A Crítica - http://acritica.uol.com.br
Autor: Victor Affonso
30 de Ago de 2013
Ocupantes do terreno à beira da AM-070 foram até o começo da Ponte Rio Negro à pé pela manhã desta sexta (30) em manifestação contra liminar que ordena retirada em 72 horas. Prefeitura de Iranduba promete cumprir decisão a qualquer custo.
Na tarde desta sexta-feira (30), o prefeito de Iranduba Xinaik Medeiros, acompanhado pelo procurador-geral do munícipio Lincoln Tavares e de mais cinco vereadores da Câmara Municipal de Iranduba, reafirmou a perserverança do município em desapropriar a área invadida há cerca de dois meses por indígenas e brancos a qualquer custo. Eles irão esperar esgotar o prazo de 72 horas, como consta na liminar judicial expedida também nesta sexta-feira, para só então entrarem com uma operação de desapropriação, com o apoio do Batalhão de Choque da Polícia Militar. "Não vamos abrir mão da retomada", afirma Xinaik.
Se até 18h de segunda-feira (2) os invasores não sairem, as autoridades de Iranduba irão se reunir com o Gabinete de Gestão Integrada e a Polícia Militar para fazer o planejamento de como será essa desocupação definitiva. "Iranduba tem o interesse e o dever de agir, por este fato estar acontecendo dentro da área do município", explica o Prefeito. "Iremos disponibilizar agentes de saúde para acompanhar a operação, até porque não queremos confronto, mas se houver resistência não vamos medir esforços para fazer valer a lei", acrescenta Lincoln Tavares.
De acordo com o procurador-geral, a maior parte do terreno pertence hoje à Igreja Assembleia de Deus do Amazonas e apenas uma parte à União. A degradação do meio-ambiente no local é a maior preocupação das autoridades. "Estamos fazendo valer a lei, protegendo o meio-ambiente. Há indícios de crimes ambientais muito grandes e o Ministério Público Estadual já até abriu inquérito para apurar essas denúncias", comenta.
"Esta reintegração de posse pode ser feita de maneira pacífica, mas só se eles colaborarem. Mas os invasores que nem de Iranduba são, que estão apenas se aproveitando da ocasião, esses sim iremos combater implacavelmente. Não vamos ter diálogo com esse tipo de pessoa", completa Lincoln.
Há uma conversa aberta com Assembléia de Deus para uma possível desapropriação para a construção de 480 casas populares, com recursos dos Programa de Aceleração de Crescimento e da "Minha Casa, Minha Vida", com o intuito de impedir futuras ocupações como essa, mas ainda não tem nada selado oficialmente. Enquanto isso, o município tem cada dia mais problemas de expansão urbana vindo da direção de Manaus, devido principalmente ao efeito "pós-Ponte".
Protesto
A liminar judicial expedida nesta sexta-feira (30), que ordena a retirada em até 72 horas dos indígenas e brancos que ocupam uma área de 400 à beira da rodovia Manoel Urbano (AM-070, que liga Manaus aos municípios de Iranduba e Manacapuru), levou cerca de 2,5 mil pessoas da invasão ao início da Ponte Rio Negro, onde protestaram contra a retirada das mais de 6 mil famílias que atualmente vivem no local.
Um grande contingente da Polícia Militar, tanto de Manaus quanto de Iranduba, se deslocou para controlar a situação. De acordo com o tenente Alexandre Matos, subcomandante da 8a Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) e à frente da operação, o plano dos ocupantes era interditar a única via de entrada por terra ao outro lado do rio, na entrada da ponte pelo município de Cacau Pirera, em protesto à decisão da Justiça.
"Negociamos com eles e pedimos para deixarem uma via livre, para o fluxo (de carros) passar. Depois, conseguimos negociar novamente o retorno deles até a área ocupada", conta o tenente, que disponibilizou escolta policial à maioria indígena que realizou o trajeto de ida e volta à pé. "Eles querem visibilidade, quando a imprensa chegou eles se acalmaram", completa o oficial.
Ainda segundo Matos, o terreno que deve ser devolvido pertence a uma igreja evangélica, mas o cacique Augusto Miranha, presidente do Movimento Indígena Por Uma Vida Melhor e uma das várias lideranças da ocupação, discorda. Miranha afirma que toda a área ocupada pertencia à uma única pessoa, a quem ele se referiu como "Seu Jânio", que já faleceu e quem teria vendido o terreno à Assembleia de Deus.
"Nosso objetivo não é atrapalhar a sociedade nem desrespeitar a polícia ou o meio-ambiente. O índio só está ocupando o que é seu por direito, nenhuma das 15 pessoas que apareceram aqui dizendo ser proprietárias tinham um título de terra definitivo", diz o indígena, que promete permanecer no local com as outras 40 mil pessoas, aproximadamente, até ter um diálogo com o Prefeito de Iranduba. "Uma vez que é da União, não tem dono; o índio pode se apossar".
Entrando na ocupação
Foi permitido o acesso da imprensa na área, desde que acompanhada por um grupo de "guerreiros" - como são chamados os homens que fazem a proteção do local 24 horas por dia armados com lanças e arco e flechas, divididos em cerca de 100 pessoas por turno. Os indígenas mostraram o que eles disseram ser prova de degradação ambiental antes da chegada dos ocupantes, como desníveis causados supostamente por escavações e grandes areais.
No terreno, além de uma infinidade de barracos de madeira e lona, encontram-se vários mercadinhos, onde o bem mais valioso aparenta ser o gelo, pois é o item mais anunciado. Mas existem também outras "lojas", como a R.C. Ferragem, que vende luvas, lonas, pregos, martelos e terçados. A comparação com o nascimento de um bairro é inevitável, ainda mais com o tráfego constante de carros e motocicletas. "São as coisas que precisamos para sobreviver, mas tudo é organizado e todos se dão bem", garante Ismael Mura, um dos "guerreiros" que acompanhou o grupo de jornalistas.
"Quem desmatou aqui foi o Governo, que tirou areia para aterrar na entrada e saída da Ponte (Rio Negro), e as olarias, que derrubaram árvores pela madeira. Nós não seriamos capazes de abrir tudo isso em dois meses", acusa Ismael. "Eles não querem preservar a natureza, querem é o areal de volta", finaliza.
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