GM, Fim de Semana, p.4
19 de Mar de 2004
Independente do marketing
A fundação de institutos culturais tem se tornado uma vertente cada vez mais comum entre grandes empresas em atuação no Brasil. A Telemar, única operadora de telefonia com capital 100% brasileiro, também fundou seu instituto em dezembro de 2001, só que com uma missão ampliada. Todos os projetos patrocinados, além de estarem ligados à arte, devem necessariamente ter cunho social para conseguirem apoio da empresa. A operadora telefônica investiu R$ 8,3 milhões em 2003 e anunciou para este ano apoio a 53 projetos culturais, com um investimento de R$ 11 milhões. A empresa também está reformando e ampliando o Museu do Telefone, no Rio, que herdou ao comprar a antiga Telerj. A reabertura deverá ocorrer no segundo semestre deste ano e o espaço se chamará Museu das Telecomunicações. Paralelamente à iniciativa de apoiar projetos nas áreas de cinema e vídeo, teatro, música e exposições, a Telemar mantém o "Telemar Educação", que instala laboratórios de informática em municípios brasileiros com menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), e a Kabum!, escola de arte e tecnologia com atuação no Rio de Janeiro, e agora chega ao Recife em parceria com a ONG Auçuba. "Usamos as Leis de Incentivo à Cultura que são recursos públicos, portanto os projetos que apoiamos devem retornar à comunidade em forma de acesso à produção cultural", explica uma das gerentes-executivas do Instituto Telemar, Maria Arlete Gonçalves. Ex-diretora do Museu do Telefone, no Rio de Janeiro, a executiva decide ao lado da também gerente Samara Werner em que projetos serão aplicados os recursos do instituto. Ambas explicam que, ao contrário do que ocorre em boa parte das empresas, em que a verba para ações para o Terceiro Setor estão atreladas ao target de marketing, na Telemar os recursos do instituto são independentes. Segundo Samara, esta posição da Telemar vem desde o começo das atividades do Instituto, antes que o Governo Federal sugerisse, no ano passado, que iniciativas culturais devessem ter preocupações sociais. A própria Kabum! não se limita a uma simples escola de artes voltada para as novas tecnologias. A instituição, gerida no Rio em parceria com a ONG Spectaculu, coordenada pelo cenógrafo Gringo Cardia, atende atualmente a 60 jovens, de 25 comunidades carentes da cidade. "Instalamos a escola na região portuária do Rio porque queríamos que ela ficasse em um local neutro, atendendo jovens das mais diferentes áreas da cidade", diz Maria Arlete. A escola oferece cursos de vídeo, fotografia, design e computação gráfica com duração de um ano e meio. "Nossa intenção é usar altíssima tecnologia para promover uma explosão de talento, daí o nome Kabum!", diz. Tem dado certo. Para ficar em um exemplo, todas as vinhetas de final de ano do canal de TV a cabo Futura foram produzidas pelos alunos da escola. No Recife, a intenção é, além da parceria com a Auçuba, que tem forte atuação na área de audiovisual, associar-se ao "Porto Digital", projeto localizado no Bairro do Recife que dispõe de infra-estrutura de ponta, para instalar a escola, que deverá atender neste semestre a 120 alunos. Ainda em Pernambuco, a Telemar assinou, no último dia 8, uma parceria com o governo do estado para a instalação ao longo de dois anos do "Projeto Telemar Educação" em 365 escolas pernambucanas. Com o acordo, o governo se compromete a dar toda a infra-estrutura e o Instituto Telemar fica responsável pelo desenvolvimento de toda a metodologia do projeto. Com a nova parceria, Pernambuco passa a ser o estado que mais terá escolas beneficiadas pelo programa que visa à redução da exclusão digital em municípios com IDH menor que 0,65. "Não adianta, porém, só instalar os computadores nas escolas", diz Samara. "A idéia é fornecer uma estrutura que dê uma janela para o mundo." Hoje, o "Telemar Educação" está presente em 67 escolas, tendo uma parceria com a Escola do Futuro da USP, que criou uma estratégia pedagógica para a capacitação de professores envolvidos em seu desenvolvimento. Por meio de um site (www.projetotelemareducacao.com.br), os alunos trocam informações sobre como a nova tecnologia tem ajudado no