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Indígenas querem saber o que é mercado de carbono

Valor Econômico, Brasil, p. A3
12 de set de 2008

Indígenas querem saber o que é mercado de carbono
"Estamos sentindo as mudanças do clima. Temos que pensar nisso juntos", pedem os índios

Daniela Chiaretti escreve para o "Valor Econômico"

Marauê Kaiabi levantou-se, foi até a lousa toda desenhada, ajustou o cocar e disse: "O que é essa coisa que vocês chamam de carbono? É poeira? É o que nós chamamos de fumaça?".

Era o fim de uma breve "aula" sobre o tema, dada pelo pesquisador André Villas-Boas, do Instituto Sócio Ambiental (ISA), ontem de manhã, a lideranças dos Xavante, Panarás, Kaiabi, Yudja, Bakairi, Kisêdjê e Umutina, alguns dos 42 povos indígenas que vivem no Mato Grosso.

Depois, em plenário, Winti Kisêdjê pedia em bom português: "Precisamos que vocês, ONGs, expliquem lá nas comunidades o que é isso de mercado de carbono. Estamos sentindo as mudanças do clima. Temos que pensar nisso juntos."

Ontem foi o dia dos índios em Cuiabá, no encerramento do seminário "As mudanças no clima e a Agricultura de Mato Grosso: impactos e oportunidades", promovido pelas organizações não-governamentais ISA e Instituto Centro de Vida (ICV) e pelo governo do Estado.

Em sua apresentação, reuniram todas as mudanças que observam na natureza: os rios têm menos peixes e são mais rasos, antes só havia ventos fortes no inverno, o fogo se espalha com facilidade e ultrapassa os aceiros, tem muita fumaça no ar.

Os Kaiabi dizem que "as matas ciliares de branco são fininhas" e no relato de Yaya lia-se que "a terra do Mato Grosso está ficando careca". Os kisêdjê lembravam que "as frutas também estão mudando a sua forma de dar". Winti, traduzindo o pai, Toni, arrematou: "Agora precisa ver se vocês acreditam no nosso pensamento indígena ou se só no de vocês."

Entre suas sugestões, pediram um horto florestal para replantar as matas na beira do rio, o apoio do Estado para facilitar com a burocracia quando quiserem apresentar projetos e até suporte na apicultura.

As sugestões do grupo de agricultura familiar também passavam por esclarecimentos sobre créditos de carbono e o Redd, sigla que identifica Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação, sistema que permitirá que os países industrializados (os maiores emissores de gases estufa) contribuam com recursos para os países tropicais não desmatarem suas florestas. "Eu estou lá em casa plantando porque sei que o planeta precisa, independente de créditos de carbono, que a gente também não sabe bem como funcionam", disse Inácio Marmet, um dos líderes dos agricultores familiares de Água Boa.

O grupo da pecuária pediu que as políticas públicas incentivem mais pesquisas para que a produção possa ser ambientalmente sustentável. "Pouca gente no meio pecuário discute emissão de metano. Como vamos reduzir se não temos este tipo de informação?", perguntou o engenheiro-agrônomo Marcos Rocha, consultor de pecuária no Estado, referindo-se às emissões do gás estufa pelo rebanho. Este grupo cunhou o nome "bioboi" , pensando em programas mais sustentáveis de produção.

A resposta do governo veio à tarde. O secretário do Meio Ambiente, Luís Henrique Daldegan, assinou um protocolo com as ONGs mais atuantes no Estado (ISA, ICV, IPAM e TNC) para criar um Fórum de Mudanças Climáticas ("em 60 dias teremos o Fórum implantado", disse ao Valor) e fazer com que seu primeiro trabalho seja produzir uma política de mudanças climáticas para o Mato Grosso.

A jornalista viajou a convite do ISA, ICV e governo do Estado do Mato Grosso

Valor Econômico, 12-14/09/2008, Brasil, p. A3

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