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Indios querem ampliar reserva no AM

A Critica, Capa e Cidades, p.A1, C4-C5
23 de jan de 2004

Índios querem aumentar reserva
Numa assembléia à qual compareceram duzentos líderes indígenas, na aldeia Kassawa (foto), localizada nas cabeceiras do rio Nhamundá, decidiu-se pela ampliação da reserva, situada na divisa dos Estados do Amazonas e Pará. Ali vivem três mil indivíduos, divididos em oito diferentes povos indígenas sendo os hiscariana a principal etnia. Eles enfrentam problemas na área de saúde, como ocorrência de casos de diarréia. p.A1.

Cassauá, Nhamundá - Índios das etnias Hiscariana, Uai-Uai, vindos do Pará e de Roraima, e Macuxi, também de Roraima, encerraram ontem a 3ª.Assembléia Geral dos Povos Indígenas da Reserva Nhamundá-Mapuera dispostos a lutar pela ampliação da reserva, na fronteira do Amazonas com o Pará, onde vivem aproximadamente 3 mil indivíduos. A luta promete ser longa e difícil, como a que acontece agora em Roraima, onde grupos de mesma etnia com objetivos diferentes brigam pela homologação da reserva Raposa/Serra do Sol. A assembléia aconteceu na aldeia Cassauá, localizada nas cabeceiras do rio Nhamundá e pá: chegar lá alguns dos 200 líderes indígenas presentes caminharam por até 15 dias dentro da mata. "Quando o homem branco morre, os filhos ficam com o que é dele. Conosco tem que ser a mesma coisa, pois nossos ancestrais ocupavam toda essa região e nós temos agora que herdá-la", defendeu o presidente do Conselho Geral do Povo Hiscariana, Francisco Afoxwa, durante a assembléia encerrada com muita festa e dança.
Índios quere em ampliar reserva no AM
Etnias de decidem em assembléia lutar pela ampliação da Reserva Nhamudá-Mapuera, no leste do Estado.
Indígenas vivem em 1,04 milhão de hectares, terra reconhecida e homologada em 1989, em Decreto assinado por José Sarney
Gerson Severo Dantas
A reserva indígena Nhamundá-Mapuera concentra oito povos indígenas em 1.049 milhão de hectares, distribuídos pelos municípios de Nhamundá, no Amazonas, Faro e Oriximiná, no Pará. A terra foi homologada pelo então presidente José Sarney (PMDB), em 17 de agosto de 1989. A questão que impulsiona a luta atual dos índios pela ampliação é de que a população está crescendo - portanto precisando, de novas terras - e que lugares tradicionais habitados pelos antepassados deles não foram incluídos na demarcação feita na época de Sarney.
Os Hiscariana compõe a principal etnia da reserva, que ainda é habitada, por .Uai-Uai, Xereu, Katuena, Mauaiuana, Kaxuiana e Katáfauiana, além dos Zo'é, índios isolados que vivem de forma nômade por territórios espalhados pelos municípios de Oriximiná e Óbidos.
Parentes próximos, integram o mesmo tronco linguístico, o karib, os Uai-Uai vivem basicamente na região de Mapuera, onde está o limite extremo da reserva. Eles vieram a pé ou em pequenas embarcações, subindo o rio Nhamundá, cujo maior obstáculo foram 30 cachoeiras. Na assembléia, os Uai-Uai também defenderam a ampliação da reserva argumentando a necessidade de se criar um corredor contínuo de terras indígenas na região.
Saúde
Além da ampliação da reserva Nhamundá-Mapuera, as lideranças indígenas cobraram uma solução para problemas de saúde que afetam as aldeias.
Vivendo em 11 aldeias, quatro delas fora da área da reserva, os Hiscariana reclamam principalmente dos casos de diarréia, doença transmitida pela água retirada do rio Nhamundá. Presente na assembléia geral dos indígenas, a chefe do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) de Parintins, Arlene de Jesus Cunha Pinto, disse que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) repassou no ano passado recursos para a Prefeitura de Nhamundá construir dois poços artesianos nas aldeias Cassauá e Riozinho, mas as obras não foram realizadas. 0 poço garantiria às duas maiores aldeias Hiscariana o fornecimento de água potável e livraria os índios, principalmente as crianças, de doenças como a diarréia. "Soubemos por alto que o maquinário foi comprado e está em Nhamundá, de onde não tem como ser transportado até aqui (Cassauá)", disse Arlene. "Pedi a eles que formalizassem um documento contando que os poços não foram construídos para poder comunicar a gerência da Funasa em Manaus sobre o descumprimento do convênio", completou.
Os casos de diarréia entre os Hiscariana só não é pior porque ele é pouco navegável e o ph, a exemplo do rio Negro, em Manaus, é bastante ácido.
Educação
Os indígenas também reforçaram a idéia defendida em nível nacional de que a educação deve ser feita em língua materna e, preferencialmente, por professores indígenas. Isso, na avaliação dos participantes da assembléia geral dos povos que vivem na reserva Nhamundá-Mapuera, ajuda a preservar os laços culturais e as tradições passadas de pai para filho. "Só a educação indígena vai garantir a vida dos nossos povos. Sabemos que tem etnias que hoje estão estudando para voltar a falar a língua deles, mas esperamos que isso não aconteça conosco", diz o presidente do Conselho Geral do Povo Hiscariana, Francisco Afoxwa. "Educação na própria língua é fundamental para aumentar a cultura e as esperanças dos nossos povos", completou o líder Antônio Uai-Uai, que foi a assembléia na companhia de outros 50 indígenas desta etnia.

