O Globo, Opinião, p. 7
Autor: CARVALHO, Joaquim Francisco de
26 de Jul de 2011
Impactos ambientais
Joaquim Francisco de Carvalho
A definição de desenvolvimento sustentável empregada em foros políticos é frágil para que se possa relacionar os diversos processos produtivos, por ordem de magnitude de seus impactos ambientais. Por aquela definição - que é baseada no chamado Relatório Brundtland, de 1987 - desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaça as necessidades presentes, sem afetar a capacidade de as futuras gerações suprirem as suas próprias demandas.
Se quisermos uma definição mais robusta, devemos, antes, distinguir a sustentabilidade ambiental da econômica e da social.
Economistas e engenheiros em geral acreditam que a tecnologia sempre pode converter e reconverter recursos naturais, força de trabalho e capacidade do ambiente para reciclar rejeitos, em produção industrial, casas, fábricas, estradas etc. - e colocam tudo isso junto com dinheiro num pacote homogêneo - o capital. Para eles, sustentabilidade significa preservar e manter a rentabilidade do capital, o equilíbrio social e a governabilidade, independentemente das limitações colocadas pelas dimensões finitas do planeta. Mas é evidente que não pode haver sustentabilidade econômica e social sem sustentabilidade ambiental - e esta depende do equilíbrio entre o consumo de energia e matérias-primas, de um lado, e a capacidade do meio ambiente de renovar a energia e reciclar os rejeitos produzidos, do outro.
A partir daí, pode-se definir desenvolvimento sustentável com base em alguns conceitos fundamentais da termodinâmica, que permitem ordenar os diversos processos produtivos de uma economia, segundo a magnitude dos desequilíbrios causados pelos respectivos impactos ambientais.
Simplificadamente, pode-se dizer que a sustentabilidade de um sistema depende do equilíbrio dos fluxos de matéria e energia que entram e saem - e isto é influenciado pelo número de elementos do sistema e por seu regime termodinâmico, ou pelo nível de organização de seus elementos, atributos esses que caracterizam a entropia.
Sistemas sustentáveis produzem pouca entropia e são bem organizados, enquanto sistemas insustentáveis produzem muita entropia e são caóticos. A vida existe graças a processos que degradam energia de alta qualidade e emitem entropia para o universo, mantendo a Terra em estado estacionário. Assim, para que haja sustentabilidade, os fluxos de entropia dos sistemas terrestres não devem se afastar significativamente dos níveis atuais, pois são estes que asseguram a vida no planeta.
Desenvolvimento sustentável é, portanto, aquele que tenda a manter estáveis os atuais fluxos de entropia dos sistemas terrestres. Tomando-se tais fluxos como "linha de base", não é necessário medi-los para se estabelecerem escalas de impactos ambientais provocados por empreendimentos humanos. Para isso, basta estimar e comparar acréscimos neles provocados por estes empreendimentos.
Joaquim Francisco de Carvalho é professor do Programa de Pós-Graduação em Energia da Universidade de São Paulo.
O Globo, 26/07/2011, Opinião, p. 7
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