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Índio matou por diamante

O Globo, O País, p. 3
23 de abr de 2004

Índio matou por diamante

Jailton de Carvalho. Enviado especial. Porto Velho

O cacique Pio Cinta-Larga e o chefe de um grupo de guerreiros cintas-largas, Daniel Cinta-Larga, reconheceram ontem que os índios comandados por eles massacraram 29 garimpeiros no início do mês na reserva Roosevelt. Numa entrevista na entrada da reserva, Pio pediu também que, para evitar outras tragédias, o governo assegure a exclusividade do garimpo - especialmente diamante - em terras indígenas aos índios.

Segundo o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Jorge Félix, o governo está prestes a regulamentar a extração de minério em áreas restritas, como reservas indígenas.

Pio e Daniel chegaram ao portão de entrada da reserva para conversar com os jornalistas em duas caminhonetes Mitsubishi, uma branca e outra preta. Mesmo antes de ser perguntado especificamente sobre o assunto, Daniel se antecipou e reconheceu o envolvimento dos cintas-largas no massacre dos garimpeiros no dia 7 deste mês. Segundo ele, a matança aconteceu porque, mesmo depois de serem expulsos várias vezes, os garimpeiros retornavam à reserva em busca de diamantes.

- Os guerreiros já estavam cansados. Nós tirávamos os garimpeiros e eles voltavam. Tirávamos e eles voltavam. Aí aconteceu a morte dos 29 garimpeiros - disse Daniel.

Cacique é acusado de extração ilegal

O cacique Pio ratificou as declarações do chefe dos guerreiros. Para ele, era inaceitável que os garimpeiros continuassem invadindo a reserva como vinham fazendo há mais de quatro anos.

- Foi um aviso. Guerreiro está cansado de tirar o pessoal, e o pessoal entra na área sabendo que é proibido entrar - afirmou.

Os dois índios eximiram a Fundação Nacional do Índio (Funai) de qualquer responsabilidade no episódio. Servidores da fundação foram acusados por garimpeiros e até pelo governador do estado, Ivo Cassol, de participação indireta no massacre. Um dos acusados, Walter Blós, teve que ser retirado da região sigilosamente pela Polícia Federal. Blós é considerado pela PF um dos mais zelosos servidores da Funai no estado.

- A Funai não tem nada a ver com isso (o massacre dos garimpeiros) - disse Daniel.

Pio e Daniel deverão ser dois dos primeiros índios a serem ouvidos no inquérito aberto pela Polícia Federal para investigar a chacina. Pio já teve pedido de prisão decretada duas vezes em dois processos que responde na Justiça Federal. Ele é acusado de formação de quadrilha e extração ilegal de diamante. A PF aponta Pio como um dos integrantes da organização do empresário Marcos Glicka. Um dos donos da Miratur, em São Paulo, Glicka foi preso no fim do ano passado depois de ser identificado como um dos maiores contrabandistas do diamante produzido na reserva de Roosevelt.

Venda de diamantes dentro da reserva

Com Pio e Glicka foram denunciadas mais 18 pessoas, entre elas um delegado da Polícia Civil, um agente da Polícia Federal e José Nazareno Torres, funcionário da Funai na região. Segundo as investigações da Delegacia de Combate ao Crime Organizado da PF, Glicka comprava os diamantes diretamente de Pio dentro da reserva. Os diamantes eram transportados em aviões, que pousavam numa das três pistas da Roosevelt. As pedras mais valiosas eram levadas para São Paulo e, em seguida, remetidas ao exterior.

Pio e vários outros caciques cintas-largas têm fama de gastar dinheiro com facilidade. Pio apareceu na entrevista com uma caminhonete de luxo e vestido com uma camisa Lacoste, uma das marcas mais caras no mercado de roupas masculinas.

- Os índios ganham muito dinheiro, mas também gastam muito. Alguns são até explorados por comerciantes, que costumam aumentar os preços quando os clientes são índios - disse o superintendente da PF, Marco Moura.

Até o momento, já foram identificados os restos mortais de dez garimpeiros. Os outros poderão ser enterrados sem a identificação. Segundo o Instituto Médico-Legal de Porto Velho o levantamento da identidade dos demais garimpeiros só será possível com exames de DNA. Isso vai levar, conforme o médico legista Claudio de Paula, pelo menos mais dois meses. Um grupo de parentes pretende levar os corpos para Espigão do Oeste. O sindicato dos garimpeiros quer promover um velório coletivo na praça principal da cidade.

Ontem, a direção da Funai respondeu às críticas do bispo de Ji-Paraná, Dom Antonio Possamai, que na véspera acusou o órgão de permitir o uso de sua pista de pouso na reserva Roosevelt por contrabandistas de diamantes. Em nota, a Funai disse que respeita o trabalho da Igreja em defesa dos índios, mas que é "preciso que a Igreja reconheça também o trabalho que a Funai vem fazendo pela manutenção da identidade dos povos indígenas". O texto preparado pelo presidente da Funai, Mércio Pereira, para rebater declarações de representantes da Igreja em Rondônia, diz ainda que a instituição sempre lutou pela retirada de garimpeiros, mas quando "a ganância e a cobiça em torno das reservas tornam impossível a preservação das terras indígenas isso resulta em tragédia".

Segundo Mércio, "a busca por bodes expiatórios não condiz com a profundidade da tragédia", e a Funai está buscando soluções com o estado e a sociedade para evitar novos conflitos.

Uma história de conflitos

As primeiras informações precisas sobre os cintas-largas surgiram no século XX. O nome, que designa diferentes grupos, deve-se à cinta feita de entrecasca de árvore usada na cintura. De acordo com a "Enciclopédia dos Povos Indígenas" do Instituto Socioambiental, com base na obra de João Dal Poz e contribuições da antropóloga Carmen Junqueira, ao longo do século passado diversos incidentes marcaram a história desse povo. O primeiro registro é de 1928, quando houve um massacre comandado por seringueiros. Os conflitos com os seringueiros prolongaram-se pela década de 50. A situação se agravou com a inauguração da rodovia BR-364 (Cuiabá-Porto Velho), em 1960.

Antes do contato com os brancos e da descoberta das riquezas que suas terras escondiam, esse grupo Tupi tinha na caça e nas festas suas principais atividades.

"Entre os inúmeros assaltos às aldeias cintas-largas - havendo registros de expedições em 1958, 1959, 1960 e 1962 - um desses crimes ganhou ampla repercussão, inclusive na imprensa internacional: o chamado 'Massacre do paralelo 11' (1963), gerando denúncias sobre a prática de genocídio de índios no Brasil, pois um dos participantes, Atayde Pereira dos Santos, não tendo recebido o pagamento prometido, compareceu à sede da inspetoria do Serviço de Proteção ao Índio em Cuiabá para denunciar o caso e apontar seus mandantes", registra a enciclopédia.

Na década de 60, centenas de garimpeiros dirigiram-se às terras dos cintas-largas, atrás de diamantes, ouro e cassiterita, e os conflitos continuaram. A pacificação aconteceu em janeiro de 1974, por iniciativa dos índios. Eles foram à sede do Projeto Aripuanã, núcleo pioneiro da Universidade Federal de Mato Grosso, em busca de ferramentas.

Em 1969, os cintas-largas eram cerca de dois mil. Em 1981, estimava-se restarem 500. A população voltou a crescer e, hoje, estima-se que seja de 1.300 índios.

O Globo, 23/04/2004, O País, p. 3

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