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Autor: Walace Gomes, g1 AC — Rio Branco
28 de Abr de 2026
Indígenas denunciam falta de assistência médica em aldeias do AC
Moradores da Aldeia Boa Floresta, do povo Jaminawa, localizada na terra indígena Cabeceira do Rio Acre, em Assis Brasil, no interior do estado, denunciam a precariedade no acesso à saúde e relatam mortes associadas à falta de atendimento médico. No território vivem mais de 370 indígenas.
Segundo o cacique Santos Raimundo Batista Jaminawa, é preciso viajar até 5h de barco para conseguir atendimento em Assis Brasil, devido à falta de equipes em locais mais próximos às aldeias.
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"O Estado não dá nada. Nem remédio, nem atendimento. Até quando a equipe vem por aqui, é raro, está de jeito que se alguém adoecer a gente já começa se preparar para o pior", afirma Raimundo Jaminawa.
Conforme o cacique, o deslocamento até o munícipio é feito em embarcações próprias. Durante o período de estiagem, a situação se agrava devido ao nível baixo dos rios, que dificulta a navegação.
"Quando alguém passa mal de madrugada, não tem o que fazer. Já aconteceu de pessoas morrerem porque não conseguiram chegar a tempo, não sabemos mais o que fazer pra nos ouvirem", relata.
Em nota, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) explicou que integra o Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) e participa regularmente de reuniões e do acompanhamento das ações de saúde executadas pelo estado, municípios e União, por meio do Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena (Dsei) Alto Rio Purus. As ações que a fundação participa são executadas pelo Dsei e a Sesei
O Ministério da Saúde negou a desassistência na Aldeia Boa Floresta e afirmou que, em 2025, o Dsei Alto Rio Purus contou com um orçamento de R$ 57,5 milhões. Além disso, destacou que o distrito atua com três equipes do governo federal 'composta por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes de combate a endemias, agentes indígenas de saúde e de saneamento, além de cirurgiões-dentistas'.
Ainda conforme o comunicado, mais 23 novos profissionais vão ser contratados para reforçar a assistência no distrito.
Moradores da aldeia Boa Floresta em Assis Brasil, denunciam a falta de atendimento médico e relatam mortes na região - Foto: Arquivo pessoal
Visitas esporádicas
Segundo Jaminawa, as equipes de saúde indígena visitam as aldeias de forma esporádica, muitas vezes apenas quando há cobrança da comunidade. Não há presença fixa de médicos e atendimento de saúde nas comunidades, o que, segundo ele, aumenta o risco de doenças, infecções e mortes.
"Dizem que tem médico, tem equipe, mas aqui não chega nada. No papel está tudo certo, mas na prática não existe e é isso que queremos mudar, nós temos os nossos direitos e não vamos deixar eles continuarem nos matando", enfatiza.
O cacique também relata a ausência de medicamentos básicos nas aldeias. "Não deixam remédio nenhum para os indígenas. Aqui na aldeia a gente vive só na bênção mesmo", destaca.
Terra indígena Cabeceira do Rio Acre, na região do município de Assis Brasil, no interior do estado - Foto: Reprodução/Terras Indígenas no Brasil/ISA
Casos graves
O cacique afirma que, somente no último ano, ao menos quatro pessoas morreram na região por falta de atendimento adequado. Em 2026, segundo ele, já foram registradas novas mortes, incluindo crianças e idosos.
O líder indígena também relatou um caso envolvendo a própria filha, que enfrentou complicações durante a gravidez. Ela precisou ser transportada de madrugada até Assis Brasil, já em estado grave
Ao chegar na unidade de saúde, segundo ele, houve demora no atendimento e ausência de suporte adequado para o resgate. A jovem precisou ser levada posteriormente para a capital, Rio Branco, onde foi internada em estado crítico e passou por cirurgia.
"Ela quase morreu. Foi uma situação muito difícil. Se tivesse atendimento na aldeia, não precisava passar por isso tudo, eu quase fiquei sem a minha filha", explica.
Diante da situação, lideranças indígenas afirmam que pretendem buscar apoio da imprensa e de órgãos públicos para denunciar a realidade enfrentada nas comunidades.
"A gente foi até Brasília e disseram que está tudo certo. Mas não está. Nossa realidade é outra e é dolorosa pra quem está aqui vendo na prática", avalia.
Nota do Ministério da Saúde na íntegra
Não há desassistência na aldeia Boa Floresta. No ano passado, o DSEI Alto Rio Purus contou com um orçamento de R$ 57,5 milhões, mais do que o dobro destinado em 2022.
O Ministério da Saúde dispõe de três equipes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus, que atuam de forma contínua e coordenada no atendimento de atenção primária à saúde.
Cada equipe é composta por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes de combate a endemias, agentes indígenas de saúde e de saneamento, além de cirurgiões-dentistas. Elas fazem visitas periódicas às aldeias e, quando necessário, efetuam a remoção de pacientes.
Mais 23 novos profissionais estão sendo contratados para reforçar a assistência no distrito.
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https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2026/04/28/indigenas-denunciam-fal…
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