CB, Brasil, p. 10
12 de Mar de 2008
Índios acusam PM de agressão
Operação de reintegração de posse de terreno na capital amazonense termina com 12 presos. Polícia afirma ter sido recebida com pedras e flechas
Paloma Oliveto
Da equipe do Correio
Líderes indígenas de 17 etnias acusam a Tropa de Choque da Polícia Militar do Amazonas de usar violência contra famílias que ocupam parte de um terreno particular de 1,2 mil metros quadrados localizado no Bairro de Santa Etelvina, em Manaus, na estrada AM-010. Ontem, os policiais fizeram uma operação para retirar os invasores, que estão acampados no local juntamente com não-índios. A reintegração de posse do terreno, propriedade de Toshiko Inoue e situado em uma Área de Preservação Permanente, foi determinada no dia 25 de fevereiro. A área estava ocupada por cerca de 200 pessoas, sendo 105 indígenas, que estavam no local havia três meses.
De acordo com a Polícia Militar, o grupo chegou a abandonar o local, mas retornou na madrugada de sábado e montou 80 cabanas. Os PMs alegaram que foram recebidos na tarde de ontem com coquetéis molotov, pedras e flechas. Os índios negam reação. "Eles não respeitaram ninguém. Chegaram uns 150 soldados armados aqui, a gente não estava armado. Mulheres e crianças foram agredidas, uma gestante foi para o hospital porque passou mal. Muita gente apanhou", relata o cacique Sebastião Kokama.
Raimundo Nura, um dos caciques que ocupam o local, batizado pelos índios de Lagoa Azul, diz que não houve tentativa de negociação. "Foram chegando e humilhando. Nós é que somos os verdadeiros donos da terra. Acham que a gente é cachorro, mas não podem tratar a gente assim. Daqui ninguém sai. Vamos chamar outros 'parentes' para ocupar a terra", disse.
Fiscais à paisana da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) vigiam o local e garantem que a maioria dos invasores é branca. Muitos estariam inclusive pintando o corpo para se caracterizarem como índios. Funcionários do órgão acreditam que as famílias indígenas estejam sendo usadas como massa de manobra por movimentos sociais contrários à prefeitura de Serafim Corrêa (PSB). Na ação de ontem, 12 pessoas foram detidas por desobediência policial e resistência. Entre elas, havia um menor branco e três indígenas, encaminhados à Procuradoria da Fudação Nacional do Índio (Funai).
Durante a operação, a PM adotou como estratégia um cerco aos ocupantes da área. Houve correria e choro. Mães com crianças no colo gritavam em tom de desespero. Alguns indígenas chegaram a atirar flechas contra os homens da PM, mas, a essa altura, o aparato policial se mostrou superior à resistência dos indígenas. Um trator foi usado para derrubar dezenas de barracos que tinham sido construídos na área. Ao fim da operação, que durou duas horas, 17 pessoas foram detidas, entre elas quatro índios. Arcos, flechas, terçados e facas também foram apreendidos.
Indignado, cacique Luiz Sateré, de 49 anos, que pertence à etnia seteré-mawé, disse que vai denunciar o que chamou de "excessos da PM" à Câmara de Vereadores de Manaus, à Assembléia Legislativa do estado e ao Congresso Nacional, assinalando que os policiais agiram com truculência e não mostraram aos indígenas o mandado de reintegração de posse.
CB, 12/03/2008, Brasil, p. 10
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