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Índios do Andirá descendentes da litioterapia

Amazônia Real (Manaus - AM) - www.amazoniareal.com.br
Autor: Renan Albuquerque
13 de jul de 2015

O segundo filho de Albert Einstein com Mileva Maric, Eduard, nasceu em 1910 e com menos de 18 anos já tinha lido muito do que Freud havia disposto ao público. A meta era ser psicanalista de sucesso tanto quanto o pai era físico renomado. Einstein o incentivava, mandando-lhe escritos sobre a teoria do psicanalista vienense. Poucos meses após fazer 22 anos, Eduard conseguiu entrar na famosa clínica de Zurique onde Jung foi assistente de Bleuler.

Entretanto, o acesso se deu por conta de uma esquizofrenia aguda do jovem. Ele chegou doente e ali ficou por mais de 40 anos. O filho de Einstein morreu demente, como interno da clínica, no ano de 1965. Antes da morte, o físico declarou ao próprio Freud, em carta, nunca ter compreendido a teoria freudiana da repressão. A incompreensão de um pai acerca da loucura do filho, seja em histórias famosas como a do jovem Eduard ou em casos pouco conhecidos, mas não menos dramáticos entre tradicionais do Baixo Amazonas, leva amiúde a extremos.

Na sociedade urbana das cidades médias amazônicas e mesmo em áreas centrais de terras indígenas da região, a popularização do lítio-300, da litioterapia e de remédios usuais para transtornos mentais figura entre tradicionais como conversa natural. O problema se funda no fato de existir uma geração de indígenas com idade de 13 a 32 anos fazendo uso de medicamentos antes não ministrados a essas populações, o que tende a ser potencialmente perigoso no contexto da dependência a fármacos.

Em áreas tradicionais de indígenas Sateré-Mawé e Hixkaryana, abrangendo municípios de Barreirinha (Araticum, Umirituba, Kuruatuba e Vila Nova I), Maués (Nova Esperança, Vila Nova II, Santa Maria e Nova Aldeia), Nhamundá (Riozinho e Kassawá) e Parintins (São Francisco), existe um total de 13.012 índios declarados, contando-se as 118 famílias que moram na sede de Parintins e dois terços desse montante nas sedes de Barreirinha e Humaitá. Esse volume de pessoas é atendido por equipes médicas, sendo 108 casos registrados de indígenas, até o segundo trimestre de 2013, que já apresentaram algum episódio de distúrbio psíquico leve, moderado ou agudo.

No quantitativo, não se incluem possíveis casos a partir do segundo semestre de 2013 e pacientes atendidos dentro do território paraense. A média de atendimentos se situa dentro de padrões apresentados pela população mundial em geral, segundo dados da Universidade de Cambridge. Mas é de se destacar que princípios sociais antes inexistentes no cotidiano de ameríndios migrantes também estão sendo ativados a partir da vida que indígenas adolescentes e adultos jovens têm vivido em função do trânsito territorial. Tal existência difusa se correlaciona, em aspectos divergentes, à dependência a medicamentos que possibilitem controle relativamente rápido de crises maníacas (5 a 10 dias).

A tentativa de tratar doenças por litioterapia, proveniente da racionalidade biomédica, insuficientemente tem conseguido se traduzir em remediação medicamentosa positiva nas TIs também por causa da difícil compreensão por parte dos índios sobre o sentido do tratamento. O que os tradicionais veem e sentem é prerrogativa deles, dificultando uma decodificação verossímil da particularidade. Seria preciso uma imersão cultural para aprofundar relações, dado que o sistema de referência entre coisas, pessoas e representações, que opera no contexto identitário dos ameríndios, é de difícil expressão dentro da perspectiva da clínica psiquiátrica e psicoterapêutica.

É tarefa complexa transfundir possibilidades realizadas no universo étnico amazônico para dentro de um conjunto de significados não indígenas, onde há dinâmicas direcionadas a variáveis da realidade dos tradicionais para a racionalidade biomédica. Interessaria refletir sobre valores concernentes à natureza e cultura, dado que o pensamento indígena sobre o que a biomedicina projeta a eles é difuso do pensamento que médicos possuem sobre as projeções da biomedicina direcionada aos indígenas. O encontro entre culturas, antes de propiciar reposicionamento de práticas distanciadas e torná-las abertas ao diálogo e à transversalidade, provoca fissuras sequenciais que vão desde o desregramento da cosmovisão sobre crenças indígenas até a desestruturação de valores e ideologias ocidentais em face, por exemplo, a diagnósticos de sofrimento mental.

* Renan Albuquerque é professor e pesquisador do colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios waimiri-atroari, sateré-mawé, hixkaryana, junto a atingidos pela barragem de Balbina e com assentados da reforma agrária

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