Gazeta de Cuiabá-Cuiabá-MT
Autor: Luiz Fernando Vieira
15 de Abr de 2003
As peças serão mostradas na Biblioteca, onde ainda acontece o lançamento de livro do nambikwara Renê Kithâulu
Neste mês do índio ele é o tema de uma série de importante eventos na Capital, como a Mostra de Artefatos Indígenas de Mato Grosso e o lançamento do livro Irakisu: O Menino Criador, de Renê Kithâulu Nambikwara. Tanto a abertura da exposição quanto o lançamento acontecem hoje, às 17 horas, na biblioteca do Sesc Arsenal. Renê estará autografando livros, contando histórias e respondendo às perguntas dos visitantes.
Os eventos, viabilizados através de uma parceria com a Fundação Nacional do Índio de Mato Grosso (Funai-MT), visam dar aos visitantes uma pequena noção da cultura e do dia-a-dia dos índios brasileiros. Para ajudar nesse trabalho estará presente o índio nambikwara Renê Kithâulu, de 38 anos, que atualmente trabalha em São Paulo divulgando a cultura de seu povo para estudantes.
Ele fará o lançamento de seu livro Irakisu: O Menino Criador, que conta uma lenda nambikwara e ainda ajuda a desfazer alguns mal-entendidos relacionados ao índio no Brasil. A publicação faz parte da coleção Memórias Ancestrais, da Editora Fundação Peirópolis e é, desde já, a mais concorrida. Segundo ele, o livro está sendo muito requisitado, inclusive pelo Governo Federal, interessado em colocá-lo à disposição dos estudantes.
O escritor revela que Irakisu conta a história de um menino muito especial, responsável por trazer luz a seu povo, literalmente. Reza a lenda que num determinado momento uma atitude desajeitada transformou o dia em noite. O índio explica que havia duas cabaças, uma com o dia e outra com a noite que foram trocadas, o que causou o problema. O homem que "liberou" a noite no momento errado se transformou num urutau. Com a escuridão, todos da aldeia foram embora, menos dois irmãos, que se casaram e tiveram um filho, Irakisu.
Com poderes especiais, essa criança conseguiu restabelecer o dia ainda aos seis meses de idade, conta Renê. O menino, além de trazer o sol de volta, se preocupou em fazer com que estivesse de volta todos os dias. Levava o sol até o ponto máximo (ao meio-dia) e o conduzia ao ponto inicial, no leste. Em substituição, colocava um chumaço de algodão incandescente para pôr-se em seu lugar. Irakisu temia que, se o sol de pusesse, nunca mais voltasse.
Por meio da lenda, o escritor repassa aos não-índios uma parte da cultura e da história dos nambikwara. Ele aproveita a obra para desfazer certos lugares-comuns que, em sua opinião, depõem contra os índios. Um deles, exemplifica, é a designação, pelos portugueses, de oca como casa de todos os índios. Na verdade, esta é a designação de uma etnia. Os nambikwara chamam de sxisu. "Quero mostrar mais claramente as diferenças".
Já a mostra de artefatos apresentará peças, a maioria utilitárias, do dia-a-dia das aldeias como cestarias, armas, armadilhas e instrumentos musicais e ritualísticos como chocalhos. São produtos oriundos de várias etnias, como kalapalo, bororo, mehinako e xavante. Com poucas peças, seu intuito é apenas dar uma idéia do que é feito pelos índios, avisa a responsável pela biblioteca do Sesc Arsenal, Hellen Rejane Simões de Medeiros.
Os dois eventos, explica, fazem parte de uma nova mentalidade que ela vem implementando no local. Chamadas pela bibliotecária de intervenções, as ações visam quebrar um pouco o clima sisudo que reina, onde o silêncio e a compenetração parecem regras incontornáveis. A biblioteca, na visão de Hellen, deve promover a cultura de forma mais solta, mais descontraída. Para ela, nada impede que os visitantes interrompam um pouco a leitura para assistir a uma apresentação teatral ou musical, ou um bate-papo como o que se pretende fazer com a presença de Renê.
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