OESP, Geral, p.A10
25 de Jun de 2004
Ibama cria regras para reintegrar animais à natureza Intenção é reduzir os impactos ambientais e o desequilíbrio em alguns hábitats
EVANILDO DA SILVEIRA
Todos os anos, mais de 20 mil animais silvestres são apreendidos de traficantes e criadores ilegais. A maioria é devolvida à natureza. Por falta de legislação e normas, muitas vezes, no entanto, a soltura ou reintrodução dos bichos é feita fora de seus hábitats ou de forma inadequada. Agora, o Ibama está elaborando uma instrução normativa com regras para a soltura de animais silvestres, que deverá entrar em vigor em agosto.
A criação das regras começou em março, no Rio, com o Seminário de Reintrodução de Fauna: Possibilidades e Conseqüências, no qual o Ibama reuniu vários profissionais da área. "O principal resultado do encontro foi um documento, com sugestões de normas, que estamos avaliando", explica a bióloga Juciara Elise Pelles, da Coordenação de Gestão do Uso de Espécies da Fauna (Coefa) do Ibama.
Regras são necessárias, porque a soltura de animais sem cuidados e estudos prévios pode causar impactos ambientais. Animais soltos podem introduzir doenças nos hábitats, prejudicando as espécies nativas. Os recém-chegados podem também competir por espaço e comida com os habitantes naturais do lugar.
Há vários exemplos de problemas causados por solturas feitas sem cuidados.
Um deles pode ser visto na Floresta da Tijuca, no Rio. "O mico Callithrix jachus, originário do Nordeste, foi solto lá há alguns anos", diz Juciara.
"Sem inimigos naturais, se adaptou muito bem, mas hoje compete com a fauna local, prejudicando sua sobrevivência."
O caso do lagarto teiú (Tupinambis merianae) em Fernando de Noronha é outro exemplo do impacto que a introdução de um animal num habitat diferente do seu pode causar. Há alguns anos alguém teve uma idéia que parecia brilhante.
Levar para o arquipélago o teiú, do Nordeste continental, para combater a praga dos ratos, que, por sua vez, já tinham sidos introduzidos de forma involuntária, talvez a bordo de barcos de mantimentos.
Em pouco tempo, percebeu-se que a idéia havia se transformado em desastre ecológico. Ao levar o teiú, sem estudar seus hábitos - nem os do rato -, outras espécies foram prejudicadas, principalmente de aves. O motivo é simples. O lagarto tem hábitos diurnos e os ratos, noturnos. Provavelmente, as duas espécies nunca se encontraram e hoje ambas vão muito bem, obrigado.
Mas ovos e filhotes de aves passaram a ser o prato principal do cardápio do teiú.
Mico-leão - Nem todas as reintroduções de animais na natureza acabam mal. O caso do mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é um exemplo de sucesso. Com apoio de instituições internacionais, como os zoológicos de Washington e de Frankfurt, iniciou-se na década de 70 um programa para a recuperação da população dessa espécie, que estava à beira da extinção.
Hoje existem cerca de 1.200 micos-leões-dourado vivendo na natureza, quase todos nascidos nas matas de fazendas particulares do Estado do Rio, onde foram soltos a partir de 1984. No início, parecia que o programa fracassaria. Mais de dois terços deles morreram nos dois primeiros anos.
Aos poucos, o planejamento, a perseverança e o monitoramento contínuo salvaram o mico-leão-dourado da extinção. Ao poucos essa bela espécie de primata vai repovoando seu hábitat, de onde havia sido expulso pelo homem.
Em estudo
Medidas em avaliação pelo Ibama
Avaliar o estado de saúde dos animais na chegada aos centros de triagem.
Conhecer o hábitat de onde foram retirados.
Criar programas para espécies mais apreendidas.
Criar centros de pesquisa sobre reintrodução.
Adotar quarentena, antes da soltura, para eliminar possíveis doenças.
Fazer levantamento detalhado das áreas a serem usadas para a soltura.
Soltar animais em grupos coesos e nunca isoladamente.
Realizar monitoramento intensivo nos primeiros dias após a soltura e de forma regular e sistemática por 1 ano.
Formar banco genômico dos animais soltos.
Dar suplementação alimentar e fazer avaliação veterinária, quando necessário.
Centro de SP já tem plano de soltura
Cemas abriga 75 espécies e tem a missão de restabelecer populações naturais ameaçadas.
O Centro de Estudos e Manejo de Animais Silvestres (Cemas), da Fundação Florestal, do Estado de São Paulo, já tem suas próprias normas, que poderão ser aproveitadas pelo Ibama. Segundo o seu coordenador, Paulo Martuscelli, o Cemas tem como missão estabelecer populações naturais de espécies ameaçadas de extinção.
Com sede no Horto Florestal de São Paulo, o Cemas abriga atualmente 800 animais, de 75 espécies. Depois que eles chegam, por meio de apreensões do tráfico ou de devoluções de zoológicos, os bichos passam por exames fisiológicos e genéticos. Também passam por um processo de ressocialização, até a reintrodução na natureza. Todo o processo leva de um a dois anos.
"Como o Cemas começou no ano passado, ainda não tivemos tempo suficiente para reintroduzir nenhum animal", diz Martuscelli. A instituição trabalha com 26 espécies de macacos e aves que deverão ter uma chance de voltar ao seu hábitat em breve.
"No caso de alguns papagaios-de-cara-roxa, aos poucos aumentamos sua capacidade de vôo, com gaiolas cada vez maiores", diz a veterinária Renata Vieira. Enquanto isso, eles vão se socializando, formando casais e se preparando para a soltura.
Mas o processo não tem etapas com períodos tão definidos. "Aqui há um único macaco-monocarvoeiro", diz Renata. "Chegou em fevereiro e está saudável, mas não podemos soltá-lo só." A idéia é esperar por uma fêmea, para que ele se reproduza e, então, tenha uma chance de ser solto. (Evanildo da Silveira e Maurício Kanno)
OESP, 25/06/2004, p. A10
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