ONG cuida da saúde indígena
Os serviços de saúde oferecido aos povos indígenas mudou bastante desde a década de 90. Inicialmente uma atribuição da Fundação Nacional do índio (Funai), a saúde passou às mãos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e hoje parte dele é feito por organizações não-governamentais credenciadas.
No Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) de Parintins a atribuição de cuidar de 8 mil índios das etnias Satere-Maué, Hiscariana, Uai-Uai e Zoë está a cargo da ong Instituto de Desenvolvimento de Atividade desde Auto-sustentação das Populações indígenas (Indaspi), que mantém um convênio com a Funasa no valor de R$ 3,5 milhões / ano.
O atual contrato encerra em março, mas deve ser renovado. De acordo com a Diretora Executiva da ONG, Maria Margareth Machado, todos os programas nacionais desenvolvidos pelo Ministério da Saúde estão presentes nas aldeias. "São programas de vacinação, combate as doenças imuno-previníveis, saúde da gestante e saúde bucal", diz.
Para atender a demanda, o Indespi disponibiliza nas aldeias Agentes de Saúde Indígenas (AIS), que se reportam a auxiliares de enfermagem que ficam baseados nas aldeias mais populosas, como Riozinho e Cassauá no caso dos Hiscariana. "Enfermeiros e odontólogos passam regularmente em todas as aldeias", explica Margareth. Pacientes que necessitam de atendimento médico são levados para Nhamundá ou Parintins, conforme a gravidade.

Evangélicos versus tradição
A presença de missionários evangélicos da igreja Novas Tribos entre os Hiscariana invoca uma reflexão complexa e de difícil avaliação. Se por um lado eles conseguiram evitar a contaminação de costumes, sobretudo os ligados ao consumo de álcool, por outro inibem práticas milenares e hoje bastante valorizadas pela sociedade, como no caso da medicina tradicional exercida por intermédio dos pajés.
Em Cassauá, por exemplo, a religião tradicional dos Hiscariana, também atribuição do pajé, sobrevive as escondidas, uma vez que é condenada pelos missionários da Novas Tribos. Quando perguntados se existe um pajé na aldeia, o não é uma resposta unanime. Uma conversa com as crianças, contudo, revela que ele existe e continua ativo, apesar da condenação da igreja. De acordo com um Agente de Saúde que conhece Cassauá, o trabalho do pajé com a medicina tradicional sobrevive e isso é percebido quando alguém adoece e só muitos dias depois procuram o posto de saúde do Instituto de Desenvolvimento de Atividade desde Auto-sustentação das Populações Indígenas (Indaspi). "Eles vão primeiro lá com ele. Se não deu certo, aparecem aqui", revela.
Essa interferência religiosa pode causar o desaparecimento de conhecimentos milenares cujo único detentor são os pajé, curandeiros "oficiais" das aldeias indígenas.

