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Índios matam o irmão

A Crítica, Cidades, p.C1
14 de set de 2004

Índios matam o irmão
Cisino foi morto pelos três irmãos quando atacou a própria mãe com um punhal. A vitima era tida como violenta

Elvis Chaves
Da equipe de A Crítica

Três índios da tribo Cocama, os irmãos Luizinho, 28, Genesis, 21 e Josinei Arcanjo Pereira, 18, foram presos em flagrante na madrugada de ontem por agentes do 4o Distrito Policial, no bairro Grande Vitória, Zona Leste. Motivo: mataram a socos e pontapés o irmão mais velho Cisino Pereira Arcanjo, o "Baixo", 35, depois dele, drogado, ter tentado matar a mãe, Terezinha Arcanjo Moraes, 54, a golpes de punhal.
0 crime aconteceu às 1 h10, no quintal da residência da família, na rua Salvador com Perimetral, após uma discussão. "0 Baixo aprontava muito. Ele se drogava e depois bagunçava em casa na rua.
Ontem, ele se irritou com a mamãe, quando ela pediu para que parasse de cheirar tíner e fumar maconha dentro de casa. Nós só batemos nele daquele leito porque depois de tentar matar a nossa mãe ele ainda tentou nos matar com uma enxada", comentou Josinei Arcanjo.
0 desentendimento que terminou de forma trágica entre os índios iniciou a 1h. Luizinho, Genesis e Josinei assistiam televisão no interior da casa, quando Baixo, que bebia no quintal, entrou para dormir. "Ele estava muito embriagado e começou a fazer barulho", relembrou, abatida, Terezinha Arcanjo.
Enquanto se acomodava, disse Terezinha, o cheiro de álcool e tíner se espalhou pela casa, incomodando os irmãos, que a acordaram para que pedisse ao filho para tomar banho e deixasse de fazer barulho. "Eu levantei e o chamei para o quintal. Só que ele não gostou do que disse e veio em cima de mim com um punhal na mão. 0 Josinei, quando o viu com arma na mão, correu com uma pau e acertou-lhe o braço", disse, comentando que o filho caiu no chão com a paulada.
A morte
Chateado com o Josinei e com os outros irmãos que viam a na. Cisino pegou a enxada que estava guardada na cozinha e tentou matá-los de uma vez só, mas não conseguiu. "Os meninos o desarmaram e depois começaram a bater nele com socos, chutes. Mesmo no chão apanhando, ele dizia que ia matar todo mundo. Estava enfurecido porque era ele que estava acostumado a bater em todo mundo", ressaltou, afirmando que ainda não sabia dizer se a morte do filho representava um alívio ou uma dor. "Eu apanhei dele outras vezes. Há dez anos, antes de a gente vir para Manaus, ele estuprou a irmã", acrescentou.
Sem oferecer resistência, os três irmãos foram presos por policiais do 4o DP, que foram acionados pelos vizinhos: Se condenados, eles poderão pegar, se condenados, de seis a 20 anos de prisão.
Funai
O delegado do 4o , ficar o Leite, informou que chegou a entrarem contato com a Fundação Nacional do índio do Amazonas (Funai/AM) para saber o que seria feito em relação aos índios presos, mas o representante do órgão teria dito que o crime não teria relação com a causa da Funai. "Defendemos os índios de modo geral e não num fato isolado. Isso é coisa para a Justiça", teria dito o representante ao delegado.
A reportagem de A CRÍTICA também entrou em contato com a Funai pelo telefone 633-3132 para saber se seriam disponibilizados advogados para os índios presos, o funcionário que atendeu a chamada explicou que o presidente do órgão não estava no local.
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Corpo ficou no lML
Até o início da tarde de ontem, o corpo de Baixo não tinha sido liberado do Instituto Médico Legal (IML). A família também não sabia onde iria sepultá-lo. O grupo já morava em Manaus há algum tempo e tinha um histórico de violência. Sempre o irmão mais velho brigava com as pessoas do bairro.

Histórico de violência
"Ele (Cisino Arcanjo) veio para Manaus antes da gente, em 1995. Aqui formou família. Depois de alguns anos, nós viemos para cá. Assim como me deu trabalho para nascer, me deu trabalho toda vida", o desabafo é da dona de casa Terezinha Arcanjo, 59. De acordo com informações dela, Cisino era dependente químico e, volta e meia, se envolvia em confusões. "Se passassem alguém que ele não gostava, ele insultava. Sempre chegava em casa batido por alguém".
Um vizinho, que se identificou apenas como Paulo, afirmou que Cisino gostava de roubar objetos para revender. "Ele pegava as coisas na casa dele e depois saía vendendo. Ele vendia para conseguir dinheiro para comprar drogas", comentou. 0 delegado Ricardo Leite afirmou que o currículo de brigas de Cisino, conforme afirmaram testemunhas, era extenso. "Segundo os vizinhos, ele gostava muito de brigas. E mais: quando a mãe falava algo, ele batia nela", afirmou.
Blog
Arminda Mendonça
Antropóloga
"A violência não acontece somente entre índios. Ela está enraizada na sociedade. Essa família de índios Cocama, do Alto Solimões, está destribalizada, perdeu a essência e acabou incorporando os males da grande cidade. Ela está sem chão. A partir do momento em que o índio sai da tribo ele perde um pouco da cultura e acaba absorvendo a cultura do outro". Essa é a opinião da pesquisadora sobre a situação na qual encontram-se este indígenas em especial.

Quatro assassinatos foram registrados
Um dos homicídios mais barbaros foi a morte do caseiro Bartolomeu Lima, morto à terçadadas
Além da morte de Cisino Arcanjo, no Grande Vitória, outros quatro assassinatos foram registrados entre a tarde de domingo e a manhã de ontem. 0 mais bárbaro dos crimes, conforme o delegado de Homicídio e Seqüestres (DEHS), Oscar Cardoso, teve como vítima o caseiro Bartolomeu Petrolinio Lima, 40, morto a terçadas, ontem pela manhã, depois de uma bebedeira com o amigo Erimar Pereira, 40.0 crime ocorreu no ramal do Ipiranga, no Km 8, na Zona Leste.
Outra vítima da violência foi o ajudante de caminhão Claudemir Martins, 25. Ele foi morto, às 17h30, a golpes de gargalo de garrafa também depois de uma bebedeira. 0 autor do crime, ocorrido no bairro Rio Piorini, Zona Norte, foi o desempregado Marcelo Maurício, 28, que foi preso em flagrante por investigadores do 12o DP.
Três horas depois, era a vez do vendedor autônomo Eliel Pereira da Silva, 23, ser esfaqueado no rip-rap da Compensa 2, Zona Oeste. Levado para o Pronto-Socorro 28 de Agosto, Eliel faleceu duas horas depois. 0 acusado do assassinato, Elisandro de Almeida, 30, está foragido.
Uma hora depois da morte de Eliel, às 23h, na Cachoeirinha, Zona Sul, o motorista João Lopes, 49, foi atingido por uma bala perdida durante um assalto e morreu no mesmo local. Ele assistia a perseguição de uma taxista, Sigma Freitas, a dois assaltantes que a tinham atacado minutos antes. 0 caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios e Seqüestros.

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Dentro dos padrões
A Secretária de Segurança informou que os crimes cometidos no fim de semana está dentro dos níveis aceitáveis. Na avaliação dos policiais foi tranqüilo.

A Crítica, 14/09/2004, p. C1.

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