O Globo, Prosa, p. 4
Autor: ALVIM, Tomas; SALLES, Marisa Moreira
03 de Nov de 2012
Impacto social da mineração
Seminário em Belo Horizonte vai discutir a importância de projetos ambientais e arquitetônicos para minimizar efeitos das extrações de ferro
Tomas Alvim e Marisa Moreira Salles
No século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire apontava os "vestígios aflitivos das lavagens, vastas extensões de terra revolvida e montes de cascalho" que podiam ser vistos na região das Minas. Referia-se, claro, às marcas da mineração na paisagem, cicatrizes que, ao longo do tempo, se multiplicaram. Em Minas Gerais, as atividades de mineração sempre estiveram associadas tanto ao nascimento e glória das cidades quanto à destruição de seu entorno. A ideia de que a degradação ambiental é a contrapartida inevitável da extração de minérios, porém, não corresponde à realidade - e experiências dentro e fora do país mostram que há diferentes soluções para as terras revolvidas de que Saint-Hilaire falava. Essas experiências são um dos temas que serão debatidos no Arq.Futuro, evento sobre arquitetura e urbanismo que se realizará em Belo Horizonte em 6 e 7 de novembro.
O nível de informação e de cobrança da sociedade contemporânea é tal que as empresas não podem mais apenas responder às exigências legais, mas devem se antecipar a elas. Os projetos atualmente estabelecidos pelas mineradoras iniciam-se muito antes da prospecção, com estudos sobre o impacto social provocado pelo empreendimento, bem como da fauna e da flora nativas e da água dos territórios a minerar: a contaminação dos mananciais deve ser o centro da preocupação de empresas e cidadãos. No decorrer das atividades, a recuperação deve ser feita à medida que os trabalhos avançam, com recolocação de terra, replantio de espécies e investimento em equipamentos antipoluentes.
Soluções de novos usos para territórios minerados
No entanto, o impacto causado pela mineração é permanente, mas as minas são temporárias, ainda que durem muito tempo. Essa transitoriedade é crucial: da mesma forma como gera riqueza, a exploração mineral pode provocar o colapso econômico quando se esgota. O desafio que se coloca às empresas e ao poder público é também garantir novos usos para os territórios minerados e novas vocações para as cidades que se estruturaram em torno deles.
Uma experiência modelar nesse sentido é o Projeto Éden, na Cornualha (no Reino Unido), em que um antigo espaço de exploração de caulim foi convertido num grande complexo que abriga o maior jardim botânico do mundo. Outras experiências podem ser lembradas: dos pioneiros Butchart Gardens, em Vancouver, antiga pedreira transformada em jardim há mais de um século, ao moderno estádio de futebol de Braga, Portugal, também construído em uma pedreira a partir de um projeto do arquiteto Eduardo Souto Moura; da grande adega de Cricova, na Moldávia, instalada em uma mina de calcário, à usina eólica de Klettwitz, Alemanha, em uma mina de carvão a céu aberto.
No Brasil, pode-se mencionar a raia olímpica da USP, construída na grande cava de areia usada na construção do campus. E, se as grandes empresas instituem programas de recuperação, encontram-se também iniciativas como as do Projeto Viva Ribeira, no interior de São Paulo, em que uma associação de pequenos produtores de areia para construção civil implantou, há mais de dez anos, uma bem-sucedida série de ações de cunho socioambiental.
As cidades, por sua vez, precisam descobrir maneiras de se reestruturar após o declínio da mineração. Essa consciência tem sido tardia no Brasil. As cidades mineiras nascidas nos ciclos do ouro e do diamante, por exemplo, passaram por um longo período de decadência econômica antes de se revigorarem graças ao turismo, o que só começou a ocorrer de forma mais organizada na década de 1980. A trajetória delas, aliás, chama a atenção para um aspecto de extrema importância: a preservação do patrimônio histórico, arquitetônico e cultural urbano. Não apenas a mineração supõe grande impacto ambiental, mas a própria dinamização da economia traz embutidas transformações na conformação das cidades. As mudanças resultantes do crescimento são inevitáveis e desejáveis; saber o que preservar e o que transformar, encontrar maneiras de resguardar a memória e ao mesmo tempo responder às necessidades impostas pelo desenvolvimento é um dos grandes desafios contemporâneos.
Recentemente, vêm surgindo demonstrações de que governo e iniciativa privada já tentam se antecipar aos problemas econômicos advindos do declínio da mineração. Em Itabira, cidade que tem "noventa por cento de ferro nas calçadas", segundo seu filho mais ilustre, Carlos Drummond de Andrade, uma parceria entre o governo e uma empresa de mineração privada resultou na construção de um campus da Unifei (Universidade de Itajubá), planejado com o objetivo explícito de criar na cidade um polo tecnológico que transforme o perfil econômico da região, uma vez que se calcula que a extração de minério de ferro não resista por muitas décadas.
Os caminhos são muitos: é preciso conhecê-los para encontrar respostas criativas e eficientes que garantam desenvolvimento econômico e equilíbrio ambiental, hoje e amanhã. Esse é o objetivo do encontro de Belo Horizonte, que reunirá Gustavo Penna, autor do projeto da Unifei de Itabira; Marco Casamonti, arquiteto italiano que assina a premiada Vinícola Antinori, na Toscana - na qual a argila retirada na escavação do terreno foi reaproveitada para a fabricação de tijolos para a construção da obra -; Maria Elisa Costa e Fábio Carsalade, pesquisadores do patrimônio arquitetônico mineiro; e Shohei Shigematsu, arquiteto voltado para a recuperação de áreas industriais. Estarão presentes ainda Carlos Alberto Maciel, Rafael Viñoly, Roberto Luis de Melo Monte-Mór e Fabiana Borges Teixeira dos Santos.
E, como a conversa é longa e jamais conclusiva - pois, como tudo o que é humano, ela se desdobra permanentemente em novas questões -, uma nova edição do seminário Arq.Futuro terá lugar no Rio de Janeiro, no primeiro semestre de 2013.
Mudança.
Exploração de minério em Itabira (MG): parceria entre governo e empresa de mineração resultou na construção de um campus da Universidade de Itajubá, com o objetivo de criar polo tecnológico e transformar a economia da cidade.
Tomas Alvim e Marisa Moreira Salles são sócios da Bei Editora e idealizadores do Arq. Futuro
O Globo, 03/11/2012, Prosa, p. 4
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