Aldeia Cassauá
Bucolismo no meio da floresta
A vida numa aldeia Hiscariana é a representação acabada do bucolismo e da tranqüilidade amazônica. A aldeia Cassauá, por exemplo, fica a 30 cachoeiras de distância do município sede, Nhamundá, pelo rio do mesmo nome, algo como 10 dias de viagem por barco nesta época do ano. Para chegar Ida melhor opção é por via aérea, meio usado quando algum doente precisa ser removido para uma unidade de saúde de maior resolutividade. De Manaus até lá são 1h40 minutos em avião de pequeno porte, os únicos capazes de aterrisar na acanhada pista de 400 metros de comprimento.
Cercada por uma densa floresta Amazônica, Cassauá tem uma população de 524 indígenas, conforme o Instituto de Desenvolvimento de Atividades de Auto-sustentação das Populações Indígenas (Indaspi), organização não -governamental responsável pelos serviços de saúde na maior parte do Distrito Sanitário Especial Indígena de Parintins, com jurisdição sobre a terra dos Hiscariana.
A energia elétrica é fornecida por um pequeno gerador, alimentado por diesel trazido de barco de Nhamundd. A cota diária, contudo, não passa de cinco horas, geralmente à noite, quando a maioria, principalmente os mais jovens, se reúnem na oca principal da aldeia para assistir televisão.
Os programas preferidos são os transmitidos por uma emissora evangélica, religião adotada pela maioria dos habitantes. Outra influência da igreja, a chamada Novas Tribos, pode ser vista na formação de uma "bandinha" musical, com instrumentos como bateria, teclado e, surpresa geral, guitarra.
A bandinha, por sinal,foi uma das atrações da Assembléia Geral dos Povos da Reserva Nhamundá-Mapuera, encerrada ontem. Eles tocam num ritmo forte, com muita marcação da bateria e até alguns solos de guitarra. As músicas são cantadas por todos na língua Hiscariana e agitam toda a aldeia por meio de um amplificador. As danças são executadas com intensidade, com os grupos se dividindo para dar as boas vindas aos visitantes. A cantoria impressiona e as coreografias, bem espontâneas, envolvem quem assiste com atenção, uma obrigação para quem chega a Cassauá. "Vocês não sabem a preocupação que eles tiveram na preparação dessas danças, uma homenagem e uma espécie de boas vindas", diz o hiscariano Almeida, espécie de guia dos visitantes e das equipes de reportagens presentes no segundo dia de assembléia.
Beleza pura
A economia dos Hiscariana é de sobrevivência, com foco na caça, pesca e nas roças de macaxeira e mandioca. Atividade incipiente e que deverá ser mais explorada é a coleta de óleos, como andiroba e peroba. "Estamos buscando parceiros que possam nos ajudara desenvolver atividades sustentáveis", diz a Diretora Executiva do Indaspi, Maria Margareth Machado.
0 artesanato também pode ser uma boa fonte de renda para estes indígenas, que fazem colares, cocares, bolsas, cintos e outros tipos de adereços cuja principal marca é a qualidade e o apuro técnico.
Em Cassauá, um colar pode sair R$ 3 e um cinto, feito com materiais da floresta, custa R$ 12.
Das roças sai o principal alimento dos Hiscariana, que produzem beijus, farinha e uma bebida muito consumida feita a base de goma de mandioca. A farinha, consumida por todos, é do tipo amarela e de boa qualidade.

FESTA NA FLORESTA
Anfitriões do principal encontro da região, os moradores de Cassauá se esmeraram no quesito alimentação. No primeiro dia da Assembléia Geral, eles fizeram uma caçada na companhia dos representantes das
outras etnias e voltaram da floresta com tudo preparado para um banquete. Eram antas, veados, porcos do mato, jabutis e muitos peixes, principalmente tucunarés. Quem participou do festão gastronômico local disse que há muito tempo não via tanta fartura.
A preocupação com o recebimento correto dos visitantes já está mobilizando a comunidade também com vistas a um encontro regional de indígenas que, segundo eles, vai acontecerem Cassauá no próximo ano. Uma das preocupações é com o registro deste encontro, daí que todos estão preocupados em obter informações sobre máquinas fotográficas, camaras filmadoras e gravadores. A preocupação com as fotos são tantas que os moradores até, - parecem turistas japoneses, dado a paixão pelo registro fotográfico. "Temos que fazer bonito, diz um artesão da aldeia.

A Crítica, 23/01/2004, p. A1, C4-C5

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