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Índios lançarão candidatos em 2002

Diário Catarinense-Folrianópolis-SC
Autor: FABRÍCIO SEVERINO
26 de Ago de 2001

Visando uma maior participação na política, cada Estado terá postulante a deputado estadual

Foi-se o tempo em que toda a representatividade dos índios na política restringia-se ao cacique-deputado Juruna. Disposta a se organizar, a população indígena promete ir com tudo nas eleições do ano que vem: querem lançar um candidato a deputado estadual por Estado e em cada uma das cinco regiões brasileiras, pelo menos um candidato a deputado federal. Os índios descobriram que o único meio para manter os direitos adquiridos e reverter os 500 anos de dominação branca é através da organização política. Eles estiveram reunidos na Capital, por três dias, nesta semana, participando do 1o Congresso de Parlamentares Indígenas. O encontro, mostrou a importância da unidade entre as várias etnias indígenas. Os números comprovam que eles avançaram desde 1996. Naquele ano, foram eleitos em todo país, 39 vereadores, dois prefeitos e um vice-prefeito. No ano passado, os índios dobraram a representação. Elegeram 82 vereadores, um prefeito e sete vice-prefeitos. Em Santa Catarina, foram eleitos seis vereadores e o vice-prefeito de Ipuaçu, Orides Belino (PPS). O vereador Agnaldo Pataxó, eleito pelo PT no município de Pau Brasil, na Bahia, vê grandes possibilidades de a população indígena ter um representante na Assembléia Legislativa do seu Estado. Independente de perdermos já estaremos formando uma liderança política, destaca. Ele também considera vesga a visão de que os índios, ao participarem do processo político tradicional, possam perder a própria identidade. Ao contrário, ensina, quanto maior for o interesse dos índios por política, menor será o poder de manipulação por parte da população branca. Toda cultura não é estática, ela se transforma. Nós podemos usar a Internet e nem por isso vamos deixar de lado a nossa cultura, observa. SAIBA MAIS Assédio e união O professor de português e da língua indígena guarani, Manoel da Silva Wera, já está preocupado com o assédio dos políticos nas eleições gerais do ano que vem. Vai vir paulada, prevê. Mesmo desacreditado com as promessas do homem branco, Manoel Wera reconhece que a população indígena precisa reunir forças para garantir seus direitos. Espaço feminino A xokleng Iraci Nunc-nfôonro Aniba José, tem notado uma abertura de espaço cada vez maior para as mulheres na política. Prova disso é o fato de ela ter sido escolhida cacique-presidente da sua aldeia em Vitor Meireles, no Vale do Itajaí. Suplente de vereadora pelo PMDB, Iraci diz que tem um grande sonho: cursar uma faculdade de Administração. Índio articulado O vereador baiano Agnaldo Pataxó (PT) já se vira bem quando fala como político. Articulado, usa termos próprios de politicos que o credenciam para vôos maiores na carreira. Para Agnaldo Pataxó, existe uma enorme diferença no modo de fazer política dos brancos e dos índios. Nós pensamos no coletivo e o branco pensa individualmente, destaca Agnaldo. Vice-prefeito Eleito no ano passado vice-prefeito de Ipuaçu, no Oeste do Estado, o cacique Orides Belino (PPS) disse que pretende usar a política para reivindicar em favor dos índios. A política é um meio de nos articularmos, ensina. Ele explica que a população indígena não tem preconceito quanto aos partidos políticos. Cada um escolhe o seu, sem problemas, diz. Doente, Juruna gasta tempo vendo novelas Depois de se tornar o primeiro índio eleito para o Congresso Nacional e adquirir fama nacional, Mário Juruna vive hoje no ostracismo. Aos 58 anos, o líder Xavante mora em Guará, cidade-satélite de Brasília, preso a uma cadeira de rodas. Há quatro anos, Juruna sofre com uma osteoporose, que o mantém em casa, a maior parte do tempo assistindo televisão. As dores são tão terríveis, que precisa tomar doses diárias de analgésicos. Com dificuldade, recorda da época em que desembarcou em Brasília, no começo dos anos 70, quando começou a criticar o descaso do regime militar com os problemas indígenas. Gosta de comparar o governo militar com o de Fernando Henrique Cardoso: Esse governo não é democrático. A situação hoje ainda é pior. Desiludido com a política, Juruna ainda mantém escassos contatos com o líder do PDT Leonel Brizola que até hoje diz admirar. Foi graças ao incentivo de Brizola, que Juruna se elegeu com mais de 30 mil votos pelo Rio, em 1982. Eleito, costumava freqüentar os gabinetes refrigerados de Brasília com um gravador em punho. As conversas eram gravadas e se as autoridades mentissem, Juruna divulgava a fita na imprensa. As fitas com as gravações foram jogadas no lixo. Não serviam para mais nada. Fiquei chateado com tanta sujeira e mentira e joguei fora tudo, revelou. O cacique vive hoje graças a um salário de R$ 3 mil pago pelo PDT, dinheiro que ajuda a manter sua grande família - 11 filhos, 30 netos e quatro bisnetos. A maioria, divide com ele os quartos da casa no Guará. Mesmo longe da política, Juruna mantém um discurso que segue a cartilha de Brizola, contrário as privatizações feitas no governo FHC. Ele (FHC) não foi eleito para proteger os Estados Unidos. Ele está esquecendo o povo dele e entregando o país e a Amazônia para os estrangeiros. Não podia entregar nada, criticou Juruna, que foi colega de FHC no Congresso, quando o presidente era senador. Separado da segunda mulher, Juruna não gosta nem mesmo de tocar no assunto. Se sente solitário - queixa-se que hoje ninguém mais conhece sua luta. Além dos familiares, ainda mantém contatos com amigos da aldeia em Barra do Garças, em Mato Grosso. E sua única diversão é assitir, antes de dormir, a novela Porto dos Milagres. Juruna se delicia principalmente com as cenas que envolvem os atores Lima Duarte e Antônio Fagundes, que interpretam dois políticos inescrupulosos da Bahia - Victório Viana e Félix Guerreiro.

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