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Índio comunista

Página 20-Rio Branco-AC
Autor: Flaviano Schneider
16 de set de 2001

Poyanawa Joel Silveira toma posse na Câmara de Vereadores de Mâncio Lima

Pela primeira vez na história o município de Mâncio Lima, o mais ocidental do Brasil, tem agora um vereador índio: trata-se do cacique Poyanawa, Joel Silveira Lima (PC do B), empossado no último dia 12, em sessão normal da Câmara de Vereadores.
Como foi observado pelos vereadores que subiram à tribuna para homenagear o novo companheiro, nunca antes a Câmara de Vereadores de Mâncio Lima tivera um tão grande número de visitantes a uma sessão. Grande parte deles era de índios Poyanawa que saíram de suas aldeias no Barão e no Ipiranga, cerca de 15 kms de Mâncio Lima, para prestigiar a posse de seu representante.
Joel Poyanawa era o primeiro suplente da coligação PT/PCdoB e entrou no lugar do vereador José Raimundo (PT) que foi nomeado diretor-geral do hospital local. Na eleição do ano passado, Joel Poyanawa havia empatado em número de votos com a companheira de partido Maria Isete, que acabou assumindo por ser mais idosa.
Em seu pronunciamento de saudação ao novo companheiro, Maria Isete lembrou que logo após a eleição havia feito um pacto com Joel e o povo Poyanawa, que, em virtude do empate, o mandato seria dividido entre os dois, mas, as coisas foram simplificadas com a ida do companheiro José Raimundo para a direção do hospital.
É interessante destacar que Joel recebeu a quase totalidade dos votos dos eleitores Poyanawa, mas perdeu alguns devido às dificuldades que alguns índios tiveram ante as máquinas eletrônicas de votação, utilizadas no último pleito.
Perseguições - A sessão de posse do novo vereador foi longa, tendo começado às 9 horas estendeu-se para além do meio-dia. Os vereadores, entusiasmados com a presença de tanta gente a ouvi-los, aproveitaram para soltar o verbo esticando o grande expediente e possibilitando a alguém menos informado saber o quê, na visão dos nobres edis, está funcionando ou não, tanto no que toca ao Executivo estadual quanto municipal.
No entanto, o depoimento mais importante estava reservado ao empossado do dia. Joel Poyanawa estava muito bem vestido, com um terno cáqui, mas o que lhe concedeu imponência, foi ter se utilizado de sua herança indígena para se apresentar: no pescoço sobressaía um colar artesanal Poyanawa, com sementes da floresta e, sobre a cabeça, a coroa , na verdade, um cocar, feito de penas de aves.
O cacique Poyanawa, em voz forte e totalmente desembaraçado, falou da importância que a data teria na história de seu povo daí prá frente, pois era a primeira vez que o povo demonstrava união suficiente para eleger um representante na política manciolimense. Ele recordou o passado de sofrimento do povo Poyanawa sempre considerados desqualificados e sempre iludidos aos ollhos dos demais cidadãos.
Lembrou que seu povo fora vítima, no passado, do massacre dos coronéis que nunca se interessaram em melhorar as condições de vida na terra Poyanawa. Mesmo assim, iludidos por outros políticos, nunca os membros de seu povo tinham conseguido eleger um vereador embora já tivessem apresentado candidato em outras duas oportunidades.
Joel Poyanawa destacou ainda que agora, como vereador mancio limense, ele sente aumentarem suas responsabilidades, que acabam ultrapasssando os limites de sua terra indígena, pois, buscará defender os interesses de população de um modo geral e também para contribuir em dignificar a função política. Segundo ele, pelo trabalho vai provar que nem todo político é mentiroso, como muitos acham. Sua política, concluiu será a de portões abertos.
O pai vibrou - No público, um índio se emocionou durante a sessão e nã se intimidou em demonstrar toda sua alegria: era o pai de Joel, Mario Poyanawa, o velho cacique que viu concretizar no filho, sua antiga aspiração de que os Poyanawa tivessem um representante na Câmara de Vereadores.
Mário contou que ele fora o cacique Poyanawa por vários anos e neste tempo foi candidato duas vezes à câmara não obtendo resultado positivo devido à falta de objetivosdefinidos entre os membros. Há dois anos passou o comando do povo ao filho Joel, que acabou elegendo-se também presidente da Associação Poyanawa.
Hoje, tudo bem. - A história dos índios Poyanawa está intimamente ligada à história da colonização do Juruá e especialmente do município de Mâncio Lima, situada a cerca de 40 kms de Cruzeiro do Sul.
Hoje eles tem sua terra indígena ja devidamente demarcada e em suas duas aldeias habitam cerca de 300 pessoas. Em cada aldeia há uma escola estadual, com professores indígenas. Saus tradições estão bem preservadas, apesar da forte miscigenação.
Os índios Poyanawa sobrevivem da agricultura embora existam vários deles inseridos em outros segmentos na economia regional do Juruá. Sua associação comunitária é bem organizada e já tem obtido até financiamentos mas estão exigindo urgente investimento no ramal que dá acesso às aldeias. O ramal não está bem conservado e, durante os dias de chuva, praticamente impedem o deslocamento para a sede municipal.

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