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Hora de pensar no saneamento

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: OTTONI, Adacto Benedicto
05 de Out de 2004

Hora de pensar no saneamento

Adacto Benedicto Ottoni

A maioria das cidades brasileiras vem passando por problemas sanitários e ambientais preocupantes, que estão propiciando o aumento dos riscos de acidentes ecológicos. Isso contribui para o avanço da degradação ambiental, afetando a saúde e o bem-estar da população. E as soluções convencionais têm se mostrado insuficientes e ineficazes.

Mas a Natureza já nos dá o exemplo do tipo de ação a ser implementada, conforme nos mostram os "ciclos biogeoquímicos", numa floresta virgem, com sua vegetação nativa, onde não existe poluição. No processo natural, os nutrientes fundamentais à vida, que são finitos, permanecem sempre nesse sistema ecológico em equilíbrio, por sua constante reutilização.

As soluções técnicas convencionais na área do saneamento ambiental incluem principalmente a construção dos sistemas de abastecimento de água, saneamento dos esgotos, do lixo urbano (onde o aterro sanitário é a solução freqüente) e controle de enchentes, entre outras. Essas soluções clássicas são mais caras, e normalmente as prefeituras não dispõem de recursos, o que usualmente as inviabiliza.

A "luz no fim do túnel" está na adoção de soluções sustentáveis para o saneamento ambiental. A gestão sustentável de bacias hidrográficas permitirá a recuperação ecológica desses ecossistemas, o que facultará a maior recarga da água subterrânea (lençóis freáticos e artesianos) e conseqüentemente aumentando as vazões mínimas dos rios nos períodos de estiagem.

Os esgotos sanitários também podem (ao invés de gerarem a poluição hídrica, como acontece hoje) se transformar em soluções para o problema da desertificação e da falta de produtividade dos solos. O lodo dos esgotos pode ser útil para a recuperação do húmus do solo, e o esgoto tratado ser usado para recarga de água subterrânea, combate à erosão do solo, combate à cunha salina em regiões costeiras, geração de energia (biogás) etc.

O lixo urbano, com a solução da coleta seletiva e reciclagem, também pode gerar empregos (minimizando os problemas socioeconômicos urbanos) e não poluindo o meio ambiente, com economia de energia, e minimização da exploração dos recursos naturais.

O principal fator para a aplicação de soluções sustentáveis é a "vontade política" de acabar com os "mesmismos" e partir-se para soluções sustentáveis. Elas podem ser de baixo custo, valorizando-se o meio ambiente ao invés de degradá-lo. Podem ser geradoras de benefícios (abastecimento d'água, irrigação, saneamento dos esgotos e do lixo, energia hidrelétrica, combate às secas e às enchentes etc.).

Deve-se prever maiores investimentos em medidas preventivas (ao invés das caras e emergenciais medidas corretivas), como a educação, o monitoramento e a fiscalização ambientais. É necessária a introdução de políticas públicas que incentivem a gestão sustentável e a adoção de tecnologias limpas para o saneamento, visando ao desenvolvimento e à saúde da civilização em harmonia com o meio ambiente.
Adacto Benedicto Ottoni é coordenador do Curso de Pós-Graduação em Engenharia Sanitária e Ambiental da Uerj e integra a Comissão de Meio Ambiente - Crea/RJ.

O Globo, 05/10/2004, Opinião, p. 7

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