O Globo - oglobo.globo.com
Autor: Sérgio Quintela
21 de Fev de 2026
Um grupo de indígenas invadiu, na madrugada deste sábado (21), o terminal da multinacional Cargill no porto de Santarém (PA). A ação ocorre após 31 dias de protestos no Baixo Tapajós, região do oeste paraense em que se concentra a atividade portuária local.
A decisão, de acordo com os indígenas - são cerca de 2 mil que protestam há um mês -, foi tomada por falta de resposta do governo Lula em relação ao pedido de revogação de um decreto presidencial, de agosto do ano passado, que incluiu trechos de rios amazônicos, como o Tapajós, no Programa Nacional de Desestatização.
Em nota, a Cargill diz que assim que o protesto mais recente se iniciou, a companhia acionou um plano de emergência. "A Cargill confirma que na noite de ontem, 20 de fevereiro, duas ações violentas promovidas por manifestantes atingiram os ativos da empresa. No escritório central da empresa, em São Paulo (SP), um grupo de pessoas vandalizou a fachada do edifício. Horas depois, o terminal portuário de Santarém (PA), que há 30 dias tinha sua portaria de caminhões bloqueada por grupos indígenas, foi invadido pelos manifestantes.
Segundo a empresa, funcionários que estavam no local, diante da ameaça, procuraram abrigo em local fechado até que pudessem ser evacuados de forma segura. O terminal segue ocupado e "com fortes indícios de vandalismo e depredação dos ativos", diz trecho da nota.
Além dos protestos recentes, a empresa afirma que vem sendo amplamente impactada. "Desde o início das ações, a Cargill vem reiterando seu respeito direto à manifestação e a despeito de não ingerência sobre a pauta apresentada, no entanto, segue tendo suas operações impactadas e, nesse momento, integralmente interrompidas. A companhia, que já tem ordem judicial para a desocupação, segue em contato com as autoridades para que as providências para desocupação sejam tomadas de forma ordeira e segura", conclui a companhia.
Conforme mostrou o GLOBO neste sábado, na última quinta-feira, durante ato fluvial, indígenas interceptaram uma balsa de grãos que integra a cadeia logística de escoamento de soja pelo Arco Norte e estava atracada no porto da Cargill. Parte do grupo, que se dividiu em quatro barcos, pulou nas águas do Rio Tapajós e foi nadando até a embarcação da empresa. Acionadas, a Polícia Federal e a Marinha acompanharam a mobilização.
A escalada da tensão no oeste do Pará, além de abrir uma crise entre o Planalto e os indígenas, opõe a gestão petista a parte de sua base aliada e pressiona o Planalto na relação com o agro, alvo dos protestos que vêm ocorrendo no estado.
"Nossa decisão não foi impulsiva nem violenta. Foi construída coletivamente, a partir da escuta dos mais velhos, de análises jurídicas e políticas e da indignação diante do Decreto no 12.600, assinado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (...). Estamos aqui porque defendemos o direito de existir. Durante trinta dias aguardamos posicionamento oficial do Governo Federal", diz trecho da carta aberta do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, responsável pela coordenação dos protestos.
O grupo alega que pediu uma conversa com o Palácio do Planalto, a Casa Civil e o Ministério dos Transportes, para falar do decreto e seus impactos, mas que até o momento não houve resposta. Ao mesmo tempo, os manifestantes são alvos de ações judiciais de reintegração de posse. Na manhã de sexta (20), eles receberam uma notificação entregue por um oficial de Justiça determinando a desocupação das áreas tomadas.
O governo federal afirma, em nota, que o decreto "não autoriza obras nem privatiza a Hidrovia do Rio Tapajós (...) O normativo trata exclusivamente da realização de estudos técnicos sobre uma possível concessão dos serviços de navegabilidade". A nota menciona ainda que, "como gesto de diálogo" e em "demonstração da disposição em buscar soluções negociadas com os povos indígenas", foram adotadas medidas como a suspensão do pregão eletrônico que trataria do Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (PADMA), outro pleito dos manifestantes, e a criação de um Grupo de Trabalho Interministerial, com participação de "representantes indicados pelos povos indígenas" locais.
Também em nota, a Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP) afirma que os atos ocorridos em Santarém e São Paulo são inaceitáveis:
"A Associação Brasileira dos Terminais Portuários repudia com veemência os atos de violência ocorridos nas últimas 24 horas que resultaram na invasão, depredação e ocupação irregular do Terminal Portuário de Santarém (PA). Atos semelhantes também ocorreram contra trabalhadores e equipamentos em São Paulo (SP) no escritório central da Cargill, nossa associada. Os episódios configuram ações inaceitáveis e incompatíveis com qualquer forma legítima de reivindicação. Ademais, as reivindicações dizem respeito a matérias de competência exclusiva do Poder Público. Portanto, direcionar atos de violência contra uma empresa privada que não possui ingerência sobre a pauta apresentada é improdutivo e desvirtua o legítimo espaço democrático de diálogo, além de enfraquecer o processo institucional adequado para tratar tais temas. Diante da gravidade dos fatos e da continuidade da invasão a propriedades privadas, a Associação dos Terminais Portuários manifesta sua solidariedade e apoio institucional à Cargill. Pedimos às autoridades competentes a adoção imediata de medidas para proteger os trabalhadores e restabelecer a posse e o funcionamento seguro do Terminal de Santarém"
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