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A importância das florestas

Valor Econômico, Opinião, p. A11
Autor: POLMAN, Paul
19 de jan de 2015

A importância das florestas
A Declaração de Nova Iorque sobre Florestas também mostra o caminho a seguir para um acordo climático mundial, com papéis claros para países florestais, economias desenvolvidas, sociedade civil, povos indígenas e setor privado.

Por Paul Polman

Foi Ghandi quem disse: "O que estamos fazendo às florestas do mundo é apenas um reflexo do que estamos fazendo a nós mesmos e uns aos outros". Essa sabedoria antecedeu em meio século nosso conhecimento sobre a problemática das mudanças climáticas, mas não poderia ser mais profética.
A destruição das florestas naturais é responsável por até 15% das emissões que modificam o clima, maior do que a do setor de transportes inteiro. E a saúde das florestas está intimamente ligada a nossa capacidade futura de alimentar uma comunidade mundial de 9 bilhões de pessoas - quando mesmo hoje 800 milhões de pessoas ainda passam fome. Necessitamos mais alimentos, mais florestas, melhores condições de vida para os pequenos agricultores - e menos emissões. Se quisermos algumas dessas coisas, necessitaremos todas elas.
As florestas foram o centro das atenções nas negociações sobre o clima em Lima, ao mesmo tempo em que as pessoas vão se dando conta da escala do desafio climático e da importância de um plano de ação focado nas florestas, se quisermos viabilizar a segurança climática e alimentar. Líderes de países florestais, grupos indígenas, CEOs de empresas, sociedade civil e funcionários das Nações Unidas reuniram-se em uma série de encontros para descobrir como fazer exatamente isso.
Financiamento internacional, na forma dos fundos multilaterais REDD+, estão sendo alocados em montantes cada vez mais elevados, com impacto potencialmente efetivo em países como Indonésia, Peru, Brasil e Paraguai. O papel dos povos indígenas na proteção das florestas - e a importância das reformas de governança para as questões de posse da terra -, estão, já não é sem hora, sendo compreendidos e assumidos.
Essas discussões estão fundamentadas também em exemplos que mostram o que pode ser feito. Desde 2005, a taxa de desmatamento no Brasil caiu 70% abaixo da média histórica, enquanto, ao mesmo tempo, a produção de alimentos cresceu cerca de 50%. Uma combinação de políticas públicas e engajamento do setor privado, evitaram o lançamento de 3,5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera, fazendo do Brasil um líder mundial em mitigação das mudanças climáticas. México e El Salvador - vizinhos latino-americanos do Brasil -, também fizeram bons progressos, pioneiros, respectivamente, em pagamento por serviços de ecossistemas e restauração florestal.
Essa liderança manifesta-se no fim de um ano em que ocorreu também uma mudança sem precedentes de paradigma em termos de engajamento empresarial no sentido de combater o desmatamento. Em vista da vigorosa sinalização via engajamento do "Consumer Goods Forum" para desmatamento zero até 2020, o mercado vem mudando rapidamente. Extraordinários 96% do óleo de palma comercializado em todo o mundo são, atualmente, condicionados ao não desmatamento, na esteira de um recente anúncio da Musim Mas, uma das maiores produtoras de óleo de palma na Indonésia. A Tropical Forest Alliance, uma parceria público-privada reunindo empresas de bens de consumo, governos e ONGs, está agora trabalhando em diversos países para converter esses engajamentos em progressos efetivos.
O progresso na Indonésia foi recentemente impulsionado pelo anúncio, pelo presidente Widodo, de repressão ao desmatamento e à destruição de terrenos de turfa; e, no Brasil, pela extensão da "moratória da soja" até maio de 2016, assegurando que o desmatamento "movido a soja" não aumente enquanto é implementado o novo Código Florestal do país.
Outros países também estão avançando muito rápido. No âmbito das negociações da ONU, sob a bandeira da "Lima Challenge", 13 países florestais de todo o mundo, entre eles a Colômbia, o Peru e a Libéria - comprometeram-se a apresentar planos de reduções de emissões de florestas, enfatizando o que poderiam alcançar com seus próprios esforços e o que mais seriam capazes de fazer com apoio e parceria internacionais. Esses países estão começando a romper a tradicional divisão entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento persistente nas negociações climáticas até hoje. Em vista dos principais avanços obtidos na conferência de Lima - a superação dessa divisão e a criação de obrigações de redução de emissões impostas a todos os países -, certamente veremos mais desses tipos de desafios positivos.
Uma vez que as metas ambicionadas constantes da minuta de documento final são ainda inaceitavelmente baixas, as ambiciosas metas para os países florestais, em parceria com as economias desenvolvidas e o setor privado, são um exemplo das mudanças no pensamento e nas práticas necessárias para assegurar uma conversão para baixo carbono.
A Declaração de Nova Iorque sobre Florestas, divulgada durante Cúpula do Clima promovida pelo Secretário Geral da ONU em setembro, também mostra o caminho a seguir para um acordo climático mundial, com papéis claros para países florestais, economias desenvolvidas, sociedade civil, povos indígenas e setor privado. E a energia e entusiasmo dos tomadores de decisões no sentido de adotar uma abordagem abrangente - tratando florestas e agricultura como parte de um todo maior - rompendo barreiras e mostrando que as mudanças transformadoras estão ao nosso alcance.
Cinquenta anos após a percepção de Gandhi, precisamos fazer uma escolha sobre nosso futuro e o das florestas que nos sustentam. Nós sabemos qual escolha temos de fazer. (Tradução de Sergio Blum)
Paul Polman é CEO da Unilever

Valor Econômico, 19/01/2015, Opinião, p. A11

http://www.valor.com.br/opiniao/3865118/importancia-das-florestas

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