OESP, Negocios, p.B18
31 de Ago de 2005
'Inclusão social é o futuro do capitalismo'
Para o estudioso Stuart Hart, empresas só sobreviverão se olharem para os pobres
Andrea Vialli
Sem incluir os cerca de 4 bilhões de pessoas que vivem com até US$ 1,5 mil por ano, a chamada "base da pirâmide", não haverá futuro para as empresas e para o próprio capitalismo. É necessário que as empresas, em especial as grandes multinacionais, reformulem suas estratégias de negócios, de modo a oferecer produtos e serviços para essa massa excluída. E isso deve ser feito com base em inovação tecnológica, com prioridade para energias limpas, de modo a reduzir o impacto sobre os recursos naturais do planeta.
É o que sustenta Stuart Hart, um dos papas em desenvolvimento sustentável e estratégias de negócios, autor do livro Capitalism at the Crossroads (Capitalismo na Encruzilhada), lançado no final do ano passado e ainda sem tradução no Brasil. Ele veio ao País para a Conferência sobre Oportunidades de Negócios na Base da Pirâmide, promovida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e também falou para executivos do ABN Amro Real.
Para Hart, o mundo vive um momento muito parecido com o período entre 1914 e 1945, quando as guerras mundiais, a depressão econômica, o fascismo e o comunismo quase eliminaram o sistema capitalista da face da Terra. Hoje, o quadro é semelhante - o sistema baseado na mais-valia tem de enfrentar inimigos como o terrorismo internacional, o movimento antiglobalização e os problemas ambientais que afetam o mundo todo. "Temos de reinventar o capitalismo, de modo a torná-lo mais inclusivo", afirma.
Ele se baseia em números. Hoje, os atuais sistemas de produção têm se voltado a preencher as necessidades de 800 milhões de pessoas que vivem com rendimentos superiores a US$ 15 mil/ano, a um custo de 80% da energia e dos recursos naturais do planeta.
Quando pensam em crescer e expandir seus negócios, as empresas direcionam energias e investimentos para ganhar os cerca de 1,2 bilhão de consumidores que estão situados naquela que Hart chama de "classe média emergente" - os que ganham de US$ 1,5 mil a US$ 15 mil por ano. E só recentemente têm voltado os olhares para os 4 bilhões restantes, a base da pirâmide.
Hart cita alguns exemplos de empresas que já começam a voltar os olhos para a população de baixa renda, mas afirma que elas estão aprendendo a lidar com esse público. Gigantes como Procter&Gamble, Unilever, Coca-Cola, HP e DuPont têm avançado em criar produtos focados nesse consumidor e também em parcerias com ONGs, dentro de suas políticas de responsabilidade corporativa.
"A estratégia antiga de vender para as elites e para a classe média emergente não levará a grandes possibilidades de crescimento para as empresas", diz Hart. "Para crescer, será precisa criar negócios inclusivos, por meio dos quais o setor privado e as comunidades construam valores comuns, em termos econômicos, sociais e ambientais", explica.
Na prática, Hart sugere que as empresas saiam do habitual comodismo e passem a dialogar com públicos que antes preferia ignorar, aos quais ele chama de "stakeholders (partes interessadas) marginais". Entre eles, a população rural pobre, favelados, comunidades indígenas e ambientalistas radicais. Um dos meios mais poderosos de inclusão seria incorporá-los em suas cadeias de fornecedores, a exemplo do que empresas de cosméticos, como a brasileira Natura, têm feito com os produtores de castanhas, buriti e outros ativos fitoterápicos no Norte do País.
Outra grande possibilidade de inclusão cabe ao setor financeiro, por meio de programas de microcrédito. Grandes grupos financeiros já criam unidades de negócios para emprestar dinheiro aos pobres, nos moldes do já clássico Grameen Bank, de Bangladesh - pioneiro em oferecer crédito a vilarejos paupérrimos na Índia. Hart ressalta que a maior parte dos empreendimentos na base da pirâmide começa a partir de ONGs ou pequenas empresas locais, para depois serem descobertas por grandes grupos empresariais.
Hart é também um ferrenho defensor da tecnologia como fator de inclusão social. Para ele, é dever das grandes corporações investir cada vez mais em tecnologia, em especial as do setor de energia. "Pense que existem em torno de 2 bilhões de pessoas sem acesso à energia elétrica, ao mesmo tempo em que o petróleo como principal matriz tem causado danos ambientais irreversíveis", diz. "O desenvolvimento de tecnologias limpas representa uma grande oportunidade de negócios para empresas de mente aberta."
OESP, 31/08/2005, p. B18
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