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Índios pedem atenção

A Tarde
Autor: VITOR PAMPLONA
27 de Jan de 2009

Índios pedem atenção

Eles discutirão a partir de hoje temas como demarcação de terras, grandes projetos econômicos e a preservação da região amazônica

A participação recorde de povos indígenas anunciada pela organização do 9o Fórum Social Mundial, que começa hoje em Belém (PA), tem grandes chances de se voltar contra o governo federal, que investiu R$ 77 milhões no evento. Reunidos em uma escola estadual ao lado da Universidade Federal Rural da Amazônia, um dos centros nervosos do
encontro, 700 índios começaram a debater ontem, em conversas informais, a pauta de reivindicações que pretendem apresentar nos próximos dias.

Um ponto encabeça a lista: a devastação ambiental. Segundo líderes indígenas, a maior ameaça à sobrevivência dos povos da Amazônia. "Precisamos de saúde e educação. Mas o que mais preocupa é o meio ambiente. A partir do momento em que a floresta está sendo destruída, nós estamos sendo destruídos", disse Haroldo Saw, coordenador da
delegação da tribo Tucuxi, que mandou 56 índios para Belém.

Segundo Saw, a presença de madeireiros, pescadores e sobretudo garimpeiros tem ameaçado o modo de vida e a segurança das comunidades indígenas do sul e sudoeste do Pará. "Não tem fiscalização.

O povo indígena acredita muito na Funai (Fundação Nacional do Índio), mas o governo precisa dar mais apoio", afirma o cacique Biboy, considerado o cacique-geral da nação Munduruku, a maior etnia indígena do Estado. Espalhados em 107 tribos na região dos rios Teles Pires e Tapajós, na divisa do Pará com o Mato Grosso, vivem mais de oito mil mundurukus, de acordo com Elton Mendes, funcionário da Funai na região.

Os apelos dos índios têm procedência, diz Mendes. O posto da Funai na área tem apenas sete funcionários, dos quais cinco são responsáveis pelo acompanhamento das tribos, numa reserva de 2,34 milhões de hectares. Nos casos mais graves, um único funcionário tem 40 tribos sob sua alçada e precisa viajar até 10 horas de barco até chegar à
mais distante.

"Falta combustível, que é a coisa mais básica para trabalharmos",
conta Mendes.

O valor da gasolina ou óleo diesel às margens do Tapajós ou do Teles Pires pode ser medido pela oferta que alguns dragueiros fazem aos índios em troca de permissão para explorar a reserva.

"Oferecem 45 litros de gasolina, 200 litros de óleo diesel e 35 gramas de ouro para instalarem as dragas", diz Mendes. "Fazem a cabeça dos índios, que acham que estão ganhando, e depois não querem mais que os garimpeiros saiam". Há casos ainda em que a oferta é repassar 10% do que é extraído às tribos. Mas, sem fiscalização, afirma o funcionário da Funai, não se sabe quanto os dragueiros lucram com o garimpo nem se estão cumprindo o acordo com os índios.

A edição deste ano do Fórum Social Mundial escolheu como tema central a Pan-Amazônia, que engloba a área da floresta no Equador, Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela, Suriname, Guiana e Brasil. A ideia é dar visibilidade a povos como os tucuxis e os mundurukus, mas a eclosão da crise mundial nos últimos meses deve assumir a dianteira nas listas de discussões.

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