GM, Saneamento & Meio Ambiente, p.A9
08 de Jun de 2004
Incentivo ao biocomércio da ONU vai incluir Brasil
Lima, 8 de Junho de 2004 - A partir do dia 15 de junho o Brasil fará parte oficialmente da iniciativa das Nações Unidas de fomento ao biocomércio, ou comércio de produtos da biodiversidade. Será assinado na data o memorando de entendimento para a implantação do Programa Nacional de Biocomércio que faz parte da Biotrade Initiative da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês). O Programa já beneficia empreendedores da biodiversidade na Bolívia, Peru, Colômbia, Equador e está em vias de implantação na Uganda, Venezuela e agora no Brasil.
Os agentes do programa serão o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), que atuará como braço operacional do Ministério do Meio Ambiente e também na captação de recursos; o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), para capacitação dos empreendedores na elaboração de planos de negócios; e a Agência de Promoções de Exportação do Brasil (Apex), que dará suporte às empresas para exportação dos produtos do biocomércio, visto que já possui um programa de fomento à exportação de orgânicos.
De acordo com Lucas Assunção, coordenador da Biotrade Initiative, o objetivo do programa brasileiro é desencadear um processo de fomento aos negócios com biodiversidade que possibilite que entre 200 e 500 empresas possam buscar informação, know-how, certificações internacionais e acesso a crédito. A expectativa para o Brasil é que sejam captados recursos da ordem de US$ 10 milhões nos próximos cinco anos. A assinatura do memorando deverá impulsionar a captação dos recursos junto a bancos, fundações, empresas privadas e outros possíveis financiadores. O programa já inicia com US$ 500 mil assegurados por investidores e mais US$ 500 mil de contrapartida do Funbio. "Dado o potencial do setor de biocomércio no Brasil, essas cifras são compatíveis com o que podemos oferecer ao mundo em termos de produtos sustentáveis", diz Assunção. Os programas semelhantes na Bolívia e Colômbia já tem recursos de US$ 5 milhões e US$ 10,5 milhões, respectivamente. O Peru deverá contar com US$ 1,5 milhão.
O biocomércio, tanto no Brasil quanto nos países andinos, ainda é uma atividade incipiente, cujas empresas, em sua maior parte de pequeno porte, carecem de know-how e estratégias melhor definidas para se tornarem competitivas. As dificuldades para obtenção de financiamento são um grande obstáculo, pois os bancos de desenvolvimento pedem garantias muitas vezes inviáveis para os pequenos empreendedores. "É necessário que as instituições financeiras pensem em todos os atores da cadeia produtiva. São escassos os produtos com o perfil voltado a negócios de sustentabilidade", aponta Assunção.
Negócio mainstream
Mas o quadro começa a mudar, conforme sinalizou o Fórum de Investidores para Empresas de Biodiversidade, que terminou na última sexta feira, na capital peruana. Apesar das dificuldades, as empresas do setor caminham rumo ao "mainstreaming" do biocomércio, ou inserção definitiva da atividade no mercado global. As empresas de cosméticos, por exemplo, que fabricam produtos a partir de insumos da biodiversidade extraídos de modo sustentável têm clientela em ascensão e ações valorizadas, como é o caso da brasileira Natura, que recentemente abriu o capital e negocia ações na bolsa.
Para Lucas Assunção, da Unctad, o "pulo do gato" do biocomércio já ocorre a partir do momento que as empresas deixam de comercializar o produto primário, a commodity, e passam a agregar valor a seus produtos em nível local, antes de buscar possíveis mercados. O laboratório peruano Hersil é exemplo de empresa que agregou valor a seus produtos fitoterápicos. O preço médio da tonelada das ervas medicinais que utiliza como insumo é de US$ 1.000, enquanto os fitoterápicos chegam a US$ 1,4 milhão por tonelada - preço ao consumidor final. O laboratório tem 500 funcionários e grandes clientes: Abbot, Baxter, Merck, Novartis, Pfizer, Schering e Johnson & Johnson, entre outros. Os produtos são exportados para mais de 30 países, incluindo Europa e extremo oriente.
Andrea Vialli
GM, 08/06/2004, p.A9
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