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Homem causa pior extinção desde dinossauros

O Globo, Ciência e Vida, p. 30
21 de mar de 2006

Homem causa pior extinção desde dinossauros

Ana Paula de Carvalho
Especial para O GLOBO
CURITIBA.

Desde que os dinossauros desapareceram, há 65 milhões de anos, a Terra não atravessa uma onda tão devastadora de extinção como a atual. O fim dos dinossauros marcou também o de cerca de 90% da vida e cientistas estão convencidos de que o mundo caminha para destino semelhante se nada for feito com urgência para preservar a biodiversidade. Porém, desta vez espécies desaparecem não por causas naturais, como a queda de meteoros ou vulcanismo. A culpada é a ação humana.
O alerta foi dado ontem, na abertura da 8 Conferência das Partes da Convenção de Diversidade Biológica (COP8), em Curitiba. Ele está na nova versão do "Relatório sobre Biodiversidade Global", o documento oficial das Nações Unidas sobre a biodiversidade do planeta.
O objetivo da conferência é justamente estabelecer metas para conter a ação do homem sobre o meio ambiente. O relatório foi entregue ontem à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que defendeu a criação de mecanismos nacionais. Como exemplo, ela deu um projeto de lei sobre acesso a recursos genéticos.
- Temos um projeto concluído sobre o acesso e a partilha do uso de recursos naturais, que estamos estudando enviar para consulta pública ao Executivo ou diretamente ao Congresso Nacional - adiantou Marina.
A ministra disse que as questões mais polêmicas do projeto de lei já foram solucionadas.
- Não se trata de facilitar o acesso internacional aos nossos recursos, mas permitir a remuneração para os países detentores dos recursos genéticos.
O relatório foi elaborado por 1.300 especialistas em 95 países, dentre eles o Brasil. Dos 24 ecossistemas pesquisados, 15 estão ameaçados. Também em risco estão a oferta de água doce, a produção da pesca marinha, a capacidade de renovação da atmosfera e a a regulação de desastres naturais. A superexploração da pesca oferece um exemplo dramático: afetou a capacidade de recuperação de espécies de alto valor comercial, como atum, bacalhau e garoupa.
O relatório constata ainda que a substituição de matas por culturas agrícolas leva à perda de seis milhões de hectares anuais de florestas desde 2000. Além disso, cerca de 35% dos manguezais do mundo foram perdidos apenas nas últimas duas décadas. Confirmando o efeito devastador do desenvolvimento sem preocupação com o uso sustentável dos recursos naturais, as espécies selvagens apresentaram queda de 40% de 1970 a 2000, enquanto espécies de águas continentais sofreram declínio de 50% em sua biodiversidade.
Outro dado alarmante do estudo é a constatação de que a demanda da população global pelo uso dos recursos naturais cresce 20% a mais do que a capacidade de renovação dos recursos naturais.
- Queremos frear a perda de biodiversidade até 2010 - afirmou o secretário-executivo da Convenção sobre Diversidade Ecológica (CDB), Ahmed Djoghlaf.
Para alcançar a meta, a capacitação técnica de países menos desenvolvidos e a criação de um fundo com recursos financeiros até 2010 são algumas das recomendações que devem partir da COP8.
- Em 27 de março vamos firmar acordos de cooperação de agências como FAO e Banco Mundial para formar mecanismos financeiros capazes de reduzir o avanço da perda de biodiversidade - adiantou Djoghlaf.
O porta-voz da ONU, Nick Nuttall, afirmou que o valor econômico dos recursos naturais já é aceito pelos economistas e calculado.
- As florestas tropicais, como as existentes no Brasil, prestam um serviço que chega a US$ 60 bilhões anuais para compensar a emissão de poluentes na atmosfera - estimou Nuttall.

O Globo, Ciência e Vida, 21/03/2006, p. 30

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