O Globo, O País, p. 3-4
31 de Out de 2009
Índios acham avião e tocam apito
Indígenas avisaram sobre queda por rádio; nove dos 11 tripulantes foram resgatados
Evandro Éboli
Brasília e Manaus
Foi um grupo de índios da etnia matis que localizou o avião C-98 Caravan, prefixo 2725, da Força Aérea Brasileira, desaparecido desde anteontem no trecho da Floresta Amazônica entre Cruzeiro do Sul, no Acre, e Tabatinga, no Amazonas. Os índios caçavam na região do Rio Ituí, no Amazonas, na noite de quinta, quando ouviram um barulho diferente e, ao avistarem a aeronave, retornaram à aldeia e fizeram contato, via rádio, com a administração da Funai em Atalaia do Norte (AM), que repassou a informação à FAB.
Ontem de manhã, um avião e dois helicópteros da FAB encontraram e resgataram nove sobreviventes do acidente na região informada pelos índios. Levados para Cruzeiro do Sul, foram medicados e estão fora de perigo. Outros dois passageiros do avião - o suboficial da FAB Marcelo dos Santos Dias, mecânico do avião, e o técnico em enfermagem da Funasa João de Abreu Filho - estavam desaparecidos até a noite de ontem.
A aeronave da FAB sofreu uma pane e fez um pouso forçado no igarapé Jacurapá, no Rio Ituí, afluente do Rio Javari, no oeste do Amazonas, quase uma hora depois de ter decolado de Cruzeiro do Sul com destino a Tabatinga, e afundou no rio. Os sobreviventes passaram todo o tempo num barranco, no leito do rio, até serem resgatados por helicópteros na manhã de ontem.
O Caravan, que pertence ao 7o Esquadrão de Transporte Aéreo, sediado em Manaus (AM), transportava sete funcionários da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e quatro tripulantes. Os sobreviventes resgatados da FAB são o 1otenente Carlos Wagner Ottone Veiga, o 2otenente José Ananias da Silva Pereira, o 1osargento Edmar Simões Lourenço, seis servidores da Funasa: Josiléia Vanessa de Almeida, Maria das Graças Rodrigues Nobre, Maria das Dores Silva Carvalho, Marina de Almeida Lima, Marcelo Nápoles de Melo e Diana Rodrigues Soares.
Levados para Cruzeiro do Sul, os nove foram atendidos no Hospital Geral do Juruá e terão alta médica hoje, inclusive uma mulher grávida de 14 semanas. Parentes foram ao encontro das vítimas num helicóptero da FAB. Os servidores da Funasa moram em Atalaia do Norte e Benjamin Constant, no Amazonas, perto do local do acidente. Um avião da FAB os levará para casa hoje. Os três tripulantes seguiram ainda ontem para Manaus, onde moram.
No hospital, os passageiros e tripulantes foram submetidos a uma série de exames, como radiografia, tomografia, ressonância e exames de laboratório. Vários deles estavam com pequenas marcas no corpo, causadas por picadas de insetos. Foram escalados, ao todo, 60 médicos para atender o grupo.
Segundo a FAB, 58 minutos após decolar de Cruzeiro do Sul, o Caravan emitiu sinal de emergência, que foi captado pelo Salvaero, órgão responsável na operação de busca e resgate de aeronaves. O avião deveria ter pousado às 10h15m em Tabatinga. Em seguida, a FAB iniciou as buscas, com sete aeronaves. O trabalho continua para encontrar os dois desaparecidos, e os índios ajudam como voluntários. Eles percorrem as margens do Rio Ituí.
Em nota, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou estar aliviado por nove pessoas terem sido resgatadas com vida, e lembrou que os técnicos da Funasa realizavam a missão de vacinar comunidades indígenas. "Esses brasileiros reforçam em nós o sentimento de gratidão aos milhares de irmãos, civis e militares, que dedicam suas vidas ao apoio das populações carentes nas mais remotas regiões do Brasil. É esse exemplo de desprendimento e doação que devemos guardar como lembrança desse episódio", afirmou.
