisas diferentes. Para ele, os yanomami não estão 100% isolados da economia, e defende que eles querem e merecem espaço na economia e mais respeito da sociedade.
"Algumas pessoas daquela tribo gostariam de sair de lá para conhecer, andar de avião, experimentar comidas e voltar ao seu habitat. Para mim, ficou claro que eles querem suas terras muito bem definidas até como forma de se protegerem para manter contato quando quiserem", avaliou.
O professor disse ter ficado bem impressionado com as decisões do Governo Federal brasileiro em abandonar a construção da estrada transamazônica (1970) e quando destruiu pistas ilegais e lutou contra a atividade de garimpo.
"Essas atitudes foram corajosas e extremamente importantes para a preservação do meio ambiente. Voando de avião para a comunidade yanomami, vê-se que onde há estradas a floresta foi devastada. É elogiável a ação de governo se opondo aos interesses econômicos para manter uma política saudável de preservação do meio ambiente".
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