CB, Mundo, p. 40
16 de Out de 2008
Indígenas enfrentam policiais e soldados
Silvio Queiroz
Da equipe do Correio
Milhares de indígenas enfrentaram ontem pelo segundo dia tropas da polícia e do Exército no sudoeste da Colômbia, e prometiam prosseguir com as manifestações até que o presidente Álvaro Uribe se desloque para a região e discuta suas reivindicações - basicamente, a investigação sobre a morte de 13 indígenas em incidentes com as forças de segurança e o cumprimento de acordos sobre a posse de glebas de terra em disputa com empresas agropecuárias. A Associação de Cabildos Indígenas do Norte do Cauca (Acin) afirma que três manifestantes foram mortos e mais de 70 ficaram feridos, e acusa os militares de "abrir fogo indiscriminadamente contra gente desarmada" para liberar o tráfego pela Rodovia Panamericana, que fora bloqueada na terça-feira.
"Vamos todos para a estrada para que nos matem, se o governo se recusa a nos atender", disse à imprensa colombiana Berito Cobaría, veterano dirigente da Organização Nacional Indígena da Colômbia. Foi ele quem afirmou que o protesto será mantido até que Uribe se reúna com os indígenas. Em resposta, a vice-ministra do Interior, María Isabel Nieto, insistiu em que não haverá diálogo enquanto as rodovias não sejam desbloqueadas, "porque não vamos permitir que se tomem medidas de força".
A situação era mais tensa em Candelaria, cidade vizinha a Cali, colocada virtualmente sob toque de recolher. O foco principal dos conflitos se estende dessa área, no limite entre os departamentos de Cauca e Vale do Cauca, até Piendamó, cerca de 200km ao sul, onde cerca de 12 mil indígenas se mantinham em vigília na reserva de La María. Falando por telefone ao Correio do epicentro dos confrontos, a porta-voz da Acin,Vilma Almendra, acusou as tropas de invadir o território indígena e "metralhar a multidão que tinha apenas pedras e bastões para se defender". Entre os militares, segundo a militante, estariam "pistoleiros à paisana".
Protestos, marchas, bloqueios de estradas e outras manifestações se estenderam ontem pela região cafeeira do centro do país e até mesmo à costa do Caribe, no extremo norte, onde estudantes de origem indígena ocuparam instalações da Universidade do Atlântico. No Cauca e Vale do Cauca, regiões onde nas últimas semanas se registraram combates intensos entre o Exército e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), as manifestações ganharam reforço de cortadores de cana - muitos deles também indígenas - que ontem completaram um mês em greve. O general Orlando Páez, diretor de Segurança Cidadã da Polícia Nacional, denunciou infiltração das Farc no movimento indígena, acusação feita também aos canavieiros pelo próprio presidente Álvaro Uribe.
Guerrilha
"Isso não é novo, já virou um costume: dizem que estamos a serviço das Farc desde 2004, cada vez que nos mobilizamos, como pretexto para nos matarem e torturarem, por sermos 'guerrilheiros'", rebateu Vilma Almendro. "Não somos amigos nem das Farc, nem dos paramilitares (esquadrões paraestatais que combatem a guerrilha), nem do Exército, porque todos nos matam." A porta-voz da Acin apontou o mesmo padrão nas acusações feitas "a qualquer movimento social que desafie esse governo": "Os 18 mil canavieiros em greve são das Farc, os estudantes quando protestam contra a privatização das universidades são das Farc. Dizem que nos obrigam pela força a protestar. Pois a força que nos obriga a lutar é a fome".
O Pólo Democrático, núcleo da esquerda civil colombiana e uma das principais forças de oposição a Uribe, relacionou a repressão aos indígenas ao estado de comoção decretado dias atrás pelo presidente para enfrentar outra crise trabalhista - a paralisação dos funcionários da Justiça. "Ficou claro que essa medida estava orientada para (o objetivo de) tratar militarmente a mobilização indígena e a greve dos canavieiros", diz nota divulgada ontem pela direção regional do partido no Cauca. Reservadamente, um dirigente da esquerda colombiana classificou como "um tiro no pé" a associação feita por Uribe entre os movimentos sociais e a guerrilha. "Se isso é falso, como acreditamos, apenas confirma que esse governo criminaliza o protesto social. Se for verdade, contradiz todo o discurso oficial sobre a marginalidade política das Farc e na prática atribui a elas uma base social real."
Exército perde helicóptero
Não mais de 100km a leste da área onde indígenas enfrentavam as forças de segurança, um helicóptero a serviço do Exército caiu durante "operações táticas" contra as Farc, causando a morte do comandante da 8ª Brigada Móvel, de um soldado, do piloto e de um auxiliar, ambos civis. Os militares não descartavam a possibilidade de o aparelho ter sido abatido pela guerrilha. Em nota oficial, o Exército lamentou a perda do coronel Jorge Salazar, que coordenava o cerco ao comandante máximo das Farc, Alfonso Cano, no sul do departamento de Tolima. Planadas, a cidade onde ocorreu a queda, é um dos quartéis-generais dos 6 mil homens que tenta capturar ou matar Cano, que assumiu a chefia da guerrilha há seis meses, após a morte do líder histórico e fundador, Manuel Marulanda. No mesmo período, as Farc perderam dois integrantes de seu alto comando - um morto em bombardeio no Equador, o outro executado pelo próprio guarda-costas.
CB, 16/10/2008, Mundo, p. 40
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.