Marcos Sá Corrêa - http://marcossacorrea.com.br/
Autor: Marcos Sá Corrêa
09 de Nov de 2010
O nome científico já soa quase como aviso de que o assunto é sério. O bicho se chama Steindachneridion scripta. É um surubim. Seria mais conhecido por Bocudo, se décadas de invisibiliidade não o tivessem reduzido praticamente a um ilustre desconhecido, orincipalmente entre os pescadores mais tarimbados do rio Iguaçu, que mal se lembram de quantas vezesd toparam com ele nas águas escuras do rio em duas ou três décadas.
Mas Steindachneridion scripta continuou firme nos guias de campo argentinos, como se estivesse só esparando a hora de voltar. Na margem de lá, é um bagre manchado. Chega a medir 80 centímetros. E caiu dias atrás na rede de pesquisadores da ictiofauna, o primeiro censo da fauna aquático de que se tem notícia debaixo das Cataratas, que supostamente divide o mundo para os peixes pela sólida fronteira do abismo encachoeirado.
Agora os especialistas estão descobrindo que não é bem assim que as coisas rolam na corredeiras que separam as Cataratas d ponto em que o Iguaçu deságua no rio Paraná. O fato é que todo esse tempo o Steindachneridion scripta esteve bem abaixo de uma das paisagens mais vivitadas do mundo.
Só nas últimas enchentes humanas, mais de 12 mil pessoas se debruçaram em suas corredeiras a cada domingo de feriadão, cada vez que o parque persegue seus um recordes de bileheteria. E o Steindachneridion scripta ali, nadando incógnito.
Há indícios de que sua sombra passe vagamente pela lembrança das famílias que, ainda na década de 1960, com o parque decretado mais de 30 anos antes, compraram no mercado local de grilagem terras devidamente tituladas dentro da unidade de conservação do governo federal. Era gente que, nas horas vagas, caçava e pescava, além de nos dias úteis empurrar a floresta protegida para a goela das serrarias, com toda a convicção de estar fazendo o que era certo.
Ou seja, derrubar o mato para levar à última barranca possível a vocação agrícola da economia paranaense, Era tão ciosa de seus direitos, que fotografava essas ocasiões para a posteridade. E numa dessas lembranças de família existe um bagre enorme, que mais antigos diziam ser uma relíquia do velho Iguaçu, quando até o quartel da fronteira comparava peixe do parque nacional para a bóia dos soldados. E a pesca esportiva em seus remansos era risonha e franca.
Tres cidades, quase quatro, fncaram raízes no parque que pareceram definitivas. Tinham escola estadual, linha de ônibus e luz elétrica, sem esquecer o papel tirado em cartório, garantindo a propriedade. Em seus guardados sobrou a tal foto do bagre gigante, nos braços de um grupo de moradores, tratado já naquele temp como troféu.
Há dúvidas sobre sua classificação exata. Mas todo mundo acha que era um bagre. Não estava em voga no vilarejo de Santo Alberto o nome Steindachneridion scripta, por sinal ilustre, herdado do naturalista Franz Steindachtner que, ainda no século XIX , batizou o primeiro surubim e acabou imortanilzado pelo gênero inteiro.
O exemplar achado no cânion do Iguaçu deu sorte. Foi devolvido ao rio na mesma noite, praticamente intato, a nâo por duas ou três escamas e um naco de gordura peitoral, que um dia talvez sirva para tirar a espécie da extinção em laboratórios de genética. Isso a lomgo prazo. A curto prazo, o primeiro efeito desse achado foi instantaneo.
Assim que o reconheceram, os pesquisadores Maristella e Sérgio Makrakis, da Unioeste, a universidade estadual da fronteira Paranaense, descbriram também no local da pesquisa como um território novo e paradoxalmente desconhecido, porque há pelo menos 72 anos aguardava uma investiogação sistemática do que tem de importante o Iguaçu no trecho que passa entre parques nacionais, para ganha o atestado de que o rio também integra as unidades de conservação.
O melhor é que o Steindachneridion scripta deu o ar de sua graça logo na primeira semana de trabalhos, iniciada no fim de outubro e prevista para durar dois anos. A próxima visita será no fim deste mes, depois de mais um deriadão. Se vier com mais novidades desse calibre, há esperanças de que acabe de fez a campanha turística para promover a pesca dentro do cânion.
Maristella e Sérgio Makrakis são, como acontece tantas vezes num ofício que envolve longas viagens, permanência em local isolado e o gosto comum por meter a mão onde nem todo mundo poria a ponta dos dedos, são ao mesmo tempo uma equipe e um casal.
Estão há mais seis meses recenseando os peixes do Iguaçu, acima das Cataratas, para avaliar os impactos de mais uma hidrelétrica, a quinta candidata a represar o rio. Antes de chegar às quedas, o Iguaçu passa por quatro grandes comportas que regulam, entre outras coisas, o volume da água - e, portanto, o número de cachoeiras - visto pelos turistas. Quando o consumo de energia cresce, as comportas se abrem e os visitantes que dão a sorte de estar diante delas num dia de trabalho são premiados por cheias artificiais. Nos dias de descanso, quando o consumo de paisagem aumenta e o de eletricidade caio, ocorre o contrário.
Nada ali é natureza em estado natural. E por isso mesmo cada Steindachneridion scripta que surge é um trunfo da política de conservação. Torna mais raro o que a ecnomia tende a banalizar. A cima das Cataratas, Maristella e Sérgio coletaram amostras de 60 espécies diferentes. E não tem dúvidas de que passarão das 80 espécies estimadas para a população aquática do Iguaçu.
Na margem direita do parque, constataram que o Floriano, o único rio do Sufdeste que corre num parque nacional da nascente à foz, é inquestionavelmente mais vivo do que os outros. As redes montadas para amostragem em sua desembocadura vinham tão carregadas, que levava até seis horas o trabalho de revistadas. Em média, issoé tarefa para meia hora.
Tudo isso num rio que, exatamente por ficar em zona intangível, é permanentemente assediado dentro do paqrque por palmiteiros, caçadores e pescadores clandestinos. " As pessoas não sabem a importância que essas coisas têm", conclui Sérgio Makralis, que não é dado a arroubos retóricos e só enche a boca para soletrar, ao telefone, com a ajuda de Maristella ns sílabas mais arrevezadas, Steindachneridion scripta.
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