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Ibama fecha cavernas em três parques

FSP, Cotidiano, p. C7
28 de fev de 2008

Ibama fecha cavernas em três parques
Instituto alega falta de plano de manejo para vetar a visitação às áreas que estão sob controle do governo de São Paulo
Governo estadual recorreu ontem do veto que afetou as 46 cavernas localizadas no Vale do Ribeira, no extremo sul do Estado

Alencar Izidoro
Da reportagem local

Todas as 46 cavernas turísticas controladas pelo governo de São Paulo no Vale do Ribeira, no extremo sul do Estado, estão fechadas para visitação por determinação do Ibama (instituto ambiental federal). A decisão foi tomada na semana passada e provocou uma avalanche de viagens canceladas, pousadas esvaziadas e protestos da comunidade em uma das regiões paulistas mais pobres.
A justificativa para vetar a visitação em áreas famosas, como as cavernas do Diabo e de Santana, é a falta de planos de manejo -estudo formal para mapear riscos de degradação.
A interdição atingiu todas as cavernas dos parques Jacupiranga, Petar e Intervales, gerenciados pela Fundação Florestal, que foi multada em R$ 30 mil. No local, há 404 cavidades, mas só 46 são abertas ao turismo. Em 2007, elas tiveram juntas 55 mil visitantes.
No último final de semana, quem esteve lá perdeu a viagem. "As reservas, inclusive de turistas da França e da Alemanha, foram canceladas", reclama Antonio Avelino de Melo, 57, que controla uma pousada. Moradores e comerciantes já falam em fechar a rodovia Régis Bittencourt como protesto.
A gestão José Serra (PSDB) admite a falta dos planos de manejo, mas diz que a entrada nas cavernas dos três parques do Vale do Ribeira são bem controladas, enquanto há outras pelo país abertas à visitação e sem estudos de impacto, inclusive em áreas federais.
José Amaral Wagner Neto, diretor-executivo da Fundação Florestal, classificou a decisão do instituto de "intempestiva". "São as cavernas mais bem controladas do Brasil. Todo mundo é acompanhado por algum dos 225 monitores ambientais e não entra sem proteção", diz.
Ele teme que a medida estimule a visita a outras cavernas particulares fora dos parques e que não têm nenhum controle.
O secretário do Meio Ambiente, Xico Graziano, disse que poderá apelar hoje à ministra Marina Silva (Meio Ambiente). "Não é algo técnico." Ele reconhece que deveriam estar prontos os planos das cavidades e promete fazê-los, mas os considera formalidades, por já haver outros estudos mapeando a situação nos locais.
Por trás da decisão do Ibama está também uma cobrança do Ministério Público Federal, que entrou com ação judicial em janeiro contra órgãos do Estado e da União para exigir, entre outras coisas, a existência de planos de manejo em cavernas. A liminar para a interdição de áreas foi negada pela Justiça. A ação do procurador da República Felipe Jow Namba cita irregularidades na iluminação da caverna do Diabo que levariam à degradação do ambiente.
O coordenador de fiscalização do Ibama em São Paulo, Luís Antonio de Gonçalves Lima, diz que foram feitas recomendações nos últimos anos que não foram atendidas. "São ambientes sensíveis, onde pode haver danos irreversíveis."
José Antonio Scaleante, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Espeleologia, acha a interdição "arbitrária". "O controle é rigoroso. O prejuízo ambiental pode ser maior agora: a população vai trabalhar com os palmiteiros para sobreviver."

Para prefeituras do Vale do Ribeira, medida causará prejuízos ao turismo

José Eduardo Rondon
Da agência Folha

Autoridades municipais e comerciantes da área do Petar, no Vale do Ribeira, criticaram a decisão do Ibama de proibir a visitação em cavernas da região. O prefeito de Iporanga, Ariovaldo Pereira (DEM), classificou a medida de "autoritária" e apontou possíveis prejuízos ao setor de turismo.
"O fechamento autoritário do Petar atingiria em cheio esses profissionais [do turismo] e significaria o encerramento das atividades turísticas, resultando em um lamentável desemprego generalizado", disse em ofício encaminhado à Fundação Florestal de São Paulo.
O turismo é a principal atividade econômica de Iporanga. Há, segundo a prefeitura, 32 pousadas na cidade, com cerca de 2.500 leitos. Marizete Rocha, dona de pousada no município, disse esperar que as cavernas sejam reabertas à visitação, caso contrário, muitas pessoas terão prejuízo. Ela afirmou ainda que, por ora, não pensa em fechar o empreendimento, de nove apartamentos e capacidade para 20 pessoas.
O diretor do Departamento de Meio Ambiente da Prefeitura de Eldorado, Rodrigo Aguiar, disse que o fechamento das cavernas poderá trazer problemas ambientais ao município, com a volta de pessoas para a extração ilegal de palmito.
"O turismo é a segunda atividade econômica mais importante de Eldorado, só perde para a agropecuária. Muitos monitores que trabalham com turismo atualmente deixaram a extração ilegal de palmito. Fechando as cavernas, acabam as alternativas de trabalho. O impacto social é grande", disse.
Segundo Aguiar, cerca de 250 moradores de Eldorado trabalham diretamente com atividades de turismo pelas cavernas. Há duas pousadas e dois hotéis na cidade. Para o diretor, os empreendimentos podem fechar caso as cavernas não sejam reabertas. "Todo mundo que vem visitar o Vale do Ribeira por turismo vem por causa das cavernas", afirmou.

FSP, 28/02/2008, Cotidiano, p. C7

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