desenvolvimento de sua escola ou da comunidade. Na aldeia indígena de São Gabriel da Cachoeira, localizada a 800 quilômetros de Manaus, onde a internet só é possível devido à presença da energia solar, os alunos realizaram um trabalho de resgate da língua local a fim de preservá-la e o colocaram no portal. "Não dá para medir em anos o salto de desenvolvimento que estas comunidades dão com o projeto", comemoram Samara e Maria Arlete. Para elas, o "Telemar Educação" ainda tem o mérito de apresentar as diferentes realidades dos municípios envolvidos no projeto uns aos outros, por meio da troca de informações feitas no portal. "Os alunos passam de usuários a provedores de informações", observa Samara. Diante dos ambiciosos projetos desenvolvidos no segmento social, a atuação na área artística pode parecer pequena. Mas não é. O Instituto Telemar recebeu mais de 2,3 mil projetos, dos quais selecionou 53 para concorrerem aos recursos destinados à área em 2004. Os principais critérios de seleção utilizados foram a transformação social que o projeto proposto possa acarretar e a democratização do acesso de diferentes camadas da população à agenda cultural. Houve uma equivalência no número de iniciativas apoiadas em cada região. "Apoiamos projetos em estados e municípios que têm leis de incentivo ativas ou fundos de financiamento à cultura", comenta Samara para explicar porque apesar de atuar em 16 estados brasileiros, a Telemar destinou recursos para apenas 7 deles. Mesmo com esta "defasagem", as novas produções culturais terão um impacto grande não só nas localidades em que serão realizadas, mas também na mídia e no meio cultural brasileiro como um todo. Há recursos que fomentarão desde a realização do documentário de Silvio Tendler "O Mundo Visto do Lado de Cá", sobre a vida do geógrafo brasileiro Milton Santos, morto em 2001, até a manutenção da Escola de Artes Técnicas, instituição profissionalizante carioca que forma profissionais nas área de cenografia, figurino e iluminação. Outro projeto que merece atenção especial é o "Cinema no Rio São Francisco" que levará a exibição de filmes brasileiros a 14 cidades ribeirinhas do "Velho Chico", em Minas Gerais. Nenhum dos projetos culturais é mais amplo e duradouro que a reforma e a transformação do Museu do Telefone no Museu das Telecomunicações, no Rio. O antigo Museu do Telefone deverá abrir suas portas no segundo semestre, no mesmo prédio que um dia abrigou a primeira estação telefônica do País. "O telefone hoje transporta não só sons, mas dados e imagens, por isso consideramos que o termo "telefone" está ultrapassado para dar conta da abrangência que deverá ter o novo museu", comenta Maria Arlete. O novo espaço será um centro cultural com galerias de exposição e teatro multiuso. Contará a história da tecnologia das telecomunicações no País e na América Latina. "Estamos buscando parcerias com outras empresas do setor para que elas também ajudem a ampliar o acervo", revela a gerente-executiva. Hoje, além de aparelhos e máquinas dos primórdios da telefonia no Brasil, o museu possui mais de 200 listas telefônicas antigas - uma delas de 1905 - além de mais de 10 mil fotografias, que foram digitalizadas e hoje se encontram à disposição de pesquisadores na sede do Instituto Telemar, no Leblon. Destacam-se no acervo iconográfico fotos dos interiores das estações telefônicas feitas no início do século por Augusto Malta, um dos mais importantes fotógrafos do Rio naquela época. Outra raridade é a coleção de revistas "Sino Azul", lançada pela então Companhia Telefônica Brasileira, em 1928, primeira publicação institucional brasileira. As capas da primeira fase da revista foram desenhadas por cartunistas da importância de J. Carlos e tinham padrão de impressão considerado acima da média para o período em que circularam. A proposta do Instituto Telemar como confessam suas executivas é "bastante abrangente". Aliar tecnologia, educação, acesso da população e cultura foi a maneira que a empresa encontrou para marcar sua atuação no Terceiro Setor. São os efeitos da Aldeia Global influenciando na imagem corporativa da empresa. GM, 19-21/03/2004, p. A4
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