O presidente da Funasa, Danilo Forte, disse que será realizada missa de Ação de Graças quarta-feira
Piloto da FAB só teve 16 minutos para fazer o pouso forçado em igarapé
'Minha dor só vai passar quando eu vir meu filho', diz mãe de sobrevivente.
Evandro Éboli e Paula Litaiff
O comandante do 7o Comando Aéreo Regional (7o Comar), major-brigadeiro Jorge Cruz de Souza e Mello, informou ontem em Manaus que o piloto do monomotor Caravan teve apenas 16 minutos do momento que o avião apresentou problemas até o pouso forçado, em um igarapé do Rio Ituí, no município de Atalaia do Norte, no Amazonas. O comandante disse que ainda não são conhecidas as causas do acidente.
Segundo o Comando da Aeronáutica, a tripulação do monomotor Caravan é extremamente experiente. A experiência do piloto Carlos Wagner Veiga contribuiu muito para o sucesso do pouso de emergência e para que todos os passageiros saíssem em segurança.
O trabalho na região amazônica dos técnicos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) que se tornaram vítimas do acidente envolve riscos e dificuldades. Para chegar a algumas localidades no meio da floresta e promover campanhas de vacinação em aldeias indígenas, eles viajam até dez dias de barco, dependendo do lugar. A fundação criou distritos de saúde indígena e as equipes são deslocadas na região até de voadeira, pequenos barcos movidos a motor de popa.
TV Brasil fez reportagem com os técnicos da Funasa
Há dois meses, a TV Brasil levou ao ar uma reportagem sobre o trabalho dos agentes da Funasa e, coincidentemente, entrevistou três servidores do órgão que estavam no avião Caravan da FAB que sobreviveram ao pouso forçado. No programa, Marcelo Nápoles de Melo, Diana Rodrigues Soares e Marina de Almeida Lima relatam o trabalho que fazem na região.
- As dificuldades são grandes, mas é o nosso trabalho.
Para chegarmos a alguns lugares, viajamos dias de barco, com mochilas nas costas - disse Diana à TV Brasil.
A Funasa presta todo serviço de saúde aos índios. Há alguns anos, o atendimento era feito pela própria Fundação Nacional do Índio (Funai), que não dava conta desse trabalho. A atenção ao indígena envolve ações nas áreas de saúde da mulher e da criança, saúde bucal, controle da malária, saúde mental, assistência farmacêutica, acidentes com animais peçonhentos e medicina tradicional.
A população indígena é distribuída em 24 estados e em 432 municípios. São 4.413 aldeias distribuídas em 615 terras. A população indígena é de 538.154, dados de 2008.
Os nove servidores da fundação possuem entre 12 e 20 anos de tempo de serviço e, todo mês, passam pelo menos 15 dias em campo, fazendo atendimento nas aldeias indígenas do Amazonas. Todos são casados e têm filhos. Nesse último acidente, os servidores participavam da Operação Gota, que leva vacinação às comunidades indígenas da Amazônia.
Em entrevista ao site G1, dona Marly Nápoles de Melo, mãe de um dos sobreviventes, disse que não dorme desde que soube do acidente, anteontem, e que só vai descansar quando estiver com o filho. Ela é mãe de Marcelo Nápoles de Melo e sogra de Diana Rodrigues Soares, que também estava na aeronave.
- Minha dor só vai passar quando eu vir meu filho. A noite foi péssima. Não dormi e não vou dormir - disse ela.
Segundo dona Marly, Marcelo é o coordenador da campanha de vacinação da Funasa e faz esse voo regularmente. Ela cuida das três filhas do casal, de dez, cinco e três anos.
- As pequenas não entendem o que aconteceu. A mais velha está em estado de choque, não come desde ontem.
O Globo, 31/10/2009, O País, p. 3-4
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