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Homicídios caem no país, mas subnotificação e alta das mortes no Norte e Nordeste são desafio, aponta Atlas da Violência

O Globo - oglobo.globo.com
Autor: Paulo Assad
26 de Mai de 2026

Dados oficiais da área da saúde mostram que o Brasil viu o número de homicídios registrados em 2024 reduzir 7,4% em relação ao ano anterior, segundo o Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta terça-feira. Em 2024, foram contabilizados oficialmente 42.590 homicídios em todo o país, representando uma taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes. Trata-se do menor patamar desde 2014.

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Apesar da queda, que segue uma tendência já identificada em outros anos, o Atlas da Violência elenca a subnotificação e o elevado número de mortes em municípios das regiões Norte e Nordeste como desafios. As maiores taxas de homicídio concentram-se no Amapá, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Ceará. Dezessete dos 20 municípios mais violentos com mais de 100 mil habitantes estão no Nordeste, enquanto as 20 cidades menos violentas encontram-se exclusivamente no Sul e Sudeste.

Um dos fatores que contribui para a disparidade é demográfico. As regiões mais violentas são as que mantêm uma proporção maior de jovens, recorte da população que tende a estar mais envolvido, seja como vítima ou perpetrador, nos homicídios. Esse, no entanto, não é o único elemento, com as movimentações recentes do crime organizado, cada vez mais presente no interior do país, tendo peso relevante.

- O que explica isso é o processo de interiorização das facções, com o surgimento de grupos locais que não têm uma organização como a do Primeiro Comando da Capital (PCC), que não olham o lucro, mas o controle do território - explica Daniel Cerqueira, um dos coordenadores do levantamento.

Cerqueira compara a dinâmica do crime organizado em Santa Catarina, estado mais seguro do país, com a situação vivida na Bahia, que reúne dez das mais violentas cidades do país com mais de cem mil habitantes, como Jequié e Juazeiro:

- O controle do crime organizado em Santa Catarina é feito pelo Primeiro Grupo Catarinense (PGC). No entanto, o PCC, que é rival, também está lá, mas nos municípios com portos, como Itajaí e Navegantes. O interesse deles é apenas pegar a droga e exportar. Existe uma acomodação e um não ataca o outro - diz Cerqueira, que acrescenta - Em outras áreas onde o crime não é tão organizado, esses grupos são compostos por jovens que querem se firmar e se firmam pela violência. A Bahia é um bom exemplo, com um maior número de facções.

Os dados de municípios mais violentos coletados pelo Ipea e o FBSP confirmam o cenário de interiorização do crime organizado, que deixa de se restringir apenas aos grandes centros urbanos. Entre as cidades com população superior a 100 mil habitantes, a mais violenta foi Maranguape (CE). Nos últimos anos, o município foi palco de um confronto entre as facções Comando Vermelho, originária do Rio de Janeiro, e os grupos locais Guardiões do Estado (GDE) e Massa Carcerária. Em setembro de 2025, 39 pessoas ligadas ao CV foram presas pela Polícia Civil do Ceará no município. A primeira capital a aparecer na lista é Salvador, no vigéssimo lugar.

Ao se analisar todos os municípios brasileiros, o mais violento foi Barcelos, no estado do Amazonas. Com uma população de 18 mil pessoas, a cidade viu 32 de seus moradores morrerem de forma violenta em 2024. O município, que faz fronteira com a Venezuela, abarca a Terra Indígena Yanomami, classificada pelo governo federal como altamente vulnerável ao avanço do crime organizado, segundo dados do recém-lançado Índice de Vulnerabilidade ao Crime Organizado (IVCO). A cidade integra uma rota de tráfico de drogas. No início do mês, 200 quilos de maconha do tipo skunk, avaliada em aproximadamente R$ 5 milhões, foram apreendidos pelas autoridades locais em Barcelos.

Homicídios ocultos

O pesquisador atribui a queda no número total de homicídios a uma série de fatores, como o aprimoramento das iniciativas de segurança pública, além do envelhecimento da população. Ele também destaca o arrefecimento do confronto entre PCC e Comando Vermelho (CV) pelo controle de rotas de tráfico, que atingiu o auge entre 2016 e 2017. Segundo Cerqueira, a sensação de insegurança da população, por outro lado, aumenta. Esse desencontro seria explicado pelo destaque dado à pauta da criminalidade no debate público, o que se soma às mudanças na dinâmica criminal.

- Antes as pessoas tinham medo de serem roubadas. Hoje, seguem com esse medo, mas também passaram a temer sofrer uma fraude - diz Cerqueira, citando o aumento de estelionatos virtuais identificado por outros estudos, como mostram as edições mais recentes do Anuário da Segurança Pública, feito pelo FBSP - Outro aspecto é a transformação da governança criminal, com grupos fazendo controle territorial. É algo que acontece há muito tempo no Rio, mas está se espalhando pelo Brasil.

