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A inclusão social não se dá pelo consumo

O Globo, Razão Social, p. 4-5
Autor: YOUNG, Ricardo; GRAJEW, Oded
08 de jan de 2007

A inclusão social não se dá pelo consumo

Entrevista: Ricardo Young e Oded Grajew, presidentes do Instituto Ethos

Por Amélia Gonzáles

Quem se preocupa com o futuro do planeta enruga a testa quando ouve falar no espetáculo do crescimento econômico. Ruas cheias de carros significam mais gás carbônico; produtos eletro-eletrônicos vendidos a preço de banana levantam a questão: para onde vai todo esse lixo depois que param de funcionar? Isso, sem falar na quantidade de árvores que caem por terra para fazer móveis, cadernos, livros... Mas existem meios de consumir de maneira a não causar tantos danos. Propagar essa nova cultura é o objetivo de Oded Grajew e Ricardo Young, ambos à frente do Instituto Ethos. Eles são os cabeças do manifesto pelo desenvolvimento sustentável, um texto que pretende ter a adesão de todos os mais de mil empresários associados ao Ethos.

O Globo: O manifesto pelo desenvolvimento sustentável significa que o Ethos está mudando o foco da responsabilidade social?

Oded Grajew: 0 primeiro desafio do Ethos (criado em 1998) era explicar o que é responsabilidade social. Sensibilizamos as empresas, demos instrumentos de gestão e, depois desses oito anos, já estamos maduros em muitas questões. Paramos para pensar de que maneira poderíamos avançar naquilo que já está na nossa cabeça desde o começo.

O Globo: O que está na cabeça do Ethos desde o começo, então, é o desenvolvimento sustentável?

Oded Grajew: E isso. As empresas são meio, não o fim. E um meio muito importante pelo poder que exercem, não só com o capital. Portanto, elas precisam atentar para os alarmes que estão sendo dados sobre o agravamento da questão do meio ambiente. Você viu a pobreza dos debates políticos nacionais? Ninguém falou em desenvolvimento sustentável.

O Globo: O que é desenvolvimento sustentável?

Ricardo Young: É aquele que satisfaz a geração atual sem comprometer as futuras.

O Globo: Não é isso o que estamos vendo hoje...

Ricardo Young: Estamos num modelo que não se sustenta - esgotamento da biodiversidade; exclusão social; fornecimento de água comprometido. O não enfrentamento disso vai levar a humanidade a ter que tomar decisões radicais pelo bem ou pelo mal.

O Globo: De que maneira as empresas entram nisso?

Ricardo Young: Na prevenção e no uso da enorme capacidade de inovação tecnológica e de capital que as companhias têm. E há mercado para essa inovação.

O Globo: Esse mercado surgiu a partir da urgência?

Ricardo Young: Não só da urgência, mas também da escassez. O mercado corrige o gap existente entre a oferta e a demanda. Hoje está acontecendo uma demanda cada vez maior por novas tecnologias em inclusão social. As empresas têm que se mexer nesta direção.

O Globo: O microcrédito promove a inclusão social pelo consumo. Essa é uma forma de desenvolvimento sustentável?

Oded Grajew: Se a camada mais pobre começar a consumir como consomem os ricos, acabou o mundo. Mas há como promover uma mudança de hábitos de consumo. Tem que qualificar as coisas. Uma pessoa educada sem valores é um perigo para a humanidade. E veja: quem está desmatando a Amazônia não são os analfabetos.

Ricardo Young: A inclusão social não se dá pelo consumo, ela se dá através da inserção de um indivíduo como cidadão numa sociedade com possibilidade de acesso a bens e serviços. Para haver desenvolvimento sustentável a base da pirâmide precisa passar por um processo de inclusão consumindo bens e serviços que sejam sustentáveis e isso só é possível com uma alta formação tecnológica.

O Globo: Para haver desenvolvimento sustentável vai ser preciso promover mudança cultural.

Oded Grajew: O tráfego aéreo, por exemplo, é um modelo insustentável, e estamos vendo isso atualmente. Vamos investir em alternativas: transporte ferroviário, videoconferências. Será que tem que viajar sempre?

Ricardo Young: Quanto mais a gente fala nisso, mais as coisas vão ficando óbvias.
Um modelo de sustentabilidade passa por uma rediscussão do agribusiness, da questão fundiária.

O Globo: Quais são os entraves para o desenvolvimento sustentável.

Oded Grajew: Primeiro, o modelo antigo. Essa lógica do crescimento indiscriminado é um entrave. O desconhecimento, por parte da sociedade, dos riscos enormes que estamos correndo. É preciso explicar através de exemplos concretos o que é o desenvolvimento sustentável.

O Globo: O desenvolvimento sustentável embarreira o crescimento econômico?

Ricardo Young: Não, ao contrário. O desenvolvimento sustentável é uma semente de uma revolução. Ao identificar uma forma nova de fazer as coisas, você cria uma oportunidade de negócios extraordinária. Veja o exemplo das garrafas pet: antigamente elas iam para o lixo, entupiam rios e bueiros. Hoje mais de 90% delas viram outra coisa.

O Globo : Por que vocês escolheram este momento para lançar o manifesto?

Oded Grajew: Porque a responsabilidade social já está consolidada. Por isso, progressivamente vamos mostrar mais uma etapa da missão do Ethos. É o momento de avançar no sentido do desenvolvimento sustentável. A pobreza do debate eleitoral acelerou essa necessidade. O manifesto não se esgota por si mesmo: cada expressão do texto foi escolhido metodicamente. Não foi feito por um marqueteiro, não pedimos ao Duda Mendonça para escrever. E é um movimento para duas gerações ou mais.

Leia a íntegra do manifesto no site www.ethos.org.br

O Globo, 08/01/2007, Razão Social, p. 4-5

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