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Ilha do Bananal reforça roteiro ecoturístico

Gazeta Mercantil Centro Oeste (Brasília-DF)
Autor: Ivonete P. Motta
06 de mar de 2002

Utilizada durante várias décadas por fazendeiros da Região para engordar gado no período da seca, a Ilha do Bananal caminha para se tornar um roteiro de ecoturismo. A maior ilha fluvial do mundo, com 2 milhões de hectares, hoje dividida em duas áreas de preservação, o Parque Indígena e o Parque Nacional do Araguaia, é habitat original de índios das tribos Karajá, Javaé, que começam a enxergar no turismo uma fonte de renda e garantia de sobrevivência.
A área caracteriza-se também por reunir os três principais ecossistemas do Brasil - Cerrado, Pantanal e Floresta Amazônica -, um encontro denominado ecótonos e ainda pouco estudado que tem despertado o interesse de pesquisadores do mundo inteiro.
Embora aculturados, os índios da Ilha do Bananal ainda conseguem preservar seus costumes e resgatam tradições antigas. É o caso da festa de hetohoky (lê-se hetohocam), um ritual de iniciação dos meninos, que marca a sua passagem para a fase adulta.
A festa, que este ano acontece no próximo final de semana, dias 9 e 10, na aldeia Fontoura, às margens do rio Araguaia, próximo à cidade de Santa Terezinha (MT), é um cartão de visita étnico. Nesses dias, as comunidades indígenas mostram que são boas anfitriãs e recebem autoridades e convidados. Chegar ao local nesta época do ano só de avião, já que as águas estão altas e o transporte terrestre é inviável. A rota é operada pela empresa Sete Táxi Aéreo.
O turismo na Ilha do Bananal ainda é incipiente e caracteriza-se por ser mais contemplativo. As aldeias não possuem infra-estrutura, e a entrada na ilha depende de autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai), que mantém um escritório regional em Gurupi, no Sul do Tocantins.
Natureza
Os atrativos naturais são as praias dos rios Araguaia e seu afluente, o Javaé, que aparecem no período de julho a setembro; os lagos, fontes de alimentos das aldeias ainda inatingíveis para os visitantes; a pesca amadora; focagem de jacaré; e passeio de barcos para ver botos e tracajás.
A diversidade de pássaros forma um espetáculo à parte. O Lago dos Pássaros, um ninhal de difícil acesso ao Norte da ilha, reúne centenas de espécies cuja observação exige desprendimento do turista. É preciso estar no local às 5h da manhã para acompanhar a movimentação dos animais no momento em que saem um busca de alimentos. A vida indígena é outro atrativo.
Visando otimizar essa diversidade, algumas ações começam a ser desenvolvidas. Utilizando recursos de uma compensação ambiental decorrente da construção do Aeroporto de Palmas, conseguida pelo Ministério Público Federal no Tocantins, as aldeias Boto Velho, habitadas por índios Javaé e localizada às margens do rio com o mesmo nome, e Macaúba, no rio Araguaia, estão sendo preparadas para receber ecoturistas.
O trabalho está sendo executado pelo Instituto Ecológica e, segundo o antropólogo André Toral, consiste no resgate da cultura desses povos e na sua preparação para receber os visitantes. A retirada dos fazendeiros de dentro da ilha por força judicial, que começou a ocorrer no início dos anos 90, criou muita animosidade de moradores do entorno com os índios. Toral diz que, aos poucos, a comunidade está recuperando sua auto-estima e firmando sua cultura como um produto que pode ser vendido.
Na aldeia de Boto Velho foi construída uma grande casa comunal, que funciona como uma espécie de museu e ponto de apoio para visitantes. Para este ano estão previstas oficinas para formação de guias índigenas, que vão atuar dentro da reserva, e para a recuperação de técnicas de artesanato perdidas ao longo do tempo. A idéia é criar pelo menos 30 itens vendáveis e iniciar as operações turísticas a partir de julho, quando as águas baixam, as praias aparecem e as trilhas são acessíveis.
Gargalo
Na aldeia Macaúba, habitada por índios Karajá, a situação é diferente. Lá o artesanato é largamente produzido, mas possui um gargalo na comercialização. As vendas são feitas pelas índias nas ruas de Santa Terezinha, do outro lado do rio, em uma situação de quase mendicância. Por isso, parte do dinheiro da compensação da Infraero será aplicado na implantação de um ponto de apoio para a comercialização do artesanato e de logística para os índios.
Com iniciativas de auto-valorização, os povos da Ilha do Bananal querem acabar com o turismo predatório e dar sustentação às suas aldeias, utilizando a sua cultura como algo positivo.
Pesquisa consolida nova vertente
Além do apoio às comunidades indígenas da Ilha do Bananal, o Instituto Ecológico que mantém o Centro de Pesquisa Canguçu, visitado ontem pelo príncipe Charles, também desenvolve o turismo científico. O núcleo desenvolve pesquisas ambientais como os projetos de seqüestro de carbono e de preservação de quelônios da Amazônia e também recebe turistas visitantes que desejam conhecer e se interagir com as atividades científicas.
É o caso da instituição norte-americana Hearthwatch, que no ano passado trouxe 40 voluntários pagos para trabalharem em pesquisas do Centro durante duas semanas. A instituição já fechou outro pacote este ano e os visitantes começam a chega a partir de julho, reflexo das atividades do ano passado. O diretor-executivo do Instituto, Stéfano Merlin, diz que o turismo científico praticamente dá sustentação ao centro, além dos grupos visitantes que apóiam as pesquisas.
Estrutura
Localizado às margens do rio Javaé, a 270 quilômetros de Palmas, e construído sobre palafitas, o Centro Canguçu possui capacidade para receber 25 pessoas e toda infra-estrutura necessária para garantir o conforto do turista. O local também é apropriado para encontros, reuniões, seminários de grupos pequenos.
O centro recebeu uma menção honrosa em um dos maiores guias de turismo do mundo, o Lonely Planet. Esse título o credencia para receber turistas de qualquer parte do mundo, o que já vem ocorrendo com freqüência.

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