Outro fator que é fonte de preocupação são os chamados homicídios ocultos. Tratam-se das ocorrências fatais que o Estado não consegue identificar se foram causadas por um acidente, suicídio ou homicídio. Essas mortes são classificadas como Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCIs). Uma metodologia desenvolvida pelos pesquisadores do Ipea permite calcular quais são provavelmente assassinatos.

A partir dos casos de homicídios ocultos, os pesquisadores calculam a chamada taxa de homicídios estimada, somando os casos registrados aos descobertos pela metodologia desenvolvida. Os dados indicam que, entre 2023 e 2024, homicídios ocultos aumentaram 88,6%, indo de 3.755 para 7.083. A taxa, por sua vez, subiu de 1,8 para 3,3 a cada 100 mil habitantes. Entre 2014 e 2024, foram 55.212 homicídios ocultos. Na avaliação do Atlas da Violência, a piora na qualidade da informação pode estar criando um "ponto cego estatístico".

- O modelo estatístico de aprendizado de máquina calcula a probabilidade de ser homicídio ou não a partir das características da pessoa e das circunstâncias - explica Cerqueira, que acrescenta - Por que existem as MVCIs? A primeira razão tem relação com a falta de compartilhamento de informação entre a polícia e o sistema de Saúde. Em geral, por um problema de gestão ou norma que cria dificuldades. Outra possível explicação é que a polícia não consegue identificar a causa da morte. Podem saber que há perfuração por arma de fogo, mas não conseguiram descobrir se foi homicídio ou não.

Abaixo, pesquise a sua cidade e veja os dados de homicídio registrados nela em 2024.

O Atlas da Violência também traz dados de mortes provocadas por disparos de arma de fogo. Em 2024, 29.870 homicídios ocorreram desta forma, uma redução de 8,8% em relação a 2023. Trata-se de uma taxa de 14,1 por homicídios por arma de fogo por 100 mil habitantes. Apesar da queda geral, cinco estados apresentaram alta: Maranhão (7,5%), Ceará (6,5%), São Paulo (2,8%), Santa Catarina (2,4%) e Rondônia (1,5%).

Violência alta contra mulheres, negros e população LGBT+

O Atlas da Violência aponta ainda para uma redução geral nos homicídios de mulheres ao longo da última década, com uma queda de 27,7% entre 2014 e 2024. Apesar disso, o Ipea e o FBSP destacam que a redução é puxada pela morte de mulheres fora do ambiente doméstico. Quando os pesquisadores analisaram as mortes ocorridas dentro da casa, encontraram um cenário de estabilidade. No mesmo intervalo de dez anos, a taxa de homicídios ocorridos nessas circunstâncias mudou pouco, variando de 1,25 para 1,18.

- É uma estabilidade inaceitável. O grande problema é que a raiz dessas violências é cultural. É a cultura do patriarcado, que coloca a mulher como inferior e pertencente ao marido. Isso não muda de uma hora para a outra - diz Cerqueira.

O maior índice da série para mulheres foi registrado em 2017, quando a taxa de homicídio foi de 4,7 mortes por 100 mil mulheres. Desde então, os pesquisadores observam um movimento de queda, mas evidente entre 2018 e 2019. Em 2024, a taxa foi de 3,4 mortes a cada 100 mil mulheres, com 3.642 mulheres assassinadas no Brasil.

- A maior parte das violências contra meninas e mulheres é doméstica, casos em que o autor era pai, mãe, padrasto, madrasta, namorado, companheiro, filho - completa Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP.

A violência contra pessoas negras também mantém-se em um patamar elevado. Em 2024, 32.820 mil foram vítimas de homicídios. É o equivalente a uma média de 89,9% assassinatos por dia. A taxa de homicídios entre negros é 170,3% superior à de não negros. A disparidade também se manifesta ao se analisar a violência letal contra mulheres negras, que apresenta uma taxa 66,7% superior à das mulheres não negras.

Os autores do levantamento apontam que o estado brasileiro falha ao registrar de forma sistemática os casos de violência contra a população LGBTQ+, o que gera uma "invisibilidade institucional". Segundo os dados do Atlas, as notificações de violência contra homossexuais e bissexuais aumentaram 5,5%, chegando a 10.250 registros. Já nas notificações de violência contra pessoas transexuais e travestis cresceu 2,5%, com 5.575 ocorrências contabilizadas.

- Temos também nesse período uma melhora no sentido de mais pessoas dispostas a se identificarem como dissidentes sexuais e de gênero, reconhecendo-se como homossexuais, bissexuais, trans e travestis. Estamos falando de violências que foram sofridas por essas pessoas e que não tinham necessariamente um caráter LGBTfóbico. Não sabemos o caráter dessa violência - diz Samira Bueno.

Entre outros números destacados pelo Atlas está a taxa registrada de homicídios entre indígenas, que é 22% superior à taxa nacional, atingindo a marca de 24,6 por 100 mil habitantes. No estado do Amazonas, a morte de indígenas dobrou em apenas um ano. O Ipea e o FBSP destacaram também as ocorrências de violência contra a população idosa, que cresceram 226,3% entre 2014 e 2024, com 30.097 casos anuais.

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/05/26/homicidios-caem-no